DEDICATRIA
       Dedico este livro a voc, ____________________________________.
Com ele, desejo que descubra que cada ser humano possui
uma beleza fsica e psquica original e particular.
Aprenda diariamente a ter um caso de amor
com a pessoa bela que voc , desenvolva
um romance com a sua prpria histria.
No se compare a ningum, pois cada um
de ns  um personagem nico no teatro da vida.



_______________________ ___/___/___















AUGUSTO CURY


A DITADURA
DA BELEZA
e a revoluo
das mulheres
romance



SEXTANTE


Copyright (c) 2005 por Augusto Jorge Cury
Todos os direitos reservados.

EDIO: Regina da Veiga Pereira
REVISO: Dbora Chaves, Jos Tedin Pinto e Srgio Bellinello Soares
PROJETO GRFICO E DIAGRAMAO: Marcia Raed
CAPA: Raul Fernandes
FOTOLITOS: R R Donnelley
IMPRESSO E ACABAMENTO: Lis Grfica e Editora Ltda.

CIP-BRASIL. CATALOGAO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
C988d

Cury, Augusto Jorge, 1958-
  A ditadura da beleza e a revoluo das mulheres / Augusto Jorge Cury. - Rio de Janeiro : Sextante, 2005.
   ISBN 85-7542-198-0
  1. Beleza fsica nas mulheres - Fico. 2. Mulheres - Conduta - Fico. 3. Relaes homem-mulher - Fico. 4. Fico brasileira. I. Ttulo.

                                                         CDD 869.9 3
05-2979                                                          CDU82L134.3 (81)-3

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PREFCIO
         Durante mais de duas dcadas tenho investigado como psiquiatra e pesquisador da psicologia a ltima fronteira da cincia: o mundo onde se constroem os pensamentos
e so geradas a inteligncia e a conscincia. E, apesar de ser considerado um autor de sucesso e de ter meus livros publicados em dezenas de pases, no me sinto
um profissional realizado, pois tenho enxergado um massacre emocional nas sociedades modernas que vem me tirando o sono e perturbando a minha tranqilidade.
        Por pesquisar a mente humana e trat-la, tenho denunciado esse massacre sutil e srdido em congressos nacionais e internacionais. Agora chegou a vez de escrever
sobre ele. Preferi escrever em forma de fico em vez de produzir um texto de divulgao cientfica, pois sinto necessidade de recriar imagens inesquecveis que
esto na minha mente. Imagens de pessoas que dilaceraram seu prazer de viver e sua liberdade.
        Cada captulo  um grito que ecoa da minha alma. Usei dados reais na construo deste romance. Atravs de emoes intensas e de aventuras excitantes, meu
objetivo  dissecar um cncer social que tem feito literalmente centenas de milhes de seres humanos infelizes e frustrados - em especial mulheres e adolescentes.
        Vivemos aparentemente na era do respeito pelos direitos humanos, mas, por desconhecermos o teatro da nossa mente, no percebemos que jamais esses direitos
foram to violados nas sociedades democrticas. Estou falando de uma terrvel ditadura que oprime e destri a auto-estima do ser humano: a ditadura da beleza. Apesar
de serem mais gentis, altrustas, solidrias e tolerantes do que os homens, as mulheres tm sido o alvo preferencial dessa dramtica ditadura. Cerca de 600 milhes
de mulheres sentem-se escravas dessa masmorra psquica.  a maior tirania de todos os tempos e uma das mais devastadoras da sade psquica.
        O padro inatingvel de beleza amplamente difundido na TV, nas revistas, no cinema, nos desfiles, nos comerciais, penetrou no inconsciente coletivo das pessoas
e as aprisionou no nico lugar em que no  admissvel ser prisioneiro: dentro de si mesmas.
        Tenho bem ntida na mente a imagem de jovens modelos que, apesar de supervalorizadas, odiavam seu corpo e pensavam em desistir da vida. Recordo-me de pessoas
brilhantes e de grande qualidade humana que no queriam freqentar lugares pblicos, pois se sentiam excludas e rejeitadas por causa da anatomia do seu corpo.
        Recordo-me dos portadores de anorexia nervosa que tratei. Embora magrrimos, reduzidos a pele e ossos, controlavam os alimentos que ingeriam para no "engordar".
Como no ficar perplexo ao descobrir que h dezenas de milhes de pessoas nas sociedades abastadas que, apesar de terem uma mesa farta, esto morrendo de fome, pois
bloquearam o apetite devido  intensa rejeio por sua auto-imagem?
        Essa ditadura assassina a auto-estima, asfixia o prazer de viver, produz uma guerra com o espelho e gera uma auto-rejeio profunda. Inmeras jovens japonesas
repudiam seus traos orientais. Muitas mulheres chinesas desejam a silhueta das mulheres ocidentais. Por sua vez, mulheres ocidentais querem ter a beleza incomum
e o corpo magrssimo das adolescentes das passarelas, que freqentemente so desnutridas e infelizes com a prpria imagem. Mais de 98% das mulheres no se vem belas.
Isso no  uma loucura? Vivemos uma parania coletiva.
        Os homens controlaram e feriram as mulheres em quase todas as sociedades. Considerados o sexo forte, so na verdade seres frgeis, pois s os frgeis controlam
e agridem os outros. Agora, eles produziram uma sociedade de consumo inumana, que usa o corpo da mulher, e no sua inteligncia, para divulgar seus produtos e servios,
gerando um consumismo ertico. Esse sistema no tem por objetivo produzir pessoas resolvidas, saudveis e felizes; a ele interessam as insatisfeitas consigo mesmas,
pois quanto mais ansiosas, mais consumistas se tornam.
        At crianas e adolescentes so vtimas dessa ditadura. Com vergonha de sua imagem, angustiados, consomem cada vez mais produtos em busca de fagulhas superficiais
de prazer. A cada segundo destri-se a infncia de uma criana no mundo e se assassina os sonhos de um adolescente. Desejo que muitos deles possam ler atentamente
esta obra para poderem escapar da armadilha em que, inconscientemente, correm o risco de ficar aprisionados.
        Qualquer imposio de um padro de beleza estereotipado para alicerar a auto-estima e o prazer diante da auto-imagem produz um desastre no inconsciente,
um grave adoecimento emocional. Auto-estima  um estado de esprito, um osis que deve ser procurado no territrio da emoo. Cada mulher, homem, adolescente e criana
deveriam ter um caso de amor consigo mesmos, um romance com a prpria vida, pois todos possuem uma beleza fsica e psquica particular e nica.
        Essa frase no  um jargo literrio pr-fabricado, mas uma necessidade psiquitrica e psicolgica vital, pois sem auto-estima os intelectuais se tornam
estreis, as celebridades perdem o brilho, os annimos ficam invisveis, os homens transformam-se em miserveis, as mulheres no tm sade psquica, os jovens esfacelam
o encanto pela existncia.
        Em breve encerraremos nossa vida no pequeno "parnteses" do tempo que nos cabe. Que tipo de marcas transformadoras vamos imprimir no mundo em que vivemos?
Precisamos deixar ao menos o vestgio de que no fomos escravos do sistema social, de que vivemos uma existncia digna e saudvel, lutando contra uma sociedade que
se tornou uma fbrica de pessoas doentes e insatisfeitas.
         necessrio fazer uma revoluo inteligente e serena contra essa dramtica ditadura. Os homens, embora tambm vtimas dela, so inseguros para realiz-la.
Essa batalha depende sobretudo das mulheres. Neste romance, apoiadas por dois fascinantes pensadores, um psiquiatra e um filsofo, elas empreendem a maior revoluo
da Histria. Porm, pagam um preo altssimo, pois tm de enfrentar predadores implacveis.
        Para fazer essa revoluo internacional saturada de aventuras, lgrimas e alegrias, elas se inspiram no homem que mais defendeu as mulheres em todos os tempos:
Jesus Cristo. Descobrem que o Mestre dos Mestres correu dramticos riscos por elas. Ficam fascinadas ao saber que ele teve a coragem de fazer das prostitutas seres
humanos da mais alta dignidade, e das desprezadas, princesas.

                                           Dr. Augusto Cury


CAPTULO 1
        A belssima Sarah saiu do seu quarto cambaleante e entrou subitamente na ampla sala do apartamento. Seus cabelos longos e encaracolados estavam revoltos,
os olhos, fundos, a pele, plida e a respirao, ofegante. A modelo estava quase irreconhecvel. Ao v-la, Elizabeth, sua me, assustou-se. Assombrada, deixou cair
a revista das mos e soltou um grito.
        - Sarah! O que aconteceu, minha filha? - Havia um tom
desesperado em sua voz.
        - Nunca mais perturbarei voc. - A voz saiu frgil e pastosa,
enquanto a jovem desfalecia nos braos da me.
        - Sarah! Sarah! Fale comigo! - clamava Elizabeth com o corao
palpitando, um n na garganta e o semblante tenso. Tentou acordar a filha do sono profundo do qual parecia no haver retorno.
        Elizabeth colocou Sarah sobre o sof. Pegou o celular, mas seus dedos trmulos mal conseguiam digitar os nmeros. A angstia roubara-lhe a coordenao motora.
Uma simples tarefa parecia dantesca.
        Momentos depois, a ambulncia chegou. Ao ver o mdico e os enfermeiros, Elizabeth bradou:
        - Salvem minha filha! - As lgrimas molharam todo o seu rosto. Chorando, ela repetia: - No a deixem morrer. Por favor,
no a deixem morrer...
        O mdico rapidamente auscultou o corao da moa. Descompassado, ele ainda batia. A ambulncia seguiu clere para o hospital. Alguns momentos podem determinar
os captulos mais importantes de uma vida. Aqueles minutos tiveram um sabor eterno. O trajeto, que era pequeno, parecia interminvel. O som da sirene, que sempre
fora desconfortvel, agora agredia os ouvidos de Elizabeth. Ela queria acordar do pesadelo, mas a realidade era crua e angustiante.

?
        No outro dia a neve caa suavemente, pousando sobre os galhos das rvores, substituindo as folhas como flocos de algodo, produzindo uma paisagem fascinante.
O psiquiatra Marco Polo contemplava a paisagem branqussima pela vidraa, quando sua secretria veio lhe comunicar que uma me, em prantos, desejava falar-lhe. Sempre
sensvel diante da dor, ele se levantou, foi at a sala de espera, cumprimentou gentilmente a mulher desesperada e pediu-lhe que entrasse.
        Elizabeth sentou-se diante dele, olhou-o intensamente, mas estava paralisada e no conseguia pronunciar qualquer palavra. As palavras, porm, eram dispensveis,
pois os msculos contrados da face acusavam sua angstia, e as lgrimas que desciam pelo rosto, abrindo sulcos na maquiagem, revelavam sua dor. Para Marco Polo,
o templo do silncio era o ambiente mais eloqente para expressar a fora dos sentimentos. Por isso, ofereceu-lhe um leno e tambm o seu silncio. O leno, para
que ela enxugasse os olhos, e o silncio, para permitir-lhe penetrar nas vielas da sua personalidade numa tentativa de enxergar o invisvel, o essencial.
        Momentos depois, Elizabeth proferiu as primeiras palavras com a voz trmula:
        - Minha filha, Sarah, de 16 anos, tentou desistir da vida. Est internada num hospital. Estou chocada! - Falou como se enfrentasse o mais angustiante terremoto
emocional. Abalada, continuou: - No entendo o seu gesto. Dei tudo para essa menina. Ela foi tratada como uma princesa, mas nada a satisfaz. Ela se traiu e me traiu...
- Suas palavras revelavam um sentimento que alternava compaixo e raiva pela atitude da filha.
        Elizabeth tinha 42 anos e estava separada h trs. A separao dos pais no afetara a relao de Sarah com a me, pois o ambiente entre as duas j era pssimo.
O pai sempre fora alienado, pouco afetivo, negativista, culpando permanentemente os outros por seus erros. Nunca tivera xito em seus projetos e freqentemente precisara
do dinheiro da esposa para pagar suas contas. Elizabeth suportara o fracasso do marido, mas no a infidelidade. Quando soube que ele a traa, rompeu a relao.
        A distante relao de Sarah com o pai contrastava com a borbulhante relao com a me, pautada por atritos, discusses e acusaes. Em alguns momentos, Sarah
ameaava ir morar com o pai, mas, mesmo vivendo numa praa de guerra, me e filha no se abandonavam, no conseguiam ficar longe uma da outra. O apartamento belssimo
e espaoso era pequeno para conter os conflitos entre elas. Indignada e sofrida, Elizabeth apresentou a Marco Polo os paradoxos entre sua profisso e o mundo da
filha.
        - Estou deprimida e perplexa com tudo o que est acontecendo. Escrevo reportagens sobre auto-estima e felicidade, mas minha filha no tem prazer de viver.
Oriento jornalistas que trabalham comigo para valorizar o corpo da mulher, exaltar a
beleza e a sensualidade, mas minha filha detesta seu corpo, apesar de todos a acharem linda.
        Ela fez uma pausa para respirar, e ele, uma pausa para pensar.
        - Qual  o seu trabalho, Elizabeth? - perguntou Marco Polo
impressionado com o contraste que ela descrevia. Queria entender se o ambiente profissional e social da me exercera influncia no processo de formao da personalidade
da filha.
        - Sou gerente editorial da revista Mulher Moderna. - Sua informao veio sem o entusiasmo com que sempre exaltava seu trabalho.
        Os olhos de Elizabeth eram verdes, seus cabelos, pretos e longos, suavemente ondulados. Era uma bela mulher e uma executiva de sucesso. Ocupava a gerncia
editorial de uma das mais importantes revistas para o pblico feminino dos Estados Unidos, sediada em Nova York. Organizava a pauta, as matrias e estabelecia a
linha editorial das reportagens. Coordenava um batalho de jornalistas, fotgrafos e outros profissionais.
        Ganhara muitos prmios ao longo de sua carreira. Era determinada, criativa, sabia tomar decises e assumir riscos. Esforava-se para trabalhar em equipe
e motivar pessoas, mas no gostava de ser questionada, tinha tendncia a concentrar poder e exercer autoridade. Tinha carter forte e inteligncia brilhante. Sarah
era sua nica filha. Queria control-la e influenci-la, como fazia com os profissionais da sua equipe, mas no conseguia.
        Em seguida, suspirando, Elizabeth continuou a descrever seu inconformismo.
        - Sarah est no incio da carreira de modelo. Tem uma trajetria magnfica pela frente no mundo da moda. Milhares de
garotas desejariam estar no lugar dela. Como pode jogar tudo
para o alto? - disse, expressando sua perplexidade. E fez ao
psiquiatra a pergunta que fazia para si mesma, tentando achar o
fio condutor da crise da filha.
        - Como  que algum que foi amada, que teve todos os brinquedos, que no passou por perdas ou privaes, uma menina
socivel que freqentou festas e se destacou como aluna na escola, pode detestar a si mesma e a vida? Eu no compreendo as
reaes de Sarah.
        Elizabeth era uma mulher pragmtica, gostava de explicaes lgicas, e no conseguia entender o comportamento de Sarah, ilgico aos seus olhos. No admitia
ter uma filha emocionalmente doente, e muito menos ter contribudo para essa doena. Apesar de ser uma executiva brilhante, no sabia olhar para o espelho da sua
prpria alma nem velejar para dentro do seu ser, reconhecendo suas falhas e percebendo suas fragilidades.
        Para a me, o sucesso da filha como modelo coroaria seu sucesso profissional. O fracasso de Sarah colocaria em xeque sua filosofia de vida. Chegava a achar
que a jovem simulava alguns comportamentos doentios para que ela, como me, girasse em sua rbita. Pensava assim quando observava a filha vivendo momentos alegres
e descontrados com as amigas. No conseguia acreditar que ela realmente estivesse numa crise depressiva. Porm, a ultima atitude de Sarah a abalara profundamente,
mudando seu pensamento.
        - Vocs conseguem penetrar uma no mundo da outra? - perguntou Marco Polo sem meias palavras, tentando decifrar o
cdigo secreto da relao entre me e filha.
        - Doutor, minha filha  impenetrvel. Quando comeo a falar
algo, ela interrompe minhas palavras dizendo que j sabe. Nenhum conselho tem impacto, nenhuma orientao  bem recebida. Sinto-me uma intrusa, uma chata que invade
sua privacidade. Parece que ela tem prazer em me agredir.
        - Nenhuma personalidade  impenetrvel. Depende da chave
que voc usa - disse serena e sabiamente o psiquiatra.
        Elizabeth reagiu agressivamente diante dessas palavras:
        - E fcil falar de uma pessoa que voc no conhece. Se vivesse com minha filha, certamente no suportaria sua agressividade.
        Marco Polo percebeu que Elizabeth no acreditava na possibilidade de grandes mudanas na relao com Sarah. Pelo embate em que as duas viviam, o psiquiatra
teve a impresso de  elas se conheciam muito pouco, conheciam no mximo a sala de visitas da personalidade uma da outra. Tinham vivido muitos anos numa grande proximidade
fsica, respirando o mesmo ar, mas eram duas estranhas dividindo um espao comum. Diante disso, ele olhou fixamente para os olhos da mulher  sua frente e comentou
com segurana:
        - Por detrs de uma pessoa que fere h sempre uma pessoa ferida. Ningum agride os outros sem primeiro se auto-agredir. Ningum faz os outros infelizes,
se primeiro no for infeliz. - E, provocando a inteligncia de Elizabeth, disse: - Pense nisso.
        Essas palavras ecoaram dentro dela, deixando-a chocada. A me no conseguia entender a linguagem dos comportamentos da filha. Antes de ser modelo, para ganhar
um presente, trocar de celular, ter um novo videogame, Sarah tinha crises de ansiedade. Aos gritos, dizia que todos a rejeitavam porque era feia. Elizabeth sempre
tratara esses comportamentos como manha e manipulao, mas acabava cedendo. Pela primeira vez, comeou a compreender que, por mais que sua filha quisesse manipul-la,
seus comportamentos representavam um grito, no por um objeto, mas um pedido de socorro de algum que sofria e atravessava conflitos. Abalada por essas palavras
de Marco Polo, ela repetiu a frase em voz baixa, procurando absorv-la e entend-la plenamente:
        - "Por detrs de uma pessoa que fere h sempre uma pessoa
ferida." - Em seguida, falou: - Mas que trauma ela tem? O que
faltou a ela? Onde eu e seu pai erramos? - O tom expressava toda
a sua perturbao.
        Muitos pais se esforam para dar o mundo a seus filhos, mas
esquecem de dar a si mesmos. Compram roupas belssimas,
pagam as melhores escolas, os cobrem de presentes, mas no do
sua histria, no falam de si mesmos com eles, no lhes contam
seus fracassos, sucessos, perdas, golpes de ousadias, projetos Voc sabe quais so os sonhos de Sarah? J perguntou quais so lgrimas que ela nunca teve coragem
de chorar? J descobriu quais so seus temores e frustraes mais importantes?
        Elizabeth ficou sob o impacto das perguntas feitas pelo Dr. Marco Polo. Como a grande maioria dos pais, ela nunca conversara com a filha sobre seus dias
mais tristes, nunca perguntara sobre as lgrimas ocultas. Ficou abismada ao se dar conta disso, pois, como jornalista, havia entrevistado inmeras celebridades,
mas nunca formulara essas perguntas vitais  pessoa mais clebre da sua vida - sua prpria filha. O sucesso de Sarah era to evidente que a me nem mesmo perguntara
seriamente se seu grande sonho era mesmo se tornar modelo, ou se ela desejaria trocar a fama, o dinheiro e o status por uma carreira mais simples.
        - Sempre pensei que conhecia minha filha, mas agora estou
em dvida. Sinto-me culpada e fracassada como me - comentou, como se no pudesse sustentar suas convices.
        - Pais maravilhosos falham tentando acertar. No tenha medo
de entrar em contato com suas falhas, mas tenha cuidado, pois a
culpa destri ou constri. Se a dose da culpa for pequena, ela nos
estimula a refletir ou corrigir as rotas, mas, se for intensa, bloqueia a inteligncia e promove a depresso.
        Elizabeth respirou um pouco mais aliviada. Ela havia procurado o Dr. Marco Polo por indicao de Jlia, uma das jornalistas da sua equipe, que se tratara
com ele. Ela dissera que ele era instigante, ousado, transparente. A psicoterapia a tinha ajudado a superar suas freqentes crises depressivas, associadas a uma
vida pessimista e dependente. Jlia vivia dominada por uma necessidade neurtica de prestgio e aprovao dos outros.
        Uma frase inesquecvel do Dr. Marco Polo promovera uma mudana em sua vida: "Jlia, se voc no deixar de ser espectadora passiva de sua doena psquica,
se no se tornar atriz principal do teatro da sua mente, perpetuar sua doena, mesmo se tratando." Sob o impacto dessas palavras, ela compreendeu que alimentava
sua doena. Tinha medo de errar, de falar "no" e de expressar seu desejo e seu pensamento. Resolveu ento deixar de ser vtima da sua histria.
        Jlia deu assim um salto enorme em sua qualidade de vida, perceptvel para todos os seus colegas. Rompeu com um namorado que a humilhava, agredia e controlava.
Tornou-se intrpida, bem-humorada, e comeou a escrever textos mais ousados para a revista. A visvel mudana de Jlia motivou Elizabeth a procurar o terapeuta que
tratara a amiga, embora alimentasse poucas esperanas de que ele pudesse fazer o mesmo por sua filha.
        - Como corrigir meu relacionamento com Sarah, se ela me
critica o tempo todo e, pior, se ela vive se punindo, no se ama,
no ama a vida, no ama os amigos, enfim, parece no amar
nada? Ela j se tratou com trs psiclogos e foi acompanhada por dois psiquiatras. Nenhum desses tratamentos durou mais de um ms. Chegou a dizer que os psiquiatras
so tolos, no entendem nada  sobre ela. Sarah  muito resistente e insatisfeita. Reclama inclusive do sucesso, do assdio, dos elogios, dos prmios que recebe.
- Elizabeth suspirou desanimada. - Sinto-me incapaz de ajud-la.
        - Excelente! - exclamou Marco Polo, surpreendendo-a. - A
melhor coisa para conhecer a caixa de segredos da personalidade
de uma pessoa  reconhecer nossa impotncia para abri-la e decifrar seus cdigos. Deixe de lado o que voc pensa que sabe sobre Sarah. Comece um novo captulo na
sua histria com ela.
Abra-se para novas possibilidades. Procure penetrar alm da vitrine do seu comportamento.
        - Entre mim e minha filha h uma grande montanha.
        - No tropeamos nas grandes montanhas, mas nas pequenas pedras - disse poeticamente o pensador da psiquiatria.
        Essas palavras deixaram a me extasiada e reflexiva. Ela comeou a perceber que os atritos e ofensas mtuas tm incio nas pequenas coisas. Mas logo em seguida
entrou em algumas zonas de conflito do seu inconsciente e novamente mostrou seu pessimismo.
        - Minha filha j disse quatro vezes que me odeia - expressou
com profunda tristeza e vergonha.
        - O dio  uma pedra bruta do territrio da emoo, que
pode estar prxima ou infinitamente distante do amor - afirmou enfaticamente Marco Polo. - Dependendo do arteso que a lapida, ela se transforma na experincia mais
sublime do amor.
        As frases de Marco Polo desbloqueavam pouco a pouco a inteligncia de Elizabeth. Ele irrigava seu nimo e expandia sua viso sobre a vida, dando-lhe uma
perspectiva multifocal. Ela voltou a falar dos conflitos de Sarah. A filha queria um padro perfeito de beleza, e por isso rejeitava algumas partes do seu corpo,
odiando particularmente a anatomia de seu nariz. A belssima modelo achava seu nariz monstruoso. Depois de anos de insistncia, a me concordara que a filha fizesse
cirurgia plstica com um cirurgio de sua confiana. Aps a cirurgia, surpreendentemente, Sarah tinha entrado numa grave crise emocional e tentara o suicdio. Tomou
todo tipo de remdio que encontrou pela frente.

?

        Marco Polo no era apenas um psiquiatra que atendia seus pacientes no consultrio. Era tambm um pesquisador da psiquiatria e da psicologia, um pensador
da filosofia. Tinha uma viso ampla do ser humano. Escrevia artigos e livros sobre o caos da qualidade de vida das pessoas nas sociedades modernas.
        Estava convicto de que o assassinato da auto-estima de Sarah no era um caso isolado. Nos ltimos anos preocupava-se extremamente ao perceber que milhes
de mulheres adultas, adolescentes e at crianas estavam infelizes com a imagem de seu corpo, viviam paranicas em busca de um padro de beleza inatingvel. O psiquiatra
tinha plena conscincia de que a auto-rejeio encerrava o ser humano na mais profunda masmorra psquica.
        Para ele, os homens tambm estavam afundando cada vez mais nos pntanos de um falso ideal de beleza e, conseqentemente, desenvolvendo uma srie de transtornos
psquicos. O que mais intrigava Marco Polo era perceber que na gerao atual estava ocorrendo o entristecimento coletivo da humanidade. A expectativa seria de que
no sculo XXI - com o acesso  poderosssima indstria do lazer que supervalorizava a imagem, como a televiso, o cinema, as revistas e a internet - as pessoas se
tornassem as mais felizes que j pisaram no enigmtico palco dessa Terra. No entanto, elas pareciam cada vez mais infelizes, pois a emoo no reagia com uma alegria
estvel e intensa.
        A era da imagem trouxe uma expanso da beleza esttica em diversas reas da atividade humana. Mas, na rea da auto-imagem e da imagem do ser humano diante
do outro, provocou um estrago no inconsciente, fazendo com que grande parte das pessoas perdessem o senso da magia, da suavidade, da leveza do ser, do encanto pela
vida, afetando drasticamente a sade emocional e as relaes sociais. Marco Polo pesquisava esse paradoxo e se perturbava com ele. Para tentar ajudar Elizabeth a
superar seus conflitos com Sarah, ele falou em linguagem simples sobre o poder da imagem no processo da construo das relaes humanas.
        Comentou que ns nos relacionamos com os outros no pelo que so em si, mas pelas imagens deles arquivadas no subsolo de nossa personalidade, no inconsciente.
As crticas, os atritos, as agresses, assim como os sentimentos de desconfiana, incompreenso e intolerncia, construam sutilmente essas imagens nas janelas da
memria. Explicou que so elas que ditam as regras da relao, que determinam se as pessoas agiro com gentileza e amabilidade ou impulsividade e irritabilidade
umas com as outras. Duas pessoas encantadoras so capazes de viver em p de guerra se as imagens arquivadas no inconsciente delas forem pssimas. Alm disso, acrescentou,
no  possvel apagar essas imagens, como nos computadores, apenas reedit-las.
        Em seguida, mostrou a Elizabeth alguns segredos para atingir o territrio inconsciente das pessoas com quem ela tinha conflitos, em especial o de Sarah.
Disse que ela deveria comear conquistando a emoo de sua filha, e depois, sua razo. Se tentasse conquistar primeiro a razo, apontando os erros e falhas de Sarah,
teria grande chance de perpetuar os conflitos entre as duas. Era preciso explorar o solo da emoo da filha, surpreendendo-a nas pequenas coisas, falando o que nunca
tivera coragem de falar, tendo gestos nunca expressados. Deveria abra-la quando Sarah esperava uma repreenso, fazer um elogio quando esperava uma rejeio.
        Recomendou que a famosa gerente editorial se humanizasse, sasse da sua postura de executiva e libertasse a sua criatividade para ser fotografada na psique
de Sarah de maneira nova e afetiva. No lhe deu regras, mas mostrou o caminho da sabedoria. Terminou sua exposio dizendo:
        - A vida  um contrato de risco. Voc pode conviver com milhares de animais de outra espcie e nunca ter problemas, mas,
se conviver com um ser humano, por melhor que seja a relao,
haver problemas e decepes. - Com ousadia, completou:
        - Todos falhamos, frustramos os outros e somos frustrados
por eles. Todos estamos doentes em alguma rea de nossas personalidades, uns mais, outros menos, inclusive os psiquiatras e psiclogos. A sabedoria no consiste
em ser perfeito, mas em saber que no somos e ter habilidade de usar nossas imperfeies para compreender as limitaes da vida e amadurecer. No culpe Sarah, conquiste-a.
No se culpe, conquiste-se! Eu j desisti de ser perfeito, e voc? S uma pessoa incompleta precisa de novas conquistas.
        A ilustre jornalista suspirou profundamente, relaxou os msculos da face e esboou um sereno sorriso. Mergulhou na sabedoria do intrigante pensador. Pela
primeira vez se desarmou e no se sentiu culpada pelos seus erros. Lembrou-se dos obstculos que tinha enfrentado no incio da carreira. Foi preciso lutar muito
para materializar seus projetos e conquistar as pessoas. Agora tinha outro grande desafio: sair da rotina, reconstruir uma relao dilacerada e conquistar a quase
inconquistvel Sarah.


CAPTULO 2


        Sarah sobreviveu  tentativa de suicdio. Felizmente teve uma nova chance para comear tudo de novo. Logo aps sair do hospital, foi ao consultrio de Marco
Polo. Seu rosto estava um pouco inchado, e seus cabelos desarrumados desciam suavemente sobre os ombros. Estava magra e abatida. Era de se esperar que aps correr
risco de morte e passar pelo sofrimento decorrente da internao estivesse mais humilde e propensa para ser ajudada. Mas Sarah se mostrava arredia como sempre, agitada,
pouco acessvel.
        Marco Polo se apresentou e pediu que ela se sentisse  vontade para falar sem medo sobre sua histria. Mas Sarah, ansiosa, rebateu com agressividade a gentileza
do mdico.
        - Sentir-me  vontade aqui, no consultrio de um psiquiatra? Voc est brincando! - retrucou rispidamente. - Nem sei o que estou fazendo aqui.
        Marco Polo comeou a sentir na pele as inquietaes de Elizabeth. Sarah no poupava ningum, era uma pequena deusa que queria fazer todos se curvarem aos
seus ps. Seus psicoterapeutas anteriores tinham sido testados e tratados com indelicadeza por ela. Os que caram na sua armadilha, respondendo com rispidez s suas
provocaes, foram considerados fracos por ela, sem autocontrole, o que a levava a levantar-se e desistir do tratamento na primeira consulta.
        Marco Polo sabia que no podia se deixar dominar pela agressividade de Sarah. Precisava atravessar suas resistncias emocionais, seus penhascos psquicos,
para conhec-la intimamente. Afinal de contas, seu pai lhe dera o nome de Marco Polo para que ele fosse capaz de explorar muitos mundos, como o Marco Polo do sculo
XIII. Agora ele se encontrava diante do complexo mundo de Sarah. Precisava instigar sua inteligncia e descobri-la. Era uma tarefa dificlima e delicada.
        - Voc no sabe o que faz aqui ou tem medo de falar sobre
voc? - falou olhando fixamente em seus olhos.
        - No tenho medo de nada, nem de voc. S no gosto de
responder perguntas tolas - disse, provocando-o e testando-o.
        Marco Polo fez uma pausa e, em seguida, reagiu:
        - Voc poderia falar sobre o que aconteceu nos ltimos dias?
Por que voc foi internada? - perguntou sem ter certeza de que
ela seria transparente.
        - Os remdios? A internao? Aquilo foi um teatro! - Sarah
procurou dissimular sua tentativa de suicdio.
        - Ningum faz um teatro tentando desistir da vida! Ser
que voc no est sofrendo muito e no consegue transmitir o que
est sentindo?
        Sarah realmente sofria, e h bastante tempo, mas, como muitos, sofria calada. No sabia repartir sua dor. Vivia ilhada em seu oceano emocional. Tinha sede
de dilogo, mas no conseguia pedir gua. Negava seus conflitos. As palavras de Marco Polo abriram uma pequena fresta em seu calabouo, seus olhos umedeceram, mas
ela se conteve porque jamais chorava diante dos outros. Tentando esconder-se de si mesma, mudou completamente de assunto e atacou-o.
        - Voc deve ser mais uma pessoa manipulada pela minha me - falou, fazendo um pr-julgamento.
        - Manipulado? Tenho certeza de que no sou. E voc? Sente que  manipulada por ela? - indagou tentando que ela falasse
sobre o epicentro do seu drama.
        - Eu no! Nada e ningum me controla - respondeu, rpida e
rispidamente.
        - Nem sua angstia e ansiedade a controlam por alguns momentos? - ele disse, colocando-a contra a parede da sua prpria
histria.
        Sarah titubeou, pois sabia que era prisioneira do seu conflito. Sua vida era seca e sem sabor. O mundo social a considerava uma rainha, bela, rica, famosa.
Mas, no secreto do seu ser, conhecia os vales escabrosos da misria emocional. Entretanto, mais uma vez se esquivou.
        - Eu sou livre! - falou sem pensar.
        - O que  ser livre? - ele perguntou apressadamente.
        Sarah ficou momentaneamente perturbada. Estava acostumada a questionar os outros, mas agora encontrara algum que era especialista na arte da pergunta.
        - Eu sou livre e isso basta. No preciso dar-lhe explicao -
ela rebateu sem gentileza.
        Essas atitudes eram comuns: quando no tinha resposta, Sarah cortava a conversa abrupta e agressivamente. Ningum penetrava nos recnditos da sua personalidade,
nem ela mesma.
        Marco Polo considerava a vida como um grande livro, mas sabia que algumas pessoas no conheciam sequer o prefcio. Sarah era uma delas, apesar de sua rigidez
e auto-suficincia. Mas ele no se deu por vencido. Amava o desafio. Olhando fundo em seus olhos, disse-lhe:
        - Sarah, eu no fao parte de um jri para julg-la nem sou
um policial para reprimi-la, muito menos um conselheiro para
dar uma resposta rpida e mgica para o seu problema. Sou apenas um psiquiatra querendo entend-la. Para mim, voc no  uma celebridade do mundo da moda e da mdia
e nem uma pessoa digna de d, mas um ser humano.
          Sarah ficou surpresa com a argcia da argumentao de Marco Polo. Sua resistncia comeou a ceder. Mas ela reagiu, no se deixou dobrar, ainda tinha flego
para desdenhar dele. Comentou em tom de deboche:
        - No perca seu tempo. Ningum consegue me entender e ningum precisa me entender. O que conheo sobre mim  suficiente.
        Marco Polo j havia tratado de grandes polticos, empresrios, intelectuais, celebridades, mas raramente vira uma jovem to fechada, atrevida e rpida nas
respostas. Sarah parecia impermevel como uma pedra de mrmore. Vivia sob uma intensa armadura, estava sempre tensa, com a musculatura da nuca contrada, com dores
de cabea e fadiga excessiva. Proclamava um individualismo radical to doentio quanto o de uma pessoa dependente.
        - Se voc  plenamente livre e conhece o suficiente de si mesma, ento sua maturidade  maior do que a minha - falou decidida e corajosamente Marco Polo.
Aps conquistar sua emoo,
ele deu um choque de lucidez na sua razo. - Neste caso, temos
de inverter os papis. Voc deve me tratar, pois, quanto mais me
conheo, mais sinto que me conheo to pouco.
        Sarah ficou com o rosto vermelho. A rainha perdeu o trono da rigidez. Comeou a perceber que o orgulho era a coroa dos fracos, e a humildade, a dos fortes.
Vendo-a reflexiva, Marco Polo aproveitou para colocar mais combustvel na sua interiorizao. Elogiou-a e provocou seu intelecto:
        - Voc  uma jovem inteligente, mas creio que tem receio de
fazer a viagem mais importante que um ser humano pode realizar.
        Ela no queria perguntar, sabia que estava sendo envolvida por ele, mas no suportou a curiosidade.
        - Que viagem  essa? - indagou ansiosa.
        - Uma viagem para dentro de si mesma. Podemos viver sob os
holofotes da mdia, mas, se nunca fizermos essa viagem interior, seremos opacos e miserveis dentro de ns mesmos. Podemos viajar para todos os continentes e para
todos os pases, mas, se nunca viajarmos para as vielas do nosso ser, viveremos a pior solido da existncia.
        O pensador estimulava sua paciente, procurando faz-la ter contato com a arte da dvida, pois sabia que a dvida - que  a prola da sabedoria na filosofia
- a levaria a refletir sobre a vida.
        Sarah ficou atnita. Nunca fora to questionada no microcosmo de um consultrio. O ambiente inteligente comeou a abrir as janelas da sua mente, o que a
fez perguntar:
        - A que solido voc se refere?
        Pausadamente, Marco Polo respondeu:
        - Se todas as pessoas do mundo a abandonarem, inclusive seus
pais, a solido poder ser tolervel. Mas, se voc mesma se abandonar, ela ser quase insuportvel. A pior solido da existncia 
aquela em que ns mesmos nos abandonamos. Desculpe-me
perguntar: ser que voc no se abandonou? Voc vive um romance com a prpria Sarah ou se pune e maltrata a si mesma?
        A pergunta de Marco Polo fez Sarah penetrar dentro de si mesma como um mergulhador que visita uma regio nunca antes explorada. Foi o incio de um processo.
Atravs desse primeiro encontro consigo mesma, comeou a perder a capacidade de rebater sem pensar e a se dar conta de seu estilo auto destrutivo, debochado, punitivo,
agressivo. Percebeu o quanto tinha medo de entrar em contato com suas mazelas psquicas. Ficou alguns minutos em silncio. Foram os minutos mais profundos da sua
histria. Fez a orao dos sbios, o silncio. S o silncio podia conter os gritos que ecoavam nesse momento sublime de auto-conhecimento.
        O tempo da consulta terminou. Marco Polo gentilmente despediu-se dela. E disse que, se quisesse, poderia voltar. Do seu lado, ele teria prazer em ajud-la;
do lado dela, seria preciso fazer uma escolha. E toda escolha implica ganhos e perdas. Teria de continuar perdendo o medo de se descobrir, teria que abandonar sua
auto-suficincia irracional, se quisesse continuar a fazer mergulhos na prpria alma.

?
        Dois dias depois, Sarah desejou voltar. Embora no tivesse horrio para atend-la, Marco Polo abriu um espao na sua agenda. Ela estava mais aberta, flexvel
e disposta a tirar a maquiagem e desnudar seu ser. Mas este era um caminho difcil de ser trilhado, pois ela nunca confiara em ningum. Vendo algumas nuvens de resistncia,
Marco Polo disse-lhe:
        - Eu respeito a sua dor. Respeito inclusive sua deciso de se
fechar em seu mundo. Mas, se voc est aqui, d-se a chance de
se abrir. Invista em sua felicidade. - E, brincando, perguntou:
- Que tal voc aprender a ter um caso de amor com voc mesma?
        Ela sorriu, relaxou e desarmou-se. Desse modo, preparou-se para falar sobre os segredos da sua vida como nunca fizera antes.
        - O que voc quer saber? - indagou num tom mais ameno.
        - Por que voc quis desistir de viver? - perguntou Marco Polo
querendo entrar no epicentro do conflito de Sarah, para depois
explorar as margens.
        Depois de uma pausa, ela fez um comentrio surpreendente.
- Em primeiro lugar, eu no queria tirar minha vida, queria matar o cirurgio plstico que operou meu nariz! - E, querendo mostrar que ela no estava sendo irnica,
afirmou: - Estou sendo sincera. Antes de operar, sentia que meu nariz era horrvel, feio, repugnante. No conseguia me olhar no espelho sem perceber seu grave defeito.
Sabia  que, pelas costas, algumas colegas de classe zombavam de mim por causa desse defeito. Sentia que minhas colegas modelos tambm debochavam do meu nariz. Pensava
dia e noite em fazer cirurgia plstica, at que convenci minha me.
        Sarah foi operada pelo Dr. John Wilson, um cirurgio plstico reconhecido, habilidoso, mas frio, objetivo, lgico, sem afeto, um profissional que valorizava
muito mais o bisturi do que o dilogo, as curvas do corpo e no as sinuosidades da emoo. Prometia um paraso para quem estava no inferno da auto-rejeio pelo
prprio corpo. Como os golpes de um bisturi no corrigem as cicatrizes da psique, no poucas clientes ficavam insatisfeitas com a cirurgia. Algumas o processavam,
mas seu seguro polpudo pagava as demandas judiciais.
        O Dr. Wilson no sabia da dimenso do conflito de Sarah em relao ao prprio nariz. Era dispensvel oper-la, pois o nariz, bem torneado, tinha uma leve
salincia no dorso que somente Sarah enxergava. Ningum zombava dela, mas a imagem de seu nariz ficou to monstruosa em seu inconsciente que ela o considerava objeto
de rejeio e gravitava em torno dele.
        Achando que o conflito de Sarah era to pequeno quanto o diminuto defeito anatmico, o Dr. Wilson no a dissuadiu da cirurgia plstica e muito menos a preparou
para ela. Ter uma cliente que estava se tornando uma celebridade mundial, ainda mais sendo filha da cultuada executiva da supervalorizada revista Mulher Moderna,
era uma vitrine imperdvel para a sua clnica. Iria render-lhe milhes de dlares. Assim, operou-a o mais rpido possvel.
        - O que aconteceu, Sarah? - disse Marco Polo olhando para o
nariz dela e constatando como era bonito.
        Quando tiraram o curativo e vi meu nariz inchado, fiquei abalada, mas me pediram pacincia, pois diziam que depois de algumas semanas ele voltaria ao normal.
Quando desinchou, entrei em
crise porque percebi que ficou pior! Onde havia uma salincia, agora existe uma depresso. Fiquei desesperada. No conseguia dormir e ia continuamente ao espelho
observ-lo. E, quanto mais olhava, mais ficava deprimida. Fui mutilada pelo cirurgio plstico!
        - Desculpe-me, mas no enxergo o defeito que voc v - disse
o psiquiatra com simplicidade.
        - Voc est cego ou no quer enxergar? - ela rebateu enfaticamente. Mas, em seguida, pediu desculpas a Marco Polo e continuou: - Tenho raiva do Dr. Wilson,
ele me prometeu que eu
ficaria feliz, que meu novo nariz ficaria lindo, que meu astral
subiria s nuvens. Promessas, promessas, promessas! Ele me enganou, me iludiu, me traiu, por isso tive vontade de mat-lo.
Mas, como no podia tirar a vida dele, resolvi desistir da minha...
        As reaes de Sarah expressavam a sua enorme turbulncia emocional. Ela no conseguia expressar um dcimo do seu sofrimento. Era fcil julg-la, mas difcil
entend-la. Nem Elizabeth conseguia entender que a rejeio que a filha expressava em relao ao nariz era a ponta do iceberg da emoo de uma jovem que abandonara
a si mesma e tinha uma auto-imagem dilacerada. Ela era muito valorizada no mundo da moda, mas completamente insatisfeita consigo mesma. Assediada por fora, mas pauprrima
e solitria por dentro. No contemplava a vida, no brincava, no sorria e nem curtia os pequenos momentos. Era mais uma miservel vivendo num palcio.
        Marco Polo, introspectivo, comeava a entender os solos da complexa personalidade de Sarah. Era impossvel que algum to agressiva com ela mesma pudesse
ser dcil com quem a cercava. No seria coerente. Ela feria os outros, porque vivia ferida. Estabelecia um alto grau de exigncia na sua busca de felicidade. Apesar
da petulncia, do orgulho, do autoritarismo, havia um tesouro soterrado nos escombros de seus conflitos que nem seus ntimos nem ela mesma enxergavam.
        - Quantas pessoas disseram que seu nariz ficou timo? -questionou Marco Polo.
        - Muitas. Mas eu no acredito em ningum! - respondeu
incisivamente.
        - Beleza est nos olhos de quem observa. Quem se v bela, ser bela, ainda que esteja fora do padro neurtico de beleza - ele disse, esperando que ela admirasse
esse pensamento.
        Sarah parou, pensou, admitiu para si mesma a profundidade dessa idia. Mas reagiu:
        - Tolice est na boca de quem fala - rebateu agressivamente.
Percebendo que mais uma vez tinha reagido sem pensar e ofendido quem admirava, ela teve uma atitude rara. Desculpou-se:
- Perdoe-me, Dr. Marco Polo. Sou impulsiva, no gosto de ser
questionada - falou, encabulada.
        - Eu a compreendo - ele disse gentilmente.
        Essa simples frase ecoou de forma intensa no mago da jovem modelo. Marco Polo no cobrara nada, no criticara e nem  aconselhara, apenas a tinha compreendido.
A palavra compreenso no fazia parte do dicionrio da sua vida. A jovem modelo comeou a criar fortes vnculos com o intrpido psiquiatra. A confiana nele tornou-se
to slida que nas sesses seguintes de psicoterapia ela revelou um problema que lhe produzia um intenso sofrimento, mas que nunca havia contado para ningum.
        - Eu tenho bulimia - disse, chorando pela primeira vez.
        Desde o comeo da carreira de modelo, aos 12 anos, ela passara a ter medo de engordar. O medo se transformou em parania e levou-a a provocar vmitos quando
comia em excesso. No incio do processo no causava grande transtorno, pois fazia isso uma ou duas vezes por semana. Mas o que era uma reao incomum comeou a se
tornar freqente e desencadeou uma doena.
        Sarah sempre gostou de comer espaguete, pizza, chocolate, tortas. Como rejeitava seu corpo e tinha pssima auto-estima, estava sempre ansiosa. A ansiedade
a levava a comer compulsivamente. E, quanto mais comia, mais crescia o sentimento de culpa. E, quanto mais sentimento de culpa, mais ela provocava vmitos. H um
ano comeara a provocar vmitos diariamente e agora os provocava vrias vezes por dia. Como muitas portadoras de bulimia, fazia tudo escondido. Sentar-se  mesa
deixara de ser um momento de prazer e se tornara um ritual de sacrifcio.
        Aps relatar seu drama a Marco Polo, a belssima Sarah revelou a tortura dos desfiles. Apontou algumas causas da bulimia.
        - Uma modelo deve ter 20 quilos a menos do que sua estatura. Como eu tenho 1,70 m, tinha de pesar 50 quilos no mximo. Se engordasse um pouco, alguns estilistas
e produtoras de moda diziam que minha carreira estava em risco. Se pesasse 52 ou 53 quilos, era rejeitada para desfilar em algumas passarelas. Odiava a vida de modelo
por isso. Era escrava de uma imagem que me deixava infeliz. A bulimia me fazia manter o peso, mas me corroia por dentro.
        Marco Polo sabia que manter um peso to baixo era uma violncia enorme contra bilhes de clulas do corpo que clamavam por nutrientes. Um peso to baixo
s era possvel sob uma severa desnutrio, como a que acontecia com pessoas famintas da frica Subsaariana. O regime a que as modelos se submetiam para ter alguns
momentos de glria nas passarelas, nas capas de revistas ou nos comerciais, era tirnico, doentio, insano, ia contra aos parmetros de sade da medicina.
        Aps essa revelao, Sarah teve coragem de confessar a Marco Polo que nos dias que antecediam os desfiles a loucura aumentava. As modelos trancavam a boca,
usavam indevidamente laxantes e diurticos. Algumas chegavam a injetar em si mesmas estimulantes para bloquear o apetite. Transformavam suas vidas num inferno. E
no dia do desfile a parania se expandia, elas ficavam seis, sete e s vezes 10 horas sem comer literalmente nada, para no formar qualquer proeminncia nas magrrimas
barrigas.
        - Por causa desse jejum maquiavlico, algumas modelos tinham vertigem nos camarins e, para evitar que desmaiassem nas
passarelas, colocavam sal na boca para aumentar a presso sangunea - disse Sarah, recapitulando a tortura que tantas vezes sentira.
        Marco Polo pensou: "Meu Deus! As sociedades modernas realmente se tornaram fbricas de pessoas doentes. So essas modelos que ditam a moda e servem de padro
de beleza para mais de dois bilhes de mulheres. O culto ao corpo supermagro difundido pela mdia est gerando uma psicose social coletiva que assassina a auto-estima
e a auto-imagem de crianas e adultos, inclusive os homens."
        Como pensador da psiquiatria, Marco Polo h alguns anos descobrira a sndrome PIB: Padro Inatingvel de Beleza. Percebia que essa dramtica sndrome vinha
se tornando cada vez mais freqente e intensa. Ficava abalado ao detectar que os conceitos de auto-aceitao, de atrao fsica, de aceitao social e de bem-estar
estavam sendo construdos em cima de um padro doentio. Nem as modelos escapavam dessa tragdia. Nesse ambiente estressante, elas desenvolviam vrios transtornos
psquicos. Sarah era livre para movimentar suas pernas nos desfiles, mas no para se alegrar, viver a vida intensamente.
        Meditando sobre sua profisso, a jovem modelo teve a lucidez de afirmar:
        - Em muitos momentos sentia-me apenas um objeto cuja
imagem era moldada artificialmente para ser admirada. Poucos
se importavam com o que eu e as outras modelos pensvamos e
sentamos. A embalagem valia mais do que o contedo.
        Nesse momento, Sarah chorou e apontou algumas graves conseqncias que ocorrem ao cultivar um corpo magrrimo:
        - Minha menstruao parou. No tenho prazer sexual. Sinto-me assexuada, velha e sem energia.
        Suas palavras desvendavam um sistema de tortura aceito nas sociedades democrticas a que milhares de modelos se submetiam. Como era feito sem acompanhamento
profissional de um nutricionista, o regime constitua um calvrio to grande para o corpo que alguns mecanismos biolgicos entravam em cena tentando proteg-lo.
        A privao de nutrientes bsicos para a manuteno da vida gera a produo anormalmente baixa do hormnio estrgeno, que em sua ltima etapa provoca o bloqueio
da menstruao - amenorria. Como o crebro interpreta que as pessoas insuficientemente nutridas correm risco de morrer, considera que no devem procriar, mas apenas
preservar a vida. O homo bios prevalece sobre o homo sapiens, ou seja, os instintos entram em cena porque o intelecto no sabe fazer escolhas, optar pelo prazer
e pela sade.
        O bloqueio da menstruao era o grito de alerta de bilhes de clulas do corpo, revelando uma grave disfuno fisiolgica e suplicando para que as modelos
mudassem seu estilo de vida. Mas elas raramente ouviam essa voz. Precisavam brilhar nas passarelas, mesmo destruindo a prpria sade fsica e a sade emocional de
milhes de mulheres que nelas se espelhavam. Era o pleno exerccio da lei da sociedade de consumo que o Dr. Marco Polo abominava.
        Por mergulharem nesse pntano estressante, diversas modelos envelheciam mais cedo do que as demais mulheres, tanto fsica como emocionalmente. No percebiam
que eram frgeis vtimas de um sistema predador que nunca as amara, apenas as usava e descartava.
        Marco Polo se comoveu com a histria de Sarah. Queria manter distncia de sua dor para interpret-la melhor, mas era impossvel no se envolver. Deixou escapar
algumas lgrimas e, sem medo, enxugou-as com as pontas dos dedos. Tentando estimular o resgate do prazer de viver da jovem, o psiquiatra perguntou-lhe:
        - Quais so seus sonhos, Sarah?
        - Doutor, atualmente ganho quase um milho de dlares por
ano. Alguns dizem que ganharei muitos milhes em poucos anos. Ganho 10 vezes mais do que minha me e meu pai juntos. - Respirou lentamente e, com a voz embargada,
dissecou sua nudez psquica: - Sou admirada, mas deprimida. Fao poses, distribuo sorrisos, demonstro alegria, vendo produtos. Sou uma especialista em disfarces.
        Essas palavras se alojaram no mago de Marco Polo. Ficou surpreso com a sinceridade e a argcia do raciocnio de Sarah. Ela, que tinha tanta resistncia
em falar, uma vez removidos os fatores que a bloqueavam, mostrava uma transparncia rarssima e uma inteligncia notvel. Mas Sarah no sabia falar dos seus sonhos.
Era como se eles tivessem se dissipado. Ele insistiu:
        - Ser modelo  o seu sonho? Voc tem outros sonhos?
        Ela fez uma viagem em seu imaginrio, velejou em seu passado e disse:
        - Meus sonhos? Queria ter tido infncia, brincado mais, corrido atrs das borboletas, me preocupado menos com meu corpo, com roupas, com a moda. Queria viver
suavemente, sem
grandes compromissos com o sucesso. Milhares de mulheres querem me imitar, todos os dias adolescentes pedem meu autgrafo, mas elas invejam uma pessoa infeliz. Elas
no sabem que sou eu que as invejo. - As lgrimas encheram seus olhos.
        Sarah disse tambm que sonhava em ser uma escritora, mas seus pais a dissuadiram. Diziam-lhe que dificilmente conseguiria sobreviver, pois no tinha uma
boa redao. Elizabeth, apoiada por amigas, insistia em afirmar que ela era linda, que teria uma carreira brilhante pela frente como modelo. O sucesso de Sarah como
modelo se tornara o projeto de Elizabeth.
        - Minha me vive e respira o mundo da moda. Mas parece
que est anestesiada. No percebe o teatro de terror que eu e
muitas top models vivemos.
        - Que sentimento voc tem em relao  sua me? Seja sincera - perguntou, procurando estimul-la a falar o que provavelmente jamais conseguira expressar.
        Aps um momento de interiorizao, Sarah balanou a cabea e disse:
        - Eu no entendo. Todos gostam de minha me, a elogiam e
admiram, mas no sei o que sinto. Na realidade, meus sentimentos so duplos. Eu a amo, mas parece que em alguns momentos a odeio. Eu a admiro e a rejeito. - Enxugou
os olhos. - Minha me queria que eu fosse educada  sua imagem e semelhana. Tinha de estar sempre bem-arrumada para receber elogios. Transformou-me numa boneca
que combinava cada pea de roupa, mas no fundo eu queria ser apenas uma criana, solta, alegre, com todos os meus defeitos. Ah! Como eu invejava as crianas que
comiam tortas de mas lambuzando o rosto. - Sua voz atingiu um tom mais alto.
        - Parabns. Voc est sendo espontnea, honesta consigo
mesma e sem medo de entrar em contato com sua realidade. - Marco Polo incentiva a sua trajetria interior. Ela sorriu e ele
recomendou: - No gravite na rbita da sua imagem. No tenha
uma necessidade neurtica por elogios. Seja voc mesma. Deixe
a criana que ainda vive em voc respirar. Descubra o mundo
maravilhosamente belo que est ao seu redor. Ningum pode
fazer isso por voc!
        O tempo de mais uma sesso de psicoterapia acabou. Sarah estava aliviada, no sabia explicar o prazer de dividir sua angstia. Como sinal de gratido, quebrou
a formalidade do tratamento e pediu:
        - Posso lhe dar um abrao?
        Ele meneou afirmativamente a cabea. Ela o abraou com afeto. Agradeceu-lhe por ouvi-la sem julg-la:
        - Obrigada por fazer de mim uma viajante.
        Sorrindo, o psiquiatra respondeu:
        - Obrigado por me deixar conhecer a sua histria. Voc  uma
jovem fascinante.
        Nos bastidores da mente de Sarah havia vrios conflitos que ainda no tinham sido resolvidos e que viriam para o palco consciente quando ela atravessasse
um foco de tenso constitudo de derrotas, crticas, rejeies, ou olhasse para o espelho e percebesse defeitos em seu corpo. Mas Sarah encontrara seu caminho. Isso
fazia toda a diferena.
        Decidiu que jamais desistiria da sua vida, pois foi descobrindo que valia a pena viv-la, apesar dos vales e montanhas que atravessaria. O tratamento a fez
estilhaar a pior solido humana -resolveu que nunca mais se auto-abandonaria, mesmo que o mundo desabasse sobre ela.
        Sua auto-estima deixou de ser doentia, fundamentada numa busca estpida pela perfeio do corpo, e passou a ser inteligente, pois Sarah finalmente se convenceu
de que a beleza est nos olhos do observador. A belssima modelo estava exultante, pois deixara de ser escrava do sistema. Mas o sistema no a perdoaria.


CAPTULO 3

        Durante o tratamento, Marco Polo estimulou Sarah a reconstruir a relao com sua me. Mostrou-lhe que as acusaes deveriam ser abolidas e o afeto ser expresso.
E, procurando prepar-la para um dos dilogos mais difceis da sua vida, disse que a arte de ouvir  to ou mais importante do que a arte de falar.
        - Ningum tem sucesso em ouvir, se no aprender a se colocar no lugar do outro. Nenhum relacionamento  perfeito. Sua me no precisa de um juiz para julg-la,
mas de uma filha para compreend-la e am-la.
        Aps esse comentrio, explicou que para reconstruir um relacionamento era necessrio usar trs ferramentas. A primeira  pensar antes de reagir. Quando estamos
tensos, fechamos as janelas da memria e reagimos sem pensar, por instinto, como animais. Os fracos usam a fora, e os fortes, a inteligncia. E pediu cuidado, pois
nos primeiros trinta segundos de tenso cometemos nossos maiores erros e ferimos as pessoas mais caras de nossas vidas. A segunda ferramenta  ser sempre transparente,
mas deve-se falar com generosidade. Disse que os fracos impem suas idias e controlam os outros, enquanto que os fortes expem suas idias e respeitam as diferenas.
A terceira  surpreender quem se ama. Cada pessoa tem uma personalidade prpria, com seus enigmas. Para conquist-las  necessrio surpreend-las, dizer o que nunca
se disse, pronunciar palavras nunca antes proferidas.
        Marco Polo esperava que Elizabeth tambm refletisse sobre esses princpios que lhe transmitira no primeiro e nico contato. Depois de dar essas orientaes
a Sarah, ele completou:
        - Apostar no outro, perdoar continuamente, dar sempre uma
nova chance  fundamental para superar frustraes e criar novos vnculos. No  uma tarefa mgica, mas uma tarefa possvel.
        Elizabeth e Sarah tropeavam justamente nos trs princpios descritos pelo psiquiatra. Elas guardavam mgoas, eram pssimas ouvintes, dissimulavam seus comportamentos
e eram especialistas em cobrar e no em surpreender uma  outra com novas atitudes. Eram engessadas. No momento em que Sarah se sentiu mais confiante, procurou sua
me para um dilogo. Estava animadssima.
        Na teoria, tudo parecia uma maravilha, mas na prtica o dilogo comeou de maneira desastrosa. Perderam novamente o controle, no se entenderam, pareciam
falar lnguas distintas, esqueceram de quase tudo o que Marco Polo havia dito. As feridas foram abertas, e as decepes, expostas.
        - Me, voc sempre me controlou - bradou Sarah, pensando que estava sendo transparente. - Voc decidia o vestido e os sapatos que eu deveria usar, os amigos
que eu deveria ter, os cursos que eu deveria fazer.
        - Voc no entende que era uma criana? No sabia decidir. Eu tentei fazer o melhor para voc - expressou Elizabeth, com medo de reconhecer seus erros. Essa
recusa da me em admitir os prprios erros deixava Sarah irada.
        - Eu concordo e sei que uma criana no pode fazer todas as
suas escolhas. Mas algumas escolhas ela pode e deve, caso contrrio, ser insegura, marionete dos seus pais e da vida - disse Sarah com convico. As idias estavam
corretas, mas a maneira de diz-las, errada. Ela as impunha, em vez de simplesmente exp-las.
        - Marionete dos pais? Ningum tem controle sobre voc. Voc
 autoritria! - falou Elizabeth resgatando em sua mente as freqentes reaes agressivas de sua filha.
        - Minha agressividade no  gratuita! - retrucou rispidamente
Sarah, tentando justificar as suas atitudes e denunciar os comporta
mentos da me. Mas, antes que ela continuasse, Elizabeth rebateu:
        - Sim, sua agressividade tem uma explicao, chama-se ingratido. Voc reclama de tudo que fao por voc. Voc  uma ingrata! - expressou em tom mais alto.
        - Voc s me critica, s enxerga meus defeitos - defendeu-se a
filha perdendo a pacincia. E adicionou, asperamente: - Estou dizendo que voc assassinou minha infncia! No deixou a Sarah
criana respirar! Voc me arrumava para ser admirada pelos outros.
        - Est vendo seu tom de voz? Voc s sabe me acusar e me
agredir! - falou Elizabeth irritada e tensa, procurando se proteger do sentimento de culpa que Sarah sempre colocava sobre ela.
- Voc nunca me entendeu! Eu a agredia tentando sobreviver - gritou Sarah totalmente alterada.
        - Sobreviver? - bradou Elizabeth sem qualquer racionalidade. - Como? Matando-me e se matando! - Quando percebeu, j tinha vomitado essas palavras do seu
inconsciente. Ao cair em si, teve medo que Sarah regredisse em seu tratamento. No trabalho, a chefe editorial sabia resolver conflitos, em casa perdia o controle,
no admitia ser contrariada. Me e filha viviam num crculo vicioso que dilacerava a relao. Sempre terminavam as conversas com raiva uma da outra.  Vendo Sarah
abalada pela maneira como tratara sua tentativa de suicdio, retrocedeu e falou:
        - Desculpe-me. - E no conseguiu dizer mais nada.
        Sarah se recomps. Num momento de lucidez, surpreendeu pela primeira vez sua me de maneira consciente.
        - No se preocupe, me. Resolvi que nunca mais desistirei da minha vida. Resolvi ser feliz, mesmo que o mundo desabe sobre mim.
        Elizabeth suspendeu a respirao por alguns segundos e refletiu no que acabara de ouvir. E, antes que pudesse dar uma resposta, Sarah, num tom suave, rasgou
seu corao. Novamente surpreendeu a me, expondo serenamente seu pensamento:
        - Perdoe tambm minha agressividade e intolerncia. Eu no quero acus-la, apenas dizer o que sinto. Sei que voc tentou fazer o melhor para mim, mas no
me deixou ser criana, no me deixou ser espontnea e livre. Vivi atolada de atividades e responsabilidades. Voc no percebe que sou uma jovem triste?
        Aps expressar esses sentimentos, Sarah desatou a chorar. Nunca se permitira mostrar qualquer fragilidade diante da me. Vendia a imagem de uma pessoa dura,
determinada, imbatvel, mas  no fundo queria ser abraada, beijada e acariciada por ela. Afinal, era apenas uma adolescente.
        Ao ouvir essas palavras e v-la chorando, Elizabeth se desarmou e mergulhou profundamente dentro de si. Pela primeira vez teve a noo de que o tempo passara
rpido, que no vira sua filha crescer. O pai de Elizabeth tinha vivido as atrocidades da Guerra do Vietn. Era uma pessoa depressiva, negativista, seca e, ainda
por cima, alcolatra. No aprendera o alfabeto do afeto, por isso nunca o ensinou para Elizabeth, que, por no aprend-lo, no o transmitiu  pequena Sarah.
        Elizabeth sempre ouvia seu pai falar dos horrores da guerra, principalmente quando bebia. Em alguns momentos a sala da casa parecia um pequeno Vietn. Seu
pai gritava, ameaava e agredia sua me. A pequena Elizabeth se escondia debaixo da cama, tremendo de medo. A brilhante executiva do mundo editorial no teve infncia
e vivia assombrada com seu passado, ainda que no percebesse. Passou privaes. Precisou trabalhar desde muito cedo para ajudar sua me e pagar seus estudos.
        Os traumas por que Elizabeth passou foram to intensos que ela quis transformar sua Sarah numa garota vencedora, que tivesse um grande futuro, sem as dificuldades
que vivera. Colocou-a no bal, nas aulas de canto, natao, lnguas, computao, postura. Querendo fugir dos traumas que sofrera com o pai, compreendeu naquele momento
que, em nome do futuro de Sarah, causara uma catstrofe no seu passado. Em seguida, lembrou-se das palavras de Marco Polo: "Por detrs de uma pessoa que fere h
sempre uma pessoa ferida."
        Sob o impacto dessa reflexo, Elizabeth percebeu a dimenso dos seus erros e comeou a chorar incontidamente, dizendo:
        - Meu Deus! O que eu fiz com voc, minha filha? Quanto
peso coloquei sobre sua vida?
        Enxergou finalmente que Sarah no era uma fonte de ingratido. Sarah queria viver, se soltar, ser ela mesma, mas Elizabeth a sufocava. Descobriu que sua
filha era como uma prola fechada numa ostra.
        - Mame - disse Sarah comovida e de um modo mais carinhoso -, eu no queria ser repreendida quando sujava a boca
com tortas, derramava o leite na mesa, brincava descala nas praas, tropeava nas aulas de dana. No queria ter medo de
errar, falhar, dar vexame. Mas durante muito tempo vivi em
funo dos outros.
        - Minha querida filha, me perdoe. Como eu errei tentando
acertar! Eu nunca quis que voc fosse perfeita, Sarah, mas acho
que, sem perceber, exigi isso de voc. - E a abraou como nunca
o fizera. Sarah se entregou ao carinho da sua me. O abrao foi
um brinde  singeleza e  sensibilidade.
        Aps esse momento fascinante, Sarah tambm reconheceu seus erros.
        - O Dr. Marco Polo falou que adquiri a sndrome PIB, que significa Padro Inatingvel de Beleza. E disse que mesmo uma criana que teve uma infncia feliz
pode ser vtima dessa sndrome. Eu tambm cometi falhas. Cuidei excessivamente da minha imagem, e por isso aprendi a me cobrar demais, perdi a simplicidade da vida,
passei a me punir, tornei-me amarga e rgida. Eu me esforava para gostar de mim mesma, mas me rejeitava. -Soluando, acrescentou: - Ajude-me, mame, a ser eu mesma!
        - Minha filha, voc  encantadora. Eu a amo mais do que tudo nessa vida. Eu a ajudarei, mas me ajude tambm a descobri-la, a enxergar o que est escondido
dentro de voc. - As lgrimas continuavam a deslizar pelo rosto de Elizabeth.
        Elas se abraaram novamente. Tinham vivido mais de cinco mil dias juntas no mesmo ambiente, cruzaram mais de um milho de vezes nas salas, quartos e corredores,
mas era a primeira vez que cruzavam suas histrias. Foi um momento solene. Descobriram que no podem mudar o passado, mas construir o futuro.


?
        As pesquisas e estudos de Marco Polo o levaram a concluir que o ser humano enxerga a si mesmo e ao mundo atravs das janelas da memria que ele abre a cada
momento existencial. Se ele abre as janelas light, que contm experincias serenas, tranqilas e prazerosas, elas iluminam sua capacidade de pensar e estimulam a
produo de respostas inteligentes, mesmo em situaes estressantes.
        Mas se ele abrir as janelas killer, que contm experincias fbicas, ansiosas, angustiantes, o volume de tenso dessas janelas bloqueia a inteligncia e
assassina a lucidez. As janelas killer contm imagens distorcidas da realidade. Dependendo das janelas que so abertas, um elevador pode parecer um cubculo sem
ar, e uma rea do corpo fora do padro de beleza se transforma num gravssimo defeito anatmico.
        Para Marco Polo, cada ser humano constri janelas killer no processo de formao da sua personalidade, uns mais, outros menos. Mesmo as pessoas mais coerentes
reagem em alguns momentos irracionalmente. Alguns intelectuais, quando lidam com dados lgicos, demonstram uma expressiva racionalidade, mas, quando questionados,
contrariados ou ofendidos, so capazes de reagir como crianas, tornando-se nesses momentos prisioneiros das janelas killer. Para o pensador da psiquiatria, as sociedades
democrticas no so um celeiro de pessoas livres, pois escondem diferentes tipos de crceres psquicos. E o crcere da ditadura da beleza estava se tornando o mais
destrutivo e difundido.


?
        Em outra sesso de terapia Sarah reclamou de outra rea do corpo. O nariz j tinha sido aceito, mas agora achava seu pescoo muito longo. Quanto mais se
olhava no espelho, mais o achava comprido. Ela se comparava freqentemente com outras top models. Queria livrar-se dessa psicopatia, mas as janelas killer que possua
ainda a asfixiavam. Sabia que podia fazer plstica nos seios, aument-los ou diminu-los, mas no podia diminuir o tamanho do pescoo. E tambm no podia fazer plstica
na emoo, para aprender a se curtir e se amar do jeito que era.
        Reclamou tambm que comprava roupas compulsivamente e tinha a sensao de que nenhuma lhe caa bem. A roupa que a animava no primeiro dia de uso, no segundo
no gerava excitao e no terceiro produzia decepo.
        Observando sua aflio, Marco Polo disse-lhe:
        - Beleza no  um clculo matemtico, mas um estado de esprito, Sarah. No passado, as pessoas eram aprisionadas por algemas de ferro; hoje, por algemas
emocionais. Qual  a pior escravido? - perguntou, procurando faz-la superar sua ansiedade.
        - No tenho dvida de que  a emocional - falou Sarah, pensando que, embora os escravos fossem atados com cadeias de
ferro, eles eram livres para sonhar, amar, pensar. Enquanto ela
estava algemada por dentro. Tinha tudo e no tinha nada. Feliz
mente j havia se libertado de algumas das suas algemas.
        - Voc quer ser escrava do padro doentio de beleza difundi
do pela mdia ou quer ser livre? Sem reeducar sua emoo para
ser livre, voc andar em crculos.
        Sarah respirou profundamente. Enquanto o oxignio penetrava no tecido do seu corpo, as palavras de Marco Polo entravam no tecido da sua alma. Deram-lhe energia
para responder taxativamente:
        - Quero viver com prazer. Eu j tinha decidido no desistir
mais da minha vida, agora vou treinar minha inteligncia para
repensar o padro ditatorial de beleza que ajudei a construir.
        De fato, Sarah foi parando de cobrar muito de si e de no esperar muito dos outros. Foi passando a enxergar a vida por diversos ngulos, tornando-se um ser
humano multifocal. Deu enormes saltos no tratamento. Aprendeu pouco a pouco, com Marco Polo, a contemplar as nuvens, a observar os detalhes da natureza, a conversar
com as plantas, dialogar consigo mesma e fazer das pequenas coisas um espetculo para os prprios olhos.
        Assim como seu psiquiatra, ela se tornou uma poetisa da vida, brincando, instigando, fazendo da existncia uma aventura suave e serena. Redescobriu o prazer
de comer sem culpa, fez as pazes com os alimentos. No se sentia mais na obrigao de ser referencial de beleza, s queria ser ela mesma. Venceu a batalha contra
o espelho. Viveu dias felizes at a chegada do inverno.


CAPTULO 4
        Elizabeth ficou felicssima ao constatar a superao gradual dos conflitos de Sarah. Entretanto, comeou a ter noites de insnia. Refletia sobre a sndrome
PIB. Preocupava-se imaginando se a revista Mulher Moderna no estaria contribuindo de algum modo para que as suas leitoras estivessem buscando um padro inatingvel
de beleza.
        O que realmente seria essa sndrome? Quais eram as suas causas? Quantas mulheres seriam atingidas por ela? Em que idade ela comearia? Quais seriam seus
sintomas e suas seqelas ao longo do tempo? Perguntas como estas ocupavam a mente de Elizabeth. Afinal de contas, sua revista tinha uma tiragem mensal de um milho
de exemplares. Cada exemplar era lido por pelo menos cinco mulheres; portanto, mais de cinco milhes de leitoras tinham acesso s idias que ela veiculava periodicamente..
        Elizabeth era incisiva, determinada, s vezes autoritria, com os jornalistas da sua equipe, mas tica era algo que no lhe faltava. Todos os artigos, entrevistas
e reportagens tinham como objetivo promover a qualidade de vida da mulher atual, incluindo as adolescentes. Sentia calafrios ao pensar agora que poderia estar contribuindo
para prejudicar inconscientemente a personalidade de seus leitores, incluindo homens, pois 15% deles a liam. "Ser que essa sndrome no est apenas na cabea de
Marco Polo?", questionava-se.
        Diante disso, ela o convidou para uma conversa informal sobre o assunto. Chamou tambm as quatro jornalistas mais experientes de  sua equipe para o encontro,
que se realizou em seu apartamento. Marco Polo disse que levaria sua esposa, Anna, e um amigo, Scrates. Elizabeth esperou as amigas no trreo. Junto com elas chegaram
Marco Polo, Anna e Falco. Eles se apresentaram.
        O velho Scrates logo encantou as mulheres, beijando a mo de cada uma e dizendo-lhes que poderiam cham-lo de Falco.
        - Por que o nome Falco? - perguntaram, curiosas.
        - Porque vivi no deserto durante muitos anos. Tive que caar
os predadores, os fantasmas e as fantasias que perturbavam minha mente e roubavam minha tranqilidade - falou figurativa
e convictamente. - Por isso sou um Falco, um viajante dos cus.
        Elizabeth e suas amigas se entreolharam. As palavras bizarras, mas inteligentes, as deixaram mudas.
        Elas no sabiam que Falco era uma verdadeira biblioteca ambulante, um PhD em filosofia, um pensador irreverente que possua uma mente privilegiada. Como
muitos gnios, fora mutilado pela vida. Falco tinha vivido uma das mais dramticas psicoses, que durante mais de duas dcadas o debilitou. A psicose o fizera perder
tudo: dignidade, status, as aulas na universidade, a famlia, segurana, prazer de viver. Tinha feito vrios tratamentos psiquitricos frustrados.
        Quando no lhe sobrou mais nada, o inteligente mas perturbado Falco saiu sem rumo, sem endereo, procurando um endereo dentro de si mesmo. Tornou-se um
mendigo, perambulou pelo mundo, at que nas ruas conseguiu lutar contra seus fantasmas e pouco a pouco recobrar sua lucidez. Depois de muito tempo, encontrou Marco
Polo e se tornou seu amigo.
        Na poca, Marco Polo era um simples estudante de medicina, e no um psiquiatra respeitado. O jovem se encantou com o filsofo mendigo, e o mendigo se encantou
com o jovem sonhador. O ex-psictico ensinou o pretendente a psiquiatra a ver o mundo com sabedoria, e o estudante ajudou o mendigo a retornar para a sociedade e
brilhar novamente no palco da vida, em especial na sua universidade. Falco reconquistou seu nome - Scrates -, mas amava o apelido das ruas.
        Desde o incio da sua amizade, a relao de Marco Polo e Falco foi marcada pela irreverncia. Ambos fizeram peripcias inimaginveis, beijavam rvores,
cantavam em praas pblicas, falavam da vida com poesia e suavidade. Elizabeth no sabia desse lado borbulhante e filosfico de Marco Polo, mas Sarah, por se tratar
com ele, o conhecia muito bem.
        Aps se apresentarem, entraram todos juntos no elevador. De repente, Falco comeou com suas atitudes incomuns.
        - A vida  um grande edifcio. Todos sobem e descem, vivem
glrias e derrotas, primaveras e invernos, o drama e a stira.
- afirmou, filosofando sobre a vida.
        Marco Polo entrou em cena. Pegando carona nas palavras de Falco, completou:
        - Cada andar desse edifcio representa nossas experincias
existenciais. s vezes, o elevador pra entre dois andares, numa
experincia traumtica, e temos a sensao de que vai faltar o ar,
nosso corao acelera, nossa respirao fica ofegante.
        Falco gritou, assustando as jornalistas:
        - Tirem-me daqui! - Em seguida explicou que o medo  um
monstro que nos controla, mas, quando o enfrentamos, a porta
da mente se abre, o fantasma se dissipa e voltamos a ser livres.
        Nesse momento, a porta do elevador se abriu e as mulheres que estavam com o corao acelerado sentiram-se aliviadas. Elas estavam perturbadas com as palavras
de Falco e Marco Polo. No sabiam se eram loucos ou sbios. Anna se divertia em silncio, pois sabia que andar com eles era um convite a estilhaar a rotina.
        Ao entrar na sala do apartamento, Falco chamou a ateno de Marco Polo para um quadro de pintura a leo. Mostrou a beleza do impressionismo e comentou que
o jogo de luz revelava a flutuao da emoo do pintor. Concordando com ele, Marco Polo disse:
        - Veja, Falco! - E, apontando na tela para uma mesa pintada  meia luz com alguns alimentos e um pincel atirado debaixo
dela, explicou: - Talvez nesse momento o "elevador" desse artista
tenha parado e ele viveu um inverno existencial, pensou em
desistir de pintar, sufocou seus sonhos, colocou sua sobrevivncia ilustrada em primeiro lugar pela mesa. Em seguida, porm,
retomou sua trajetria. Observe os raios de luz penetrando no
pice do quadro, indicando que ele se superou - concluiu o
psiquiatra contemplativamente.
        - Todo pintor se pinta na tela - comentou o filsofo, e completou: - Alis, todos os seres humanos so artistas plsticos, uns
bons, outros pssimos, pois todos pintamos a nossa imagem no
tecido da personalidade daqueles com quem convivemos.
        Elizabeth tinha o quadro h mais de 10 anos, mas nunca enxergara o que Marco Polo e Falco viram em um minuto. Sarah estava presente na reunio. Ao se sentarem,
Marco Polo saiu da poltrona que lhe fora indicada e se colocou diante dos lrios brancos na mesa central da sala. Inspirou seu perfume. Chamou Sarah para junto dele,
mostrou a anatomia das flores, as cores sutis que se escondiam dentro dos clices. Inspirado por ele, a jovem disse:
        - Os segredos da felicidade se encontram nas coisas annimas.
        - Parabns, Sarah - ele expressou alegremente, como se a es
tivesse testando.
        Depois que deixara de se deslumbrar pela escultura do corpo, Sarah comeou a se fascinar pela escultura do mundo. O Central Park adquiriu um outro sabor
para ela.
        As jornalistas ficaram exultantes com a sensibilidade da dupla de pensadores. Para elas, os psiquiatras eram circunspetos, fechados, donos das verdades,
manipuladores de drogas psicotrpicas; e os filsofos eram pensadores hermticos e distantes que divagavam sobre as idias, incapazes de encantar as pessoas. Admiradas,
no sabiam o que as esperava naquele ambiente.
        Elizabeth explicou o motivo da reunio e em seguida passou a palavra a Marco Polo. O psiquiatra imediatamente chocou-as dizendo que o sistema social est
cometendo uma das maiores atrocidades contra as mulheres da atualidade. Elas travaram uma rdua luta pelos seus direitos, para serem reconhecidas como seres humanos
e terem liberdade de expresso, mas na atualidade estavam sendo aprisionadas sutilmente no nico lugar em que jamais deveriam deixar de ser livres - no territrio
da emoo.
        Falou sobre as causas da sndrome do Padro Inatingvel de Beleza e de suas conseqncias. As jornalistas ficaram pasmas com a contundncia das suas afirmaes.
O silncio era to exasperado que elas podiam ouvir a prpria respirao. Marco Polo explicou que a sndrome PIB no era um simples caso de baixa auto-estima e mau
humor momentneo, mas um transtorno psquico construdo ao longo do tempo nos solos do inconsciente, que tinha vrios sintomas e poderia gerar uma pssima qualidade
de vida. Entretanto, antes de entrar em detalhes sobre essa sndrome, disse que precisaria explicar alguns aspectos bsicos sobre o funcionamento da mente e a formao
da auto-imagem no inconsciente.
        Elas no sabiam, nem mesmo Elizabeth, que Marco Polo pesquisava a ltima fronteira da cincia: o processo de construo de pensamentos, os fenmenos que
tecem a inteligncia. Preocupado em expor, e no impor, as suas idias, ele procurou traduzir assuntos complexos numa linguagem simples e agradvel.
        Comeou dizendo que a inteligncia humana  multifocal, isto  possui mltiplos fenmenos que se entrelaam. Disse que o registro das nossas experincias
na memria no depende da vontade humana, como nos computadores. Todos os pensamentos, emoes, fantasias, imagens, enfim todas as experincias psquicas que so
vivenciadas no palco da mente no apenas nos encantam ou nos perturbam enquanto temos conscincia delas como so arquivadas automaticamente nos bastidores da mente,
construindo mltiplas janelas que nos fazem interpretar a vida e tudo o que acontece ao nosso redor. E afirmou que todas as imagens registradas nessas janelas no
podem ser mais apagadas.
        Ao ouvir essas palavras, Elizabeth levou um choque. Inteligente, comeou a perceber aonde Marco Polo estava querendo chegar e tambm que o problema era mais
grave do que imaginava. Entendeu que todas as imagens de modelos magrrimas nas capas e no miolo da revista penetravam no inconsciente das leitoras e no podiam
mais ser deletadas. Sua cabea comeou a doer.
        Marco Polo comentou que as janelas da memria so territrios que alimentam a construo das cadeias de pensamentos e emoes a cada momento existencial.
Cada janela possui inmeras informaes. Quanto maior o nmero de janelas abertas, mais as nossas respostas podero ser inteligentes. Relatou que o que abre as janelas
 um fenmeno tambm inconsciente chamado gatilho da memria. Por sua vez, o que aciona o gatilho so os estmulos externos aos quais estamos expostos, e destacou
os sons e as imagens.
        - Temos bilhes de experincias que foram arquivadas em milhares de janelas desde a aurora da vida fetal. E h muitos tipos de janelas - explicou Marco Polo.
        Em seguida, tal como fizera com Sarah, falou sobre a formao das janelas light e das janelas killer. Disse que as janelas killer representam as zonas de
conflitos no inconsciente, que em alguns casos poderiam ser chamadas de traumas.
        Falco conhecia bem esses mecanismos e sempre os aplicava na filosofia. Por isso, gesticulando como um ator, emendou:
        - Vocs j notaram que s vezes, sem nenhum motivo exterior, estamos alegres e motivados?  porque entramos, sem
perceber, em algumas janelas light. Outras vezes, sem nenhuma
explicao externa, ficamos abatidos, deprimidos, sem encanto
pela vida.  porque passeamos pelo inconsciente e ancoramos
em algumas janelas killer. A inspirao do poeta, a,curiosidade
do filsofo, a criatividade de um jornalista, o sentimento de solido ao entardecer, bem como o medo do elevador dependem
das janelas que construmos e abrimos. Atravs delas vemos o
mundo.
        Ao ouvir tais palavras, as mulheres relaxaram e respiraram mais profundamente. Marco Polo tomou a frente e continuou o raciocnio de Falco.
        - O jogo de janelas que se abrem num determinado momento
pode trazer inmeras explicaes para o comportamento humano, inclusive para nossas contradies. Uma barata  capaz de
se transformar num monstro, um chefe pode se tornar um carrasco. O registro doentio das imagens tem o poder de nos controlar.
        Antes que Marco Polo comeasse a explicar os conflitos que o padro doentio de beleza difundido pela mdia causa no inconsciente, Helen, uma das jornalistas,
interrompeu a conversa. Sob o impacto da explicao do psiquiatra, ela aproveitou o momento para perguntar sobre um grave problema escolar que seu filho adolescente
atravessava e que a deixava intensamente ansiosa. Ele estudava muito e sabia toda a matria quando respondia as questes em casa, mas na escola ia muito mal nas
provas.
        Marco Polo disse-lhe que esses alunos possuem janelas killer que contm o registro do medo de falhar, do excesso de cobrana dos pais ou de si mesmos. O
fato de estarem diante de uma prova pode detonar o gatilho, abrir as janelas killer e gerar um volume de tenso to grande que eles bloqueiam as demais janelas que
contm a matria estudada. Assim, embora inteligentes, tm um pssimo desempenho nas provas.
        Helen, que cobrava muito do filho, sentiu que alimentava o trauma dele. Errava muito querendo faz-lo acertar. Decidiu naquele momento mudar de atitude.
        - O medo de falhar acelera a falha, pois bloqueia a psique. O jogo de leitura das janelas da memria pode explicar ainda por que pessoas calmas se tornam
explosivas em determinado momento e por que pessoas que se amam podem destruir suas relaes - explicou o psiquiatra.
        Enquanto Marco Polo falava, Sarah e Elizabeth se entreolhavam. Elas entendiam bem esse mecanismo. Nesse momento, os jornalistas fizeram um intervalo na exposio
para um pequeno lanche. Precisavam digerir as idias. Estavam perturbadas. Quando a luz  intensa, antes de iluminar o caminho ela ofusca os olhos.


CAPTULO 5
        A reunio recomeou. Marco Polo e Falco comentaram que o processo de leitura das janelas da memria poderia explicar por que a espcie humana, apesar de
desenvolver conhecimento e tecnologia como em nenhuma outra poca, ainda convivia com guerras, ataques terroristas, violncia de todas as formas e transtornos emocionais.
        Comearam ento a descrever o que eles consideravam a maior e mais massificadora violao internacional dos direitos da mulher. Para eles, as mulheres, sem
o saber, foram colocadas num campo de concentrao ditatorial. Falco comentou que quase toda a indstria do lazer, da comunicao e do marketing est alicerada
no poder da imagem. As jornalistas sabiam disso. Ele acrescentou:
        - Toda vez que uma leitora ou espectadora est diante da imagem de uma mulher supermagra apontada como exemplar consagrado de beleza nas revistas, jornais,
TV, cinema, essa imagem
 arquivada automaticamente nos solos do inconsciente. Essas
imagens vo formando zonas de conflitos ou janelas killer,
mesmo que elas no queiram ou percebam.
        Marco Polo complementou.
        - As janelas killer se agrupam como traos num quadro de
pintura, formando um padro killer de beleza, que assassina a
auto-estima e a auto-imagem. Quando as mulheres esto diante
dos espelhos, a imagem real refletida detona inmeros gatilhos
que abrem as janelas que possuem o padro doentio de beleza. Ento vem o choque. Elas comeam a se angustiar e a rejeitar certas partes do corpo, pois a imagem refletida
 diferente da imagem escravizadora do inconsciente. O resultado  que centenas de milhes de mulheres se tornam infelizes e frustradas.
        As jornalistas sentiram um n na garganta. Finalmente entenderam o que Marco Polo e Falco queriam dizer. Descobriram por que a mulher moderna vive insatisfeita
e por que elas mesmas que escreviam sobre auto-estima, auto-ajuda, qualidade de vida, felicidade, quando estavam se arrumando diante do espelho, esqueciam do que
tinham escrito e se angustiavam. Descobriram por que as palestras de motivao funcionam to pouco.
        - A indstria da publicidade contribui para a produo da
sndrome PIB? A sndrome PIB afeta o consumo? - perguntou
Lisa, curiosa.
        - A conseqncia  mais grave do que se imagina. Vejam co
mo se d o processo. Uma mulher observa imagens das modelos
cujos corpos so diferentes do seu. Essas modelos usam roupas,
jias, sapatos, xampus, celulares e perfumes que ela gostaria de
adquirir. A mulher registra no apenas os objetos do desejo em
seu inconsciente, mas a imagem das modelos tambm. A imagem das modelos estimula a busca paranica pelo padro inatingvel de beleza que expande a ansiedade, que
por sua vez 
projetada na necessidade de consumir o objeto. Este processo
gera o consumismo. Os homens tambm so afetados por ele.
        Marco Polo fez uma pausa. Esperava uma interveno de Falco, que veio bombstica.
- Nas crianas e nas adolescentes, o padro doentio de beleza
afeta as reas mais importantes da personalidade. Desde cedo
elas deixam de se sentir belas, atraentes, e passam a ser controladas pelo desejo asfixiante de serem o que no so. Crianas e
adolescentes, inclusive os garotos, querem consumir cada vez mais para tentar tampar o buraco emocional que o sistema predador abriu. Isso pode gerar seqelas que
se perpetuaro por toda a vida. Eles nunca mais olharo para si mesmos com singeleza, suavidade, encanto.
        Ao ouvirem essas palavras, as mulheres ficaram abaladssimas. A cabea de todas comeou a doer. Como Elizabeth, questionaram se o padro de beleza amplamente
difundido pela revista Mulher Moderna, estabelecido por modelos esqulidas, magrrimas, altas, plidas, no estava contribuindo para gerar uma doena no inconsciente
coletivo das mulheres e adolescentes. O corao de algumas batia mais forte, a respirao de outras ficou ofegante.
        Alm de as modelos serem completamente maquiadas e terem um padro de beleza fora do comum, a computao grfica tira todos os "defeitos" que possuem, como
manchas, sardas, pintas, verrugas, estrias, celulite. A imagem trabalhada artificialmente nas fotos contribui mais ainda para produzir um padro tirnico de beleza.
As prprias modelos ambicionam ter a beleza com a qual saem nas fotos. A parania  geral.
        Vendo-as tensas, Falco brincou:
        - Olhem umas para as outras e digam que vocs so lindas.
Topando a brincadeira, elas se elogiaram com um radioso sorriso.
        Sarah disse:
        - Desde minha pr-adolescncia eu pegava as revistas e ficava
comparando meu corpo com o das modelos. Sofri muito. Eu rejeitava minha imagem real porque era controlada pela imagem
artificial construda na minha mente.
        Anna, esposa de Marco Polo, que era uma sensvel e inteligente psicloga, aproveitou a interveno de Sarah e disse delicadamente:
        - Querida Sarah, se voc sofria, apesar de o seu corpo estar dentro do padro de beleza difundido pela mdia, imagine como sofrem as que so gordinhas, no
tm o manequim, o rosto, os cabelos, as pernas, dentro desse padro? Imagine como elas devem se sentir discriminadas.
        Sarah refletiu sobre as palavras de Anna. Nunca havia se colocado no lugar de suas colegas e amigas. Preocupadssima, ficou pensando que muitas delas talvez
se sentissem discriminadas, mas nunca teve a chance de ajud-las, pois s se preocupava consigo mesma. A partir desse momento nasceu uma grande amizade entre Anna
e Sarah. Elas passaram a se encontrar com freqncia e resolveram trabalhar juntas para orientar as adolescentes a no serem escravas da beleza. Depois de um ms
montaram um site educativo.
        Em seguida, Elizabeth concluiu, para a alegria de Marco Polo:
        - Se as jovens se sentem excludas, imagine o que deve sentir
uma mulher de 30 ou 40 anos quando v as modelos de 14, 15
ou 16 determinando o padro de graa, sensualidade e beleza. 
uma loucura. Elas entram em crise - falou sorridente, mas com
um tom de seriedade.
        As jornalistas presentes tinham mais de 30 anos e todas rejeitavam alguma parte do corpo. Para Lisa, o espelho era um inimigo. Ela suspirou e disse:
        - Uma mulher de 30 anos nunca ter o corpo de uma adolescente. Elas esto em pleno processo de formao.
        - Sim, mas so elas que esto nas passarelas - admitiu Helen.
E acrescentou: - Poucas modelos brilham depois dos 20 anos. O
mundo da moda as considera velhas demais.
        - O esteretipo da beleza gera um cncer emocional - afirmou Marco Polo enfaticamente.
        Falco era um especialista em esteretipos, pois j havia sido tachado de louco, psictico e parasita da sociedade. Entrando na conversa, comentou que todo
esteretipo  um padro rgido, exclusivista e doentio. Ele classifica as pessoas atravs de determinados comportamentos. Comentou que h o esteretipo dos doentes
mentais, dos usurios de drogas, dos hippies, dos executivos de sucesso, dos alunos brilhantes, da beleza. E, olhando para Helen, disse:
        - Por exemplo, o esteretipo dos alunos brilhantes inclui os
alunos que estudam muito, vo bem nas provas, so bem-comportados e exclui os que no tm bom desempenho, como o filho
de Helen, e os que so inquietos, agitados, ansiosos. Os primeiros
so valorizados e encorajados, porque esto dentro do esteretipo,
e os demais so rejeitados e considerados incompetentes. Ao
serem excludos desse esteretipo, abortam seu potencial intelectual. - Em seguida, Falco fez uma pausa e acrescentou:
        - Jovens como Einstein estavam fora do esteretipo de algum que brilharia na cincia, mas ele rompeu a armadura do
esteretipo e brilhou. J fui excludo, considerado psictico, mas
sobrevivi, superei minhas crises e hoje oriento doutorandos em
filosofia. Porm, poucas pessoas conseguem romper o crcere
dos esteretipos - falou o fascinante pensador.
        Elizabeth, iluminada, respirou profundamente e exclamou:
        - Meu Deus! Creio que o esteretipo de beleza tem causado
uma verdadeira masmorra psquica.
        Desse momento em diante, a expresso "ditadura da beleza" passou a fazer parte do vocabulrio dessas mulheres como algo repugnante.
        - A vaidade da mulher no deveria ser abolida, mas refinada, lapidada como um diamante. Vocs deveriam ir aos sales de beleza no
para ficarem bonitas, mas para ficarem mais bonitas, porque j so
belas e encantadoras com o corpo que tm, com a graa que possuem.
        Elizabeth e algumas amigas aplaudiram as palavras de Marco Polo. Para ele e Falco, cuidar da beleza e procurar se sentir atraente era um sinal de vida na
mulher, um reflexo de sua sade psquica, pois sem entusiasmo pela existncia a vida seria um tdio, um convite  depresso. No entanto, a vaidade compulsiva, o
gravitar na rbita do corpo, rejeit-lo e invejar a beleza que no se possui era um sinal claro do adoecimento psquico.
        Falco foi mais longe no seu diagnstico. Sem medo de expressar o que pensava, afirmou:
        - Os jornalistas e as jornalistas so poetas da vida, mas o falso
ideal de belo difundido na mdia mundial tem estuprado a
relao da mulher com seu corpo e com a vida.
        Marco Polo interveio, abordando algo importantssimo e grave:
        - Se o ndice de Massa Corporal, IMC, que  o ndice usado
pela Organizao Mundial de Sade para medir o peso das populaes e o padro bsico de sade, fosse aplicado s modelos,
elas seriam, na maioria, consideradas doentes, desnutridas, co
mo as pessoas famintas de alguns pases mais pobres da frica.
        Marco Polo continuou explicando que o IMC  calculado dividindo-se o peso em quilogramas pelo quadrado da altura em metros. De acordo com a Classificao
Internacional de Doenas, o ndice de massa corporal igual ou inferior a 17,5 pode ser sugestivo de anorexia nervosa. O IMC considerado saudvel  de 20. Para espanto
das jornalistas, informou que grande parte das modelos tinha o ndice de massa corporal em torno de 13 e 14. Estavam completamente desnutridas, no possuam musculatura,
mas pele e ossos, o que diminua a longevidade e causava uma srie de transtornos fsicos e psquicos. Algumas no tinham energia para correr, praticar esportes,
levar uma vida feliz. Brilhavam nas fotos, mas eram torturadas na vida.
        - Estamos destruindo a sade de milhares de modelos e da maioria das mulheres das sociedades modernas que se espelham no seu
padro de esttica. Ficaremos calados? - instigou Marco Polo.
        No era possvel calar-se. Entretanto, uma voz destoante entrou em cena.
        - Acho que voc est fazendo um drama sobre o assunto, doutor. Beleza  fundamental. No concordo com suas idias. No quero perder tempo com essa baboseira.
- Margareth falou agressivamente e saiu sem se despedir.
        Pela tica da revista Mulher Moderna, as jornalistas no podiam ser scias de agncias de modelos, para evitar que influenciassem as revistas a fotografar
as modelos da sua agncia. Margareth era scia de uma agncia, porm tinha um contrato de gaveta, que poucas pessoas sabiam. Ganhava trs vezes mais na agncia do
que como jornalista. As palavras de Marco Polo lhe causaram arrepios, mexeram no seu bolso e por isso rejeitou seus argumentos.
        O clima ficou tenso por um momento. As amigas se entreolharam, desconfiando do que estava por trs da reao impulsiva de Margareth. Porm, continuavam interessadssimas
no assunto. Susan, uma jornalista bem crtica do capitalismo selvagem e do consumismo, tomou a frente e questionou Marco Polo:
        - Se nas sociedades modernas existem mais de dois bilhes de
mulheres com acesso  TV, ao cinema, revistas, jornais, materiais
de propaganda, voc est dizendo que cr que a maioria delas,
enfim, pelo menos mais de um bilho de mulheres so afetadas
por essa sndrome, tm um transtorno da auto-imagem?
        - Sim! Embora, no haja dados estatsticos, creio que grande
parte das mulheres possui alguns dos sintomas da sndrome PIB.
Mas precisamos entender que essa sndrome  causada no apenas
pela difuso das imagens das modelos magrrimas, mas tambm
pela difuso das imagens da beleza incomum na TV, cinema, comerciais, ainda que no sejam esquelticas - alertou Marco Polo.
        Para o psiquiatra, nenhuma mulher, por mais bela que seja, preenche os requisitos da fuso das milhares de imagens em seu inconsciente, pois essa imagem
nunca  a imagem de si mesma.
        - Mame, eu tenho vrias amigas modelos depressivas - falou
Sarah, contribuindo com a discusso. - Algumas lindssimas, mas no sentem vontade de viver, pois sempre acham que tm algo em excesso, algo faltando ou algo para
corrigir em seu corpo. Vivem malucas como eu vivia...
        Depois de dizer essas palavras, Sarah pegou uma barra de chocolate, ofereceu s amigas de sua me, que se recusaram a comer. Ela, ento, degustou-a prazerosamente,
lambendo os lbios e os dedos. Lisa, que era uma amiga ntima de Elizabeth, sabia do passado de Sarah. Ficou encantada em v-la feliz, tranqila e livre. Como ajudava
a decidir as capas da Mulher Moderna, imaginou que seria o momento de convidar Sarah para posar para a famosa revista. Sabia que Elizabeth sonhava com isso, mas
nunca faria essa proposta, pois no usaria o trfico de influncia para favorecer a filha.
        De repente, Helen interrompeu a introspeco de Lisa e abordou com sinceridade:
        - Embora tenha 40 anos e me ache madura e experiente, tenho
medo de envelhecer, de no ser amada, de no ser notada nem
cortejada. A parania da eterna juventude est me matando. - Em
seguida, perguntou: - Quais so os sintomas da sndrome PIB?
        Marco Polo fez uma descrio dos principais sintomas dessa insidiosa sndrome:
- So vrios: preocupao excessiva com a esttica, dando mais
ateno  aparncia fsica do que a outros aspectos da vida, como
sonhos, projetos e conquistas, tempo exagerado gasto diante do
espelho, rejeio crnica por uma rea do corpo, preocupao
excessiva com roupas, consumismo  exacerbado,  preocupao obsessiva com o que os outros pensam e falam de si, medo de no ser aceita, medo exagerado de envelhecer,
baixa auto-estima, ansiedade, humor triste, irritabilidade, autopunio.
        Marco Polo ainda comentou que s vezes a sndrome PIB pode gerar um estresse to importante que produz sintomas psicossomticos, como dores de cabea, dores
musculares, vertigem ou tontura, gastrite, fadiga excessiva, excesso de sono ou insnia, transtorno do apetite. Disse tambm que trs a quatro sintomas caracterizam
a sndrome, principalmente quando h pelo menos dois deles ligados  auto-imagem. Quando os sintomas no so exacerbados, a sndrome PIB no compromete a sade psquica,
mas pode dissipar a leveza da vida.
        As amigas de Elizabeth perceberam que tinham vrios dos sintomas descritos por Marco Polo. Susan, inquieta, perguntou:
        - Qual a relao da sndrome PIB com anorexia nervosa e bulimia?
        - Quando a sndrome PIB for intensa, pode aumentar a probabilidade de desenvolver essas doenas em pessoas que j tm
essa tendncia. Tambm pode evoluir para depresso e fobia
social, levando as pessoas a terem dificuldade de trabalhar em
equipe e freqentar lugares pblicos. No exato momento em que
estamos discutindo este assunto, infelizmente milhares de mulheres esto deprimidas e pensando em desistir da vida nesta
cidade porque no tm um caso de amor com elas mesmas.
        As palavras de Marco Polo levaram sua esposa a recordar sua infncia. A me de Anna tinha alguns sintomas da sndrome PIB, nunca se achava bela, vivia se
autopunindo e se diminuindo. Tentava conquistar seu marido, o milionrio Lcio Fernandes, mas ele nunca a elogiava, sempre comparava o corpo dela com o de outras
mulheres. O sentimento de rejeio expandia suas crises depressivas.
        O frio Lcio Fernandes entendia de nmeros, mas no de sentimentos. Por fim a me de Anna, por no se tratar adequadamente, tirou a prpria vida. Lcio sobreviveu,
mas a pequena filha parou de brincar, sorrir, amar. A partir da, Anna comeou a se achar feia, horrvel, mal amada e rejeitada. Reproduziu, assim, alguns sintomas
da me.
        Saindo do devaneio, Anna voltou ao apartamento de Elizabeth e contou para as jornalistas que seu pai a criara cercada de empregados, jias e roupas dos grandes
costureiros. Vestia-se impecavelmente, vivia na moda, mas era uma miservel morando como rainha. Ficava diariamente duas a trs horas diante do espelho tentando
se arrumar, mas havia se abandonado. Fez psicoterapias, mas no lutava para sair do seu caos psquico. Como estudante de psicologia, conhecia teorias psicolgicas,
mas na prtica no sabia aplic-las.
        - Um dia, entretanto, o furaco Marco Polo passou por minha vida - disse brincando e cheia de amor pelo marido pensador. - E aprendi a me apaixonar por ele
e pela vida.
        Por amar o irreverente psiquiatra, Anna comeou a fazer da sua vida uma aventura. Seu pai tentou impedir de todas as formas que um psiquiatra entrasse na
famlia, pois tinha medo de ser analisado e questionado. Inclusive no dia do casamento tentou romper a relao, mas no conseguiu.
        O relato transparente e maduro de Anna deixou as jornalistas profundamente admiradas. Ficaram impressionadas com a sua sensibilidade e simplicidade, sobretudo
sabendo que era filha do magnata Lcio Fernandes, de quem todas j tinham ouvido falar, pois era um personagem constante nas colunas sociais e nos meios de comunicao.
Marco Polo, Anna e Falco estavam abrindo o leque da inteligncia das jornalistas, formadoras de opinio, porque eram simplesmente apaixonados pela humanidade.
        No final da reunio, Elizabeth e suas amigas estavam transtornadas e mobilizadas. Elas se perguntavam constantemente: "Por ser que poucos percebem que a
sade psquica da mulher atual est sendo jogada no lixo? Por que o mundo est anestesiado?" Marco Polo finalizou com estas palavras:
        -  fcil comprovar se a sndrome do padro inatingvel de
beleza  um delrio ou uma realidade. Qualquer pesquisa qualitativa e quantitativa sobre auto-estima e auto-imagem da mulher atual pode revelar isso. Verifiquem
se h tal pesquisa no mundo, ainda que seja em apenas um pas.
        E Falco arrematou:
        - A vida  belssima, mas muito breve. Por ser to bela e to
breve, devemos viv-la na plenitude, nos libertar de tudo o que
nos aprisiona. Se estivermos corretos, vocs devem correr riscos
e comear uma pequena revoluo no seu meio profissional -
disse, desafiando-as.
        As amigas levaram um choque de lucidez. Saram atnitas da reunio. Tiveram vrias noites de insnia. Toda vez que olhavam para as fotos das revistas, os
comerciais de TV e os filmes, descobriam os tentculos da ditadura da beleza.
        Elizabeth, profundamente incomodada, aceitou o desafio, destacou algumas jornalistas e tambm a sua secretria para verificar se havia dados que pudessem
dar respaldo a essa embrionria batalha. Estava disposta a investir nesse projeto e fazer dele o mais importante de sua carreira. Desse modo, uma pequena lagarta
comeou a formar um casulo. Ela sonhava tornar-se uma exuberante borboleta, voar alto. Todavia, no tinha idia das tempestades que sobreviriam.

CAPTULO 6
        Lisa caminhava a passos largos na redao da revista Mulher Moderna. Havia acabado de ter uma reunio com o poderoso Robert, diretor-geral do grupo Eccos
de Nova York, que editava 13 revistas, das quais Mulher Moderna era a mais prestigiada. Robert, um executivo calculista e ambicioso, amava os nmeros, em especial
quando se tratava de dlares. Participava das decises sobre as pautas das revistas e opinava sobre as capas. Devido ao seu autoritarismo, a ltima palavra era sempre
a dele.
        Sem bater na porta, Lisa entrou eufrica na sala de Elizabeth e lhe deu a grande notcia.
        - Estive reunida com Robert. Lembra da foto de Sarah que voc me deu no ms passado? Mostrei a ele e ele gostou muito. Ento, sugeri que ela fosse capa da
revista do prximo ms.
        Elizabeth, surpresa, ficou com a voz embargada.
        -E... ento?
        -Ele aceitou! - bradou Lisa como se tivesse ganhado um trofu. Estava feliz pela amiga e por Sarah.
        Elizabeth quase caiu da cadeira. No podia acreditar. Esperava ansiosamente por esse fato. Sarah j havia sido capa de vrias revistas, mas nunca da Mulher
Moderna, uma das mais respeitadas no mundo. A notcia de Lisa irrigou sua emoo com prazer indescritvel. Por instantes, olhou para dentro de si, recordou as batalhas
que enfrentara por Sarah e pensou que chegara a hora de sua filha brilhar em todo o pas e deslanchar sua carreira internacional. Ainda mais num momento em que Sarah
estava to feliz.
        Imediatamente, Elizabeth ligou para a filha. Estava to excitada que no acertava digitar direito o celular. Lembrou-se da outra vez em que tivera dificuldade
de digit-lo. Na poca havia desespero, agora havia uma fonte de prazer. Com o tratamento, Sarah deixara de ser uma jovem insuportvel para tornar-se uma pessoa
socivel, sempre rodeada de amigas. Quando sua me telefonou, estava saindo da escola, sorrindo, descontrada.
        - Sarah. Voc est sentada? Tenho uma grande notcia para
lhe dar - disse Elizabeth, exultante.
        - Estou na rua! - ela falou sorrindo. - No h bancos ou cadeiras para sentar. Mas diga logo - comentou com ansiedade, enquanto saboreava uma suculenta ma.
        - Voc ser capa da revista Mulher Moderna do prximo ms.
Sarah engoliu o bocado. Parou de andar. Respirou fundo e disse:
        - Voc est brincando comigo?
        - Nunca falei to srio, minha filha. E no foi sugesto minha.
Lisa props a Robert e ele aceitou. Lisa vai falar com voc. Agradea muitssimo, pois ela sempre torceu por voc - completou Elizabeth.
        Sarah estava mais solta. A carreira de modelo j no era vivida como um peso, mas com prazer. Por isso, a notcia teve um outro sabor, uma euforia mais serena,
madura, agradvel.
        Lisa pegou o telefone e falou:
        - Parabns, Sarah! Voc ser a nossa capa, a mais bela capa
que a Mulher Moderna j produziu.
        - Muito obrigada, Lisa. Este ser o momento mais importante
da minha carreira. Voc  to maravilhosa que no tem a sndrome PIB - disse, brincando.
        - Voc merece! - falou com convico. - Mas, quanto  sndrome, outro dia comecei a perceber que tenho alguns sintomas.  Essa coisa  contagiante - brincou
tambm.
        - Mil beijos para voc e para a mame - disse, despedindo-se. Mas, antes que Sarah desligasse seu celular, Lisa acrescentou:
        - Olha! A sesso de fotos comear daqui a 10 dias. Se cuide,
menina.
        - O.k.! Vou estar lindrrima - desligou, animadssima.
        Sarah seguiu, cantarolando e fazendo passes de dana. Sua alegria transbordante envolvia as amigas. Elas ficaram impressionadas com as mudanas ocorridas
em sua vida nos ltimos meses. Quando Sarah lhes contou a novidade, todas ficaram excitadssimas. Fizeram-lhe ccegas e danaram com ela no meio da rua. Estavam
diante de uma celebridade. Sarah pediu que guardassem segredo, mas no conseguiram. No dia seguinte, todos os alunos sabiam que Sarah seria capa da revista que entrevistava
atores e atrizes de Hollywood, grandes personagens da literatura e da poltica internacional.
        Um professor brincou com Sarah na sala de aula:
        - Pessoal! Estamos diante da prxima capa da Mulher Moderna!
Todos bateram palmas.
        - Ela merece um ponto a mais na matria - disse o professor
descontraindo a turma.
        - Puxa-saco! Puxa-saco! - gritaram os garotos em coro.
        - Vocs tambm merecem um ponto a mais na matria por
serem amigos dela - completou.
        Os alunos assobiaram, gritaram. A festa foi geral. Todos cumprimentavam Sarah. Ela pediu silncio e, num gesto sublime, disse:
        - Beleza est nos olhos de quem observa.
        Um colega exclamou admirado:
        - Uau, Sarah est filosofando.
        Sarah comentou que essa frase se encontrava no site que ela e uma amiga psicloga, chamada Anna, tinham montado. O site chamava-se "Abaixo a ditadura da
beleza!".
        Na primeira pgina do site havia cinco frases que causavam impacto nos internautas e questionavam os valores humanos, estimulavam a liberdade e resgatavam
a auto-estima:
         O seu espelho no tem problemas, voc  que distorce a sua
imagem.
         No h dois seres humanos iguais nem duas belezas iguais.
         Faa escolhas! Tenha um caso de amor com voc mesma.
         Consuma menos produtos e mais idias.
         O tempo da escravido acabou: diga no  ditadura da beleza.
        Mulheres adultas e adolescentes de todo o mundo, inclusive homens, comearam a resgatar o prazer de viver  medida que entravam no site e se reeducavam com
as informaes nele contidas. Mesmo os que pensavam em suicdio, os tmidos, os fechados e os que se isolavam por terem vergonha de si mesmos deram um salto em sua
qualidade de vida.
        Ao meditar sobre a frase de Sarah, um garoto brincou:
        - Eu observo que voc  linda.
        - Vocs no entenderam a frase - tentou corrigi-los. - Beleza est nos olhos de quem interpreta. Todo ser humano tem sua beleza.
Precisamos encontrar a nossa beleza, mesmo que no estejamos
dentro do padro da mdia. H colegas aqui que so to ou mais
bonitas do que eu - falou com humildade diante de uma classe atnita e silenciosa. "Quem seria mais bonita do que Sarah", pensaram.
        Em seguida, Sarah encaminhou-se para sua amiga Shirley, que, devido a um acidente, tinha um defeito na face e andava mancando. Ao se aproximar, fixou seus
olhos e disse:
        - Shirley, voc  maravilhosa, linda, bonita, bela. Voc merece mais destaque do que a capa de uma revista. Merece estar na capa do corao de qualquer garoto
que saiba ler a linguagem da sensibilidade. - E, beijando o rosto da amiga, completou: - Obrigada por voc existir e por ser minha amiga.
        Os olhos de Shirley se encheram de lgrimas. Jamais tinha sido to valorizada, nunca se sentira to acolhida. Vrios colegas tambm sentiram os olhos lacrimejarem.
Todos comearam a se abraar. Os garotos perderam a vergonha de dizer uns para os outros: "Voc  lindo, cara!" Todos aplaudiram a si mesmos, inclusive o professor.
Aplaudiram o espetculo da vida.


?
        Chegou o grande dia da sesso de fotos. Sarah estava animadssima. A preparao no camarim foi longa. A equipe de cabeleireiros, maquiadores e estilistas
gastou cinco horas arrumando-a. Para escolher uma foto para a capa e algumas para o miolo da revista foi um verdadeiro sacrifcio. A imagem da capa era responsvel
por 20 a 30% das compras espontneas da revista nas bancas. Onde o dinheiro est em jogo, o projeto visual deve ser bem definido e as falhas, prevenidas.
        Alguns vestidos foram escolhidos e outros produzidos a toque de caixa para Sarah. Alguns eram mais clssicos, outros, mais modernos, para que ela pudesse
mostrar todo o seu encanto, sua graa, seu corpo.
        Alan Parkes, um fotgrafo francs que morava h 30 anos em Nova York, foi selecionado para clicar Sarah. Ele havia fotografado as modelos mais cobiadas
do mundo da moda, bem como as celebridades mais cultuadas de Hollywood. Trabalhava no apenas com luz, espao e sombra para obter a melhor imagem, mas atuava no
psiquismo das beldades, conversando com elas prolongadamente, procurando relax-las para extrair sua espontaneidade, mesmo que fossem rgidas e emocionalmente engessadas.
Parkes era um arteso da imagem.
        Ele no precisava mais provar sua competncia, os prmios internacionais que ganhara testemunhavam eloqentemente sua habilidade. Estava no auge da carreira,
mas tambm no auge do tdio profissional. J no suportava o vazio existencial e o superficialismo intelectual de certas celebridades. Tentava extrair delas sabedoria,
mas extraa futilidades. Fotografava algumas sem prazer.
        Quando comeou a conversar com Sarah, imediatamente se emocionou. Em seu longo dilogo com ele, Sarah lhe contou o drama da bulimia. Disse que cinco meses
antes tentara desistir da vida, mas hoje estava se apaixonando por ela. Curtia os amigos, uma boa comida, as festas. Embora ainda tivesse alguns "grilos", no vivia
mais em funo dos outros.
        - Parkes, hoje eu uso a imagem para viver, e no vivo para a imagem - falou francamente para o experiente fotgrafo, sem medo de ser repreendida.
        O fotgrafo descobriu que os vales da dor tinham produzido belssimas flores em Sarah. Percebeu que estava diante de uma das jovens mais transparentes e
encantadoras que j conhecera.
        Elizabeth no apareceu no estdio. Estava nervosa. No queria atrapalhar esse momento mgico da filha. Enquanto Parkes trabalhava a luz e o espao, imaginava
a masmorra escura em que Sarah vivera, punindo-se, mergulhada em crises depressivas. Agora a jovem sorria espontaneamente, sem que ele a estimulasse. Captava com
sua supercmera uma beleza interior que ultrapassava em muito os limites da imagem fsica. Sarah estava um pouco acima do peso das magrrimas modelos que fotografava,
mas raramente vira algum to linda.

?
        Dois dias depois, as fotos ficaram prontas. Lisa foi a primeira a receb-las. Imediatamente levou-as  sala de Elizabeth. A me ficou paralisada diante da
imagem da filha. Examinaram uma por uma, como um garimpeiro que observa atentamente os veios das rochas.
        Ambas levaram as melhores fotos para Robert. Ele no se levantou para cumpriment-las. Apenas disse: "Oi." Pegou as fotos e comeou a avali-las. Seu semblante
mudou.  medida que passava os olhos sobre cada imagem, mostrava um ar de frieza e descontentamento. Subitamente, pegou a foto de Sarah que Lisa havia mostrado dois
meses antes da sesso de fotos com Parkes.
        - Sarah engordou! - disse esbravejando! - Est diferente da
foto que voc me deu, Lisa. - Falou sem esconder a indignao.
        - No, ela est linda! - rebateu Lisa, tentando contornar a
situao. - O prprio Parkes se encantou com ela.
        - Ela pode estar bonita por dentro, mas no fisicamente. Est
fora do padro das nossas modelos - afirmou ditatorialmente,
jogando as fotos sobre a mesa.
        Elizabeth h anos no conseguia engolir a arrogncia do seu chefe. Tinha uma coisa entalada em sua garganta para lhe dizer, principalmente depois de duas
tentativas de assdio sexual. No o denunciara com medo de comprometer a imagem da revista.
        - Voc  um carrasco - exclamou Elizabeth perdendo o controle.
        - Nunca mais me chame de carrasco, se no quiser enfrentar minha fria e perder seu emprego! - ele falou aos brados e sentenciou. - Sua filha no ser capa.
Ela est gorda! Arrume outra
modelo imediatamente, Lisa.
        O teto desabou sobre Elizabeth e Lisa. As duas saram desnorteadas, chamando Robert de mentecapto e tirano. Comearam a sentir na carne a teia complexa que
gera o padro inatingvel de beleza. Sarah havia engordado seis quilos, estava muito mais linda, expressando uma sade e vitalidade que no possua antes. Media
1,70 m e pesava 56 quilos. Ainda estava bem magra, mas no para o insano padro do mundo da moda.
        Lisa sentia-se culpada. No parava de pedir desculpas a Elizabeth. Queria tambm se desculpar com Sarah. O que seria o maior evento da carreira da jovem
ia transformar-se em sua maior frustrao.
        Atordoada, Elizabeth procurou a melhor maneira de falar com a filha. Tinha receio de que Sarah recasse em sua doena, que no estivesse suficientemente
alicerada para suportar tamanha decepo. Agora que comia sem culpa, tinha sido considerada obesa; agora que se sentia livre, fora discriminada. "Que mundo maluco
 esse em que vivemos", pensou.
        Realmente, Sarah teria de passar por um teste dificlimo de suportar. No passado, ela se rejeitava, mas nunca sofrer uma rejeio social nem um vexame pblico.
Agora, alm de ser excluda da revista, teria de enfrentar todos os seus colegas que ansiavam por v-la na capa. Mais do que tudo isso, a recusa de Robert era uma
espcie de sentena contra a carreira internacional de Sarah. Se ela quisesse seguir essa trajetria, teria de mudar seu estilo saudvel de vida, voltar a ser magrrima.
O preo seria altssimo, quase impagvel.
        Ao entrar em casa, Sarah veio correndo ao encontro da me perguntando sobre as fotos.
        Elizabeth tentou ser espontnea, mas no conseguiu. Fez um momento de silncio e, com a voz trmula, expressou:
        - Ficaram lindas. Todos os que as viram, amaram.
        - Me, o que est acontecendo? - disse a jovem ansiosamente,
captando algo no ar.
        Elizabeth, com lgrimas nos olhos, respondeu:
        - Realmente todos acharam lindo seu book, mas Robert viu
um pequeno problema.
        - Como assim, mame? - Sarah ficou tensa, experimentando
um frio glido percorrer-lhe a espinha.
        - Robert achou que voc engordou um pouco em relao  foto que ele tinha analisado. Achou que no  o momento para voc ser capa da Mulher Moderna. Pediu
para colocarmos voc no miolo da revista e esperarmos outra oportunidade. Desculpe-me, minha filha. Lisa e eu estamos perplexas - disse, tentando disfarar a agressividade
com que o executivo tratara a imagem.
        Sarah abandonou-se nos braos da me. Mas logo depois se soltou e, revoltada, foi para o quarto e se trancou. Chorou muito. Comeou a imaginar a vergonha
por que passaria, sentiu-se profundamente discriminada, temeu pelo seu futuro profissional. Tinha acabado de comer uma torta de ma. Comeou a passar mal. Foi at
o banheiro, colocou o dedo na garganta e, quando ia provocar o vmito, olhou nos seus olhos refletidos no espelho. Parou e falou para si mesma: "No! Outra vez escrava,
no! O mundo da moda pode no me aceitar, mas eu preciso me aceitar."
        Nesse momento, algum bateu na porta do quarto. Era sua amiga Shirley. Preocupada com Sarah, Elizabeth a chamou. Shirley abriu a porta e, ao ver Sarah, acelerou
os passos com dificuldade, pois queria abra-la.
        Sarah recebeu carinhosamente o afeto da amiga. Shirley no falou muito, mas seu silncio era melhor do que mil palavras. Sarah contou-lhe como fora rejeitada.
Aps ouvi-la, chegou a vez da amiga que tinha defeitos fsicos ajud-la a resgatar sua auto-estima.
        - Sarah, eu aprendi com voc a me sentir linda, a me enxergar
como um ser humano. No me decepcione. Voc  maravilhosa
do jeito que .
        Ao observar o rosto sereno da amiga e ao sentir a dimenso das suas palavras, Sarah tomou uma deciso. Resolveu lutar pelos seus sonhos. Seu sonho era ser
escritora. Sentiu-se to forte naquele momento que resolveu escrever no seu site a sua histria.
        Foi ao encontro da me e surpreendeu-a com esta atitude:
        - Agora que eu sou o que sou, o sistema ama o que no sou. No abro mo da minha liberdade. Se for necessrio, encerro minha carreira.
        Elizabeth quase desmaiou. Milhes de dlares estavam em jogo, mas Sarah acabava de descobrir que status nenhum, dinheiro nenhum, fama nenhuma poderiam ser
mais importantes do que a sua conscincia, a sua sade e seu prazer de viver. E foi isso que aconteceu. A modelo que tinha tudo para ser a mais famosa do mundo faria
mais alguns desfiles e encerraria precocemente a sua carreira. Sarah no quis mais ser magrrima e viver uma farsa. Queria simplesmente ser feliz.
        Sua histria relatada no site ajudou milhares de pessoas a superarem as garras da ditadura da beleza, a evitarem o suicdio, a terem coragem para superar
a anorexia, a bulimia, a depresso e a baixssima auto-estima. A paixo de Sarah pela vida foi contagiante. Recebeu muitas mensagens animadoras.
        Um garoto de 15 anos escreveu-lhe: Querida Sarah, freqentemente eu me perguntava: "Qual o sentido da minha vida? Por que vale a pena viver?" Levava diariamente
mais de trs horas me arrumando para sair de casa. Seguia um ritual angustiante. Tomava banho trs vezes por dia, trocava de roupa umas 10 vezes, penteava e despenteava
meus cabelos umas 15 vezes, mas nunca estava satisfeito. Quando saa, em vez de relaxar, eu ficava prestando ateno para ver se os outros estavam me olhando. Conhece
o filme Eu, rob? Pois eu me sentia um rob tentando ser gente. Mesmo fazendo tratamento, me achava a pessoa mais infeliz desta Terra. Ao ler a sua histria, comecei
a acreditar na vida e a comear a gostar de mim. O tempo da escravido acabou, hoje fico no mximo meia hora me arrumando. Resolvi ser inteligente, resolvi ser livre.
Tora por mim e obrigado por sua fora.
        Uma mulher de 25 anos escreveu: Querida Sarah, eu sou obesa e, como muitas pessoas obesas, me sentia intensamente rejeitada, excluda, tinha vergonha de
ir  praia, de provar roupa nas lojas, de usar um vestido. Quando eu era criana, me chamavam na escola de "elefante branco". Nunca mais esqueci que me trataram
como um animal e no como um ser humano. Era a melhor aluna da classe, mas a mais infeliz. Isolei-me, raramente ia a festas e a encontros sociais. Tinha vergonha
de mim e dio do mundo, mas sua corajosa histria me estimulou a me ver com outros olhos. Como  gostoso no viver em funo da ditadura da esttica. Como  gostoso
se sentir gente. Obrigado pela sua vida.
        Uma mulher de 50 anos escreveu: Querida Sarah, sou economista, mas, embora fosse eficiente no trabalho, me substituram por uma jovem incompetente, mas bonita
e com salrio menor. O sentimento de rejeio foi mais forte do que a razo lgica. Sabia que deveria levantar a cabea e lutar, mas a matemtica da emoo venceu
a matemtica dos nmeros. Sentir-se velha numa sociedade que supervaloriza a juventude  terrvel. Sempre fui cortejada, amada e querida. Hoje, raramente algum
presta ateno em mim. Deus nos criou como seres humanos, mas ns criamos objetos humanos. Eu me sentia um objeto, deprimida e sem coragem de lutar pelo meu espao.
Tenho vergonha de dizer, mas diariamente eu pensava em morrer. Entretanto, ao ver como voc foi descartada mas no se dobrou aos ps do sistema, resolvi tambm apostar
na minha liberdade. Vou procurar um psicoterapeuta. Prometo para mim e para voc que no desistirei mais da vida. Voc  maravilhosa.
        Sarah e Anna ficaram comovidas pelas inmeras mensagens que receberam, mas a de um pai angustiado as levou s lgrimas: Querida Sarah, amante da vida. Quem
lhe escreve  um pai desesperado, abatido, infeliz. Sou advogado e tenho grande sucesso profissional, mas estou falido emocionalmente. Tudo o que mais amo nesta
vida, minha pequena filha Rosie, est morrendo diante dos meus olhos sem que eu consiga fazer nada. Rosie est com anorexia nervosa e se recusa a comer porque no
quer engordar.
         Cobrei demais que ela emagrecesse quando estava gordinha. Tinha medo de ela no ser aceita socialmente. Hoje, choro ao ver seu corpo caqutico e imploro
para que ela se alimente, mas minhas palavras no encontram eco no seu corao. Ela resiste a todos os tratamentos.
         Fui um advogado-pai, e no um pai-advogado. Confesso que cometi um crime que no est na lei: bloqueei a infncia de Rosie, preocupei-me excessivamente
com sua esttica e com seu futuro. Matriculei-a em inmeros cursos, coloquei limites, dei lies de tica, mas esqueci de dar-lhe meu ser, minhas lgrimas, meus
sonhos. Esqueci de contar meus medos e meus erros para que ela aprendesse a no ter medo de viver nem de errar.
         Queria t-la amado mais e trabalhado menos. Queria t-la elogiado mais e criticado menos. Queria t-la compreendido mais e julgado menos. Queria t-la abraado
e beijado muito mais e dado menos presentes. Mas hoje no posso fazer nada disso, pois minha querida filhinha est morrendo.
         Sua histria reacendeu uma pequena chama em minha debilitada esperana. Eu no costumo pedir favor s pessoas, mas lhe peo de todo corao: ser que voc
poderia se aproximar de Rosie e tentar ser sua amiga? Ela se recusa a ler qualquer coisa, mas talvez ela se animasse, se voc contasse sua histria de viva voz.
Temo que ela s agente viver mais um ms. Mesmo que voc no possa visit-la, agradeo sua ateno e sua coragem de viver.
        Comovida, Sarah aceitou o desafio. A famlia de Rosie tambm morava em Nova York. Para a felicidade do Dr. Paul McMeel, pai de Rosie, Sarah no dia seguinte
foi  sua casa, uma enorme manso com um grande bosque na frente. O Dr. McMeel era um dos mais renomados advogados criminalistas do pas, mas no havia brilho em
seus olhos. Ao encontrar Rosie, Sarah ficou estarrecida com a sua figura. Uma ficou muda diante da outra. Aps o primeiro impacto, Sarah tentou dizer algumas palavras,
mas Rosie se recusava a fazer qualquer contato.
        Sob o impacto da gravidade do caso, Sarah falou com os pais de Rosie sobre Marco Polo, e eles resolveram procur-lo. Era mais uma entre inmeras tentativas
de tratamento. Aps dois encontros, Rosie acabou ouvindo com muita desconfiana a histria de Sarah, achando porm que tudo aquilo era uma armao dos seus pais.
Sarah encarou como um ato de amor procurar conquistar a amizade de uma adolescente de 17 anos cujo aspecto fsico era o de uma pessoa idosa.



CAPTULO 7

        Rosie, quando criana, colecionava todas as bonecas Barbie. Era gordinha, mas queria ter um corpo esguio, magricela e milimetricamente distribudo como o
de suas bonecas. As Barbies, ao mesmo tempo e que transmitiam feminilidade, vendiam um esteretipo de beleza irreal que entrava no inconsciente coletivo das crianas
e contrastava com a imagem real que possuam. Assim, muitas crianas que tinham caractersticas prprias de beleza comeavam sutilmente a se achar feias e a apontar
defeitos no seu corpo.
        Numa sociedade que desenvolve uma necessidade psictica pela magreza, a obesidade se tornou o smbolo dos defeitos. Rosie era maravilhosamente gordinha,
sensual, atraente, mas comeou a rejeitar de tal maneira o seu corpo que bloqueou o que  aparentemente impossvel - o instinto da fome.
        Marco Polo sabia que era impossvel bloquear naturalmente o instinto da fome, pois ele preserva a vida. Por essa razo, fazer regime era uma tarefa rdua
cuja eficincia s podia ser alcanada com segurana se houvesse reeducao alimentar. Prncipes que sempre se alimentaram com as mais finas iguarias, ao passarem
por guerras e escassez, comeram insetos, ratos, alimentos apodrecidos no lixo, para sobreviver. O bloqueio do apetite s  possvel quando h graves doenas fsicas
ou situaes extremas de estresse e humor depressivo.
        O psiquiatra tinha conhecimento de que o transtorno da auto-imagem gerado pela sndrome PIB, somado a alteraes metablicas nas sinapses nervosas, faz com
que certas pessoas vivenciem um estado de angstia to grande que bloqueia a racionalidade e o instinto da fome, produzindo a anorexia nervosa. No caso de Rosie,
ela se recusava a comer, mesmo com o risco de morrer.
        O nmero de pessoas acometidas pela anorexia nervosa  assustador, em torno de 1% da populao mundial, o que significa dezenas de milhes de pessoas das
mais diversas culturas, raas, grau de escolaridade, comeando principalmente na adolescncia. As mulheres de classe mdia e mdia alta submetidas  presso do sistema
so mais freqentemente atingidas. Rosie, antes de adoecer, passava horas diante da televiso. Ao mesmo tempo em que rejeitava seu corpo, sonhava em ter um corpo
parecido com o das personagens da tela.
        Marco Polo tinha conscincia do enorme poder da televiso. Um interessante artigo foi publicado no The British Journal of Psychiatry, em 2002, mostrando
o impacto da TV na mudana dos hbitos alimentares e nos comportamentos das mulheres das ilhas Fiji, no Pacfico, aps os trs primeiros anos de exposio, a partir
de 1995. Pesquisadores detectaram que, depois que a TV passou a exibir mulheres magras e com beleza incomum, as nativas das ilhas Fiji comearam a fazer dietas e
a apresentar transtornos alimentares, como anorexia e bulimia, que antes eram praticamente inexistentes nas ilhas.
        Essa pesquisa foi prova incontestvel do impacto da TV no inconsciente coletivo de uma sociedade tradicional. Antes do contato com a TV, as mulheres nativas
tinham ndices razoveis de satisfao com seu corpo, eram emocionalmente livres, alegravam-se na contemplao do cu, dos pssaros e das ondas do mar. Depois de
submetidas s imagens e mensagens veiculadas pela televiso, comearam a desejar serem semelhantes s mulheres esquelticas do continente "desenvolvido". Ao ler
esse artigo, Marco Polo confirmou sua tese de que o continente desenvolvido era em muitos aspectos primitivo no territrio da emoo.
        Rosie era uma garota animada, tinha amigos, gostava de pssaros e de jogar vlei. Pouco a pouco bloqueara no apenas seu apetite, mas tudo o que lhe gerava
prazer. Quando entrou no consultrio de Marco Polo, sua imagem causou um impacto no psiquiatra. Era cadavrica, e os ossos sobressaindo na pele denunciavam um corpo
esmagado pela fome, parecendo uma adolescente que vivera a tragdia da privao de alimentos.
        Embora medisse l,66m, Rosie pesava 29 quilos. Seus olhos fundos, a pele enrugada e plida, os cabelos quebradios, o esqueleto  moldado pela pele abalavam
qualquer  observador, inclusive Marco Polo, que estava acostumado a lidar com as mazelas humanas.
        O Dr. McMeel tinha razo em se perturbar com o drama da  filha. O ilustre advogado influenciava juizes e convencia jurados nos tribunais, mas no conseguia
convencer sua filha a lutar pela vida. Apesar de dizer que, se ela se recusasse a comer, no teria energia para estudar, fora para viver e defesas para combater
as infeces, Rosie no o atendia.
        s vezes, o pai argumentava ansiosamente, e com lgrimas nos olhos, que seus rgos entrariam em falncia, mas, para desespero dele, Rosie no mudava de
atitude. Certa vez, ele gritara em prantos: "Filha, voc vai morrer se no se alimentar, e vai me matar de tristeza!", mas Rosie simplesmente se retirou para o quarto.
        Ela desenvolvia um ritual massacrante. Pesava vrias vezes seu corpo por dia, e media compulsivamente diante do espelho algumas partes que achava que estavam
"gordas", embora estivesse esqueltica. Controlava obsessivamente os poucos alimentos que comia, somando as calorias durante as refeies. Era um calvrio se sentar
 mesa com ela, Deixava seus pais e seus dois irmos em pnico com seu ritual. Rosie vivia isolada; nenhuma colega a visitava mais. Estava perdendo as foras para
caminhar at a escola, que ficava a apenas duas quadras da sua casa. Uma pequena jornada era como praticar uma maratona para quem estava to debilitada.
        Rosie foi levada ao consultrio de Marco Polo pelos pais, e no por ela mesma. O psiquiatra a recebeu na porta gentilmente e a conduziu at uma poltrona.
Muda, ela nem sequer agradeceu. Cumprimentou-a com um sorriso, disse que tinha prazer em conhec-la e ela mais uma vez mostrou indiferena. Quando ele foi fazer
outra pergunta, ela tapou os ouvidos. Recusou-se a ouvi-lo.
        Impressionado, respeitou seu gesto e esperou pacientemente que ela destapasse os ouvidos. Para Rosie, Marco Polo era um intruso. Ele sabia disso e entendeu
sua atitude, ainda que ilgica. Aps cinco longos minutos, ela tirou os dedos do ouvido. Foi vencida pelo cansao.
        - Voc acha que estou invadindo a sua vida? - perguntou, tentando de alguma forma estimul-la a dizer o que sentia por estar ali diante dele.
        A resposta foi incisiva - ela novamente tapou os ouvidos. Passaram-se mais trs minutos sob um silncio mrbido, mas muito significativo. Rosie se fechara
no seu mundo e ningum era digno de entrar nele. Era um mundo melanclico, saturado de penria e autodestrutivo, mas era seu mundo. Para Marco Polo, um psiquiatra
ou um psiclogo jamais deveria enquadrar a personalidade de um paciente dentro de uma teoria, mas colocar a teoria dentro da personalidade do paciente. Ele usava
medicamentos, mas sabia que o mais importante consistia em entender que cada ser humano era uma caixa de segredos nica e que no havia receitas prontas para abrir
essa caixa.
        Rosie era mais do que uma caixa de segredos. Era um verdadeiro cofre e corria risco de vida. Ao olhar para ela, Marco Polo viu o que a imagem no revelava:
um tesouro soterrado nos escombros da sua gravssima doena. Desejou usar sua criatividade para, dentro dos limites da tica, tentar de todas as formas conquist-la.
As chances eram pequenssimas. A qualquer momento, ela poderia se levantar e sair do consultrio, como fizera com diversos outros profissionais. Quando ela destapou
novamente os ouvidos, ele provocou sua capacidade de pensar:
        - Voc tapa seus ouvidos porque tem medo de me ouvir ou de
se ouvir?
        Rosie ficou intrigada com a pergunta. Aps pensar, reagiu:
        - No quero ouvir voc.
        Aproveitando a pequena abertura, Marco Polo a questionou:
        - Por que voc no ouve a voz do seu corpo? Voc tem medo
de ganhar peso e ser admirada pelos outros?
        O sentimento de Rosie era justamente o contrrio. Ela no comia porque procurava um padro inumano e falso de beleza, queria ser admirada, mas era carrasco
de si mesma, no se aceitava. Perturbada com a pergunta, abriu a boca e, apesar de estar fisicamente frgil, falou com rispidez:
        - No como porque estou gorda!
        Qualquer pessoa que ouvisse essas palavras diria imediatamente que ela estava brincando, contando uma piada, mentindo ou simulando. Mas Rosie estava sendo
sincera. Embora estivesse magrrima, com grave risco de perder a vida, aos prprios olhos estava obesa. As zonas de conflito do seu inconsciente distorciam sua interpretao
sobre sua auto-imagem e a forma como via a vida. No escutava a voz do seu corpo, que clamava para sobreviver.
        Desde os 14 anos comeara a desenvolver anorexia. Envolvera-se numa busca fatal de um corpo ideal, deslumbrante, mas aos poucos tinha perdido os parmetros
da realidade. Emagreceu, atingiu um peso compatvel com sua altura, mas no parou de fazer regime. No comeo, deixar de comer parecia um capricho mas paulatinamente
seus pais perceberam a gravidade do raso E quanto mais desesperados ficavam, mais ela bloqueava o apetite. E quanto mais ela bloqueava o apetite, mais seus pais,
parentes e colegas lhe davam superateno.
        Gerou-se, assim, um ciclo doentio. Marco Polo conhecia bem esses mecanismos. A ansiedade das pessoas que suplicavam para que Rosie se alimentasse trazia-lhe
um ganho secundrio perigoso de ateno e afeto. Todas as pessoas giravam em sua rbita. Esse ganho secundrio, que na realidade era uma perda, reforava os mecanismos
doentios da anorexia nervosa. Todas as pessoas mais prximas ficavam de certa forma doentes. Era extremamente triste ver uma menina sem massa muscular e cadavrica
se achar obesa.
        Nenhum pediatra, psiclogo, psiquiatra havia tido sucesso em faz-la comer. Ao ouvi-la dizer que estava gorda, Marco Polo comeou a questionar sua viso
de vida:
        - O que  ser gorda?
        Ela no respondeu. No queria discutir suas idias. Inconformado, novamente ele procurou estimular sua inteligncia, elogiando-a e ao mesmo tempo levando-a
 autocrtica:
        - Eu respeito se voc acredita que est obesa, que no quer engordar. Mas voc precisa ter um corpo ideal para ser feliz? No vale mais o contedo da sua
personalidade do que o invlucro do seu corpo?
        Rosie ficou atnita. Permaneceu em silncio e pensativa.
        Marco Polo continuou:
        - Desculpe-me, mas ser que voc no tem medo de reconhecer que  uma pessoa maravilhosa?
        Marco Polo estava comeando a conquistar o territrio da sua emoo e penetrando no territrio da sua razo. Ela ia tapar novamente os ouvidos, mas ele disse:
        - Espere, por favor. Voc no precisa tapar seus ouvidos. Se
acha que no tenho capacidade para ajud-la, pode ir, pois
respeito sua opinio. Eu sei que existe um tesouro dentro de
voc e gostaria de ter a chance de conhec-lo.
        Rosie ficou envolvida. Entretanto, para no se deixar conquistar, ela subitamente se levantou e saiu do consultrio. Queria estar em qualquer outro lugar,
mas no num ambiente que questionava seus parmetros sobre a realidade. Sua resistncia era enorme, mas ficou impressionada com as atitudes e idias de Marco Polo.
Nunca fora desafiada desse jeito.


?

        Enquanto isso, Elizabeth no havia superado a rejeio de Sarah por Robert. O esteretipo da beleza atingira a carne da sua carne, exclura sua prpria filha.
Introspectiva, ficou tentando relembrar se ao longo da sua carreira tambm no havia rejeitado jovens para serem capa da revista porque estavam fora do srdido padro
esttico.
        De uma coisa tinha certeza: jamais havia recomendado para a capa da revista uma jovem ou uma mulher cuja beleza fosse comum, normal ou que estivesse levemente
acima do peso. Comeou a sentir um peso na conscincia. Dois dias depois, uma jornalista encontrou uma pesquisa ampla sobre a auto-imagem da mulher atual e a entregou
a Elizabeth. Ela a recebeu com apreenso, mas tambm com euforia.
        Pediu para no ser importunada naquela tarde. Os dados da pesquisa poderiam ser sua redeno, poderiam excluir o "fantasma" Marco Polo da sua vida, demonstrar
que as mulheres modernas eram felizes, tinham elevada auto-estima, possuam uma relao excelente com o prprio corpo e com a vida.
        Ao comear a analisar a pesquisa, porm, comeou a ficar vermelha. O suor brotou em sua testa, a freqncia respiratria aumentou e experimentou um desconfortvel
n na garganta. Os dados eram assustadores, mais graves do que imaginava. Ficou assombrada. A cada informao que analisava, balbuciava: "No  possvel! Estamos
morrendo por dentro."
        Elizabeth teve pesadelos naquela noite, seu sono ficou entrecortado. Perturbou-se com os personagens dos seus sonhos: mulheres, adolescentes e at crianas
em prises, algemadas, amordaadas. Algumas estavam magrssimas, outras provocavam vmitos sem parar. Foi a pior noite da sua vida, mas a que mais a fez caminhar
nas trajetrias do seu prprio ser.


?
        Um dia depois que Rosie saiu do consultrio de Marco Polo, Sarah notou que ela estava mais socivel, mais disposta a ouvi-la, A prpria Rosie pediu que Sarah
contasse novamente a sua histria. Desta vez, a histria produziu um extraordinrio resultado. O olho direito de Rosie expulsou uma gota de lgrima, como prola
que queria reluzir no mundo.
        Sarah concluiu contando-lhe que teve bulimia. Em seguida, disse:
        - Eu vivia em guerra com os alimentos e com o meu corpo. Uma guerra louca, tola, estpida, que estava me corroendo por dentro. Vivi a pior solido do mundo,
mas agora resolvi no me abandonar, no abrir mo dos meus sonhos.
        Ento, para surpresa de Sarah e de seus pais, Rosie falou:
        - Quero ver novamente aquele psiquiatra petulante! - Havia um suave sorriso em seu rosto. Aps dizer essas palavras, ela se retirou imediatamente para seu
quarto.
        Dias depois, retornou ao consultrio. Estava mais acessvel, mas no sorria e tentava disfarar seu interesse. Em alguns momentos tapava rapidamente os ouvidos,
principalmente quando se sentia sem argumento. Em outros, ouvia Marco Polo. De vez em quando produzia algumas palavras impressionantes, como estas:
        - Eu no posso engordar. Se ganho 500 gramas, entro em
crise, sinto-me pssima.
        - O problema no  o peso do seu corpo, mas o peso que voc
coloca em sua emoo, o seu nvel de exigncia para sentir-se realizada. Precisa resgatar a liderana do eu, se transformar em atriz principal da sua histria.
        Rosie entendia a linguagem figurada de Marco Polo. J tinha feito teatro como atriz coadjuvante, mas nunca conseguira ser atriz principal. Agora precisava
assumir esse lugar, pelo menos no teatro da sua vida. Para isso, precisava transformar a guerra contra os alimentos numa fonte de prazer. O espelho denunciava seus
ossos, mas as zonas de conflito refletiam o fantasma da obesidade. Precisava deixar de ser assombrada por ele. Precisava tambm vencer a necessidade neurtica de
ser o centro do mundo.
        As palavras de Marco Polo e Sarah comearam a ecoar na sua  psique, iluminando sua masmorra interior. Rosie esboou um pequeno progresso, mas confiar em
Marco Polo era desconfiar da crtica doente que construra em relao  vida e a tudo que a rodeava. Entretanto surgira um frgil e delicado caminho em seu tratamento.
        Ao terminar a consulta, o telefone do psiquiatra tocou. Era Elizabeth, apavorada, querendo falar com ele. Estava aflita. Contou que tinha em mos uma pesquisa
que confirmava todas as suas suspeitas sobre a ditadura da beleza. Pediu se ele e Falco poderiam participar do Congresso Internacional das Revistas Femininas, que
aconteceria no ms seguinte na cidade de Nova York.
        A agenda do congresso j estava fechada, mas como Elizabeth era uma das organizadoras, ela abriria um espao para que eles pudessem falar aos jornalistas
do mundo todo sobre a sndrome PIB e os dados da pesquisa. O tema era tica e Responsabilidade Social das Revistas Femininas. Acreditava que a fala dos dois poderia
coroar o evento. No imaginava o caos que iria se instalar.



CAPTULO 8
        Chegou o dia do congresso. Havia mais de 100 gerentes editoriais das revistas femininas mais importantes dos continentes, alm de 400 jornalistas convidadas,
52 diretores de agncias de modelos, cerca de 30 gerentes de agncias de propaganda e 16 executivos das indstrias de cosmticos, perfumes, roupas e aparelhos de
esttica, que patrocinavam o megaevento.
        Marco Polo e Falco subiram ao palco para proferir sua conferncia. O psiquiatra olhou para os 700 participantes, dos quais apenas 10% eram homens, e, sem
meias palavras, deixou a platia estarrecida:
        - Espervamos que no sculo XXI tivssemos a gerao de mulheres mais bem-resolvidas, com a mais excelente auto-estima e com a melhor relao com seus corpos
do que em qualquer outra gerao, pois nunca a indstria de produtos de beleza foi to poderosa, nunca a indstria da moda foi to diversificada, nunca se fizeram
tantas cirurgias plsticas nem se usaram tantas tcnicas estticas para atingir o belo. Mas eis que estamos diante de uma gerao de mulheres angustiadas, desiludidas
e frustradas.
        Os participantes ficaram alvoroados. Em seguida, Marco Polo e Falco fizeram uma exposio sobre os danos causados pelo esteretipo da beleza no inconsciente
coletivo. Falaram sobre a teoria das janelas da memria e o aprisionamento emocional. Comentaram sobre a tortura vivida pelas modelos e revelaram a atitude maquiavlica
de us-las como padro de beleza para todas as mulheres do mundo. A platia estava atenta  tese chocante dos dois pensadores. Algumas pessoas transpiravam.
        Alguns espectadores se remoam em suas cadeiras, principalmente os proprietrios de agncias de modelos e os executivos das grandes agncias de propaganda
que difundiam um falso ideal de beleza. Os argumentos contundentes do psiquiatra e do filsofo subvertiam suas crenas. E, para desespero desses empresrios, algumas
jornalistas os aplaudiram.
        Para comprovar suas idias, Marco Polo e Falco comearam a comentar a pesquisa de uma prestigiada universidade sobre a auto-imagem da mulher, sua auto-estima
e sua viso de beleza. A pesquisa fora feita em diversos pases: EUA, Canad, Inglaterra, Frana, Itlia, Japo, Brasil, entre outros.
        Marco Polo olhou fixamente para a platia e disse:
        - A sobreposio no inconsciente coletivo de imagens de mulheres supermagras e de um padro de beleza incomum tem
causado um desastre na personalidade das mulheres. Por isso, por incrvel que parea, de acordo com essa pesquisa, apenas 2% das mulheres do mundo inteiro se descrevem
como belas e tm uma tima relao consigo mesmas. Esse nmero estarrecedor  o retrato do rombo que a mdia tem causado na delicado territrio da emoo.
        As mulheres ficaram impressionadas, e Falco continuou:
        - Quando se olham nos espelhos, as mulheres valorizam mais
seus defeitos do que suas qualidades, pois se vem atravs das janelas doentias que construram em sua psique. - Usou uma
forte comparao: - Se vocs fizerem uma cirurgia cardaca,
tero mais de 99% de chance de sobreviver, mas, se viverem nas
sociedades modernas, tero apenas cerca de 2% de possibilidade
de preservar sua auto-estima. No passado, as mulheres fencias,
gregas, romanas foram violentadas exteriormente, no podiam se expressar, trabalhar fora, decidir seus caminhos. Mas, na atualidade, as mulheres tm sido violentadas
interiormente.
        A fala dos dois amigos penetrou como lmina nas espectadoras. Marco Polo tomou a frente e prosseguiu:
        -Vivemos num estado democrtico cujo direito fundamental  o direito de defesa. Mas as mulheres no tm o direito de se defenderem contra o sistema que as
adoece: 93% delas disseram que a mdia  capaz de gerar uma busca doentia por um padro de beleza e 78% afirmaram que  preciso muito dinheiro para tentar conquistar
esse estilo falso de beleza. Foi a vez de Falco discorrer:
        - A pior ditadura  aquela que nos controla por dentro, que distorce nossa crtica e a percepo da realidade. As mulheres, e tambm milhes de homens, vivem
debaixo de uma ditadura interior e de uma democracia poltica exterior. O objetivo da ditadura da beleza  promover inconscientemente a insatisfao, e no a satisfao.
Pois uma pessoa satisfeita, bem-humorada, feliz, tranqila, no  consumista, consome de maneira inteligente, no precisa viver a parania de trocar continuamente
de celular, de carro, de roupas, de sapatos. Todavia, pessoas insatisfeitas projetam sua insatisfao no ter. Consomem cada vez mais, porm sentem cada vez menos.
        Enquanto ouviam essas palavras, diversas jornalistas que possuam refinada cultura concordaram com Falco, pois sabiam que as pessoas que investiam em cultura,
filosofia, intelectualidade e espiritualidade tinham menos necessidade de consumo. Eram mais bem-resolvidas. Consumiam mais idias do que esttica.
        - Cinqenta por cento das mulheres tm desejo de fazer cirurgia plstica.  legtimo que faam plsticas. Mas o fato de um nmero to grande de pessoas desejar
se submeter a procedimentos que impem riscos  vida  um sintoma de psicose coletiva - comentou Marco Polo com um semblante entristecido, e acrescentou: - No somos
contra o botox, contra os peelings, o uso de silicone, a lipoaspirao, as cirurgias plsticas. Queremos, porm, alertar mostrando que o sistema invadiu o funcionamento
da mente das pessoas como um vrus que as impede de se encantarem com a existncia e de tomarem suas decises livremente.
        Marco Polo completou dizendo que as correes estticas num mundo que supervaloriza a imagem pode aliviar a ansiedade e gerar a auto-estima. No entanto,
se as mulheres no resolverem a sndrome do padro inatingvel de beleza, a interveno esttica no solucionar a insatisfao com elas mesmas. Hoje operam o seio,
amanh o nariz, depois o rosto. O buraco  interior.
        Tomando a palavra, Falco brincou:
        -  preciso fazer plstica no crebro para resolver o problema.
As mulheres sorriram. Tiveram um momento de descontrao num clima de borbulhante tenso. Falco reforou as idias de Marco Polo:
        - Que faam plsticas e usem tcnicas de preenchimento, mas
primeiro tm de preencher a alma com sensibilidade e sabedoria. Cada mulher e cada adolescente so lindas, belas, tm suas
curvas prprias e seus dons nicos. Mas roubaram-lhes o direi
to de se admirarem.
        Novamente a grande maioria dos espectadores aplaudiu com entusiasmo. As mulheres cujo pescoo, seios, faces, nariz, barriga, quadris esto fora do padro
inatingvel de beleza, que so a grande maioria, sentiam-se discriminadas, excludas, como os negros no passado, ou os serviais. Um terremoto to grande nas matrizes
do inconsciente gerava seqelas psicolgicas graves que precisariam de dcadas para serem superadas.
        Aps essas palavras, Falco respirou e fez a pergunta fatal:
         - Qual a responsabilidade da mdia, das agncias de modelos e das indstrias de produtos de beleza, que valorizam a magreza e a beleza incomum, na destruio
coletiva do prazer das mulheres?
        Essa pergunta gerou um tumulto no auditrio. Um dos executivos de uma poderosa indstria de cosmticos, cujos comerciais dos produtos s incluam adolescentes
esquelticas e com rostos superbelos, gritou agressivamente da platia:
        - Vocs esto loucos!
        Falco rebateu imediatamente:
        - J fui louco, meu amigo! Mas hoje penso que estou lcido.
        A platia deu gargalhadas. O executivo saiu do anfiteatro irritadssimo. Marco Polo sabia que o clima pegaria fogo. Tentando manter a calma, voltou aos dados.
        - Trs quartos das pessoas que participaram da pesquisa desejam que a mdia retrate a beleza normalmente encontrada nas
mulheres. E quase 80% dizem, com sabedoria, que a beleza pode ser alcanada com atitudes inteligentes, como o afeto, a tolerncia, os sonhos, e no apenas com a
anatomia do corpo. - O psiquiatra fez um apelo: - As mulheres esto gritando contra o esteretipo da beleza. Ouam o seu clamor.
        Algumas jornalistas estavam h anos com a ditadura da beleza entalada em suas gargantas. Sempre foram contra o sistema que amordaa as mulheres, mas no
tinham espao para confront-lo. Sofia, a gerente editorial de importante revista italiana, proclamou destemidamente:
        - Eu estive fazendo uma anlise na minha revista e detectei
que 99% das imagens da capa e do miolo que difundem moda, cabelos, jias, celulares, tnis e outros produtos mostram mulheres magrrimas, cuja beleza  quase impossvel
de ser encontrada nas  ruas. Temos de repensar nossa profisso. Lutamos para que os polticos sejam ticos. E ns?
        Beleza  fundamental - esbravejou Marcus Piller no microfone disponvel para a platia. Marcus era dono de uma grande agncia que possua um time de modelos
dos mais cobiados. Para ele, beleza era absoluta, e no relativa. Costumava repetir sua estpida e pobre filosofia em todos os ambientes em que circulava: "Que
me perdoem as feias, mas beleza  fundamental."
        O lucro lquido de 40 milhes de dlares anuais o tornara um homem poderoso. Ele influenciava revistas, estilistas de moda e at programas de TV e cinema.
Questionar o padro de beleza e a maneira como ela deveria ser divulgada era questionar o seu poder. O milionrio entrou em crise. Ele tinha olheiros viajando pelo
mundo para captar imagens de uma beleza fora do comum.
        Enquanto as modelos lhe davam lucro, era gentil com elas, mas, depois que ganhavam alguns quilos, ou alguns anos, tornava-se cruel e as descartava como copos
plsticos. Por viverem no mundo mgico da moda, muitas modelos gastavam compulsivamente todo o dinheiro que ganhavam e no se preparavam para o amanh. Enquanto
estavam sob o foco dos holofotes ou do olho das cmeras fotogrficas sentiam-se eternas divas, mas, ao carem no glido esquecimento, muitas afundavam em crises
depressivas, pois no sabiam extrair riquezas do anonimato.
        Naquele momento da palestra, trs executivos da indstria de cosmticos e quatro de agncias de propaganda que nunca amaram as mulheres, mas que eram especialistas
em usar seus corpos, aproveitaram o clima tenso e deixaram o anfiteatro junto com Marcus Piller. Preferiram sair do ambiente a enfrentar a prpria conscincia. Enquanto
saam, alguns disseram a meio tom, mas de forma audvel:
        - Esses caras so dementes. Querem mudar o mundo. So mercadores de utopia.
        Influenciadas por eles, vrias outras pessoas deixaram o anfiteatro, principalmente homens. A platia ficou agitada, todos falavam ao mesmo tempo. Jamais
ocorrera um motim to grande num congresso. Na realidade, essa agitao era apenas a ponta do iceberg dos graves problemas que todas as pessoas que se engajariam
nessa luta enfrentariam.
        Elizabeth estava atordoada, mas sentia que o debate, ainda que estivesse causando transtornos, estava gerando um questionamento saudvel. Mensalmente, 60
milhes de revistas eram publicadas em todas as naes objetivando atingir as mulheres. Multiplicando-se por cinco, pelo menos 300 milhes de mulheres tinham acesso
s idias nelas contidas. O poder dessas revistas era enorme.
        Havia textos intelectualmente ricos que estimulavam a arte de pensar e promoviam a qualidade de vida da mulher, mas isso no era suficiente para proteg-las
contra a invaso do sistema ditatorial de beleza e a formao de janelas killer. Brgida, gerente editorial de uma revista feminina francesa, levantou-se e apoiou
Marco Polo e Falco publicamente:
        - Caras colegas, no importa o nome que se d  sndrome PIB, eu estou convencida de que ela no  uma inveno dos conferencistas. - E, para fundamentar
sua idia, afirmou: - Tenho uma pesquisa em mos feita com 200 modelos que mostra que 20% tm anorexia nervosa, 15% bulimia e 30% crises depressivas. E, pasmem,
quase todas elas esto insatisfeitas com seus corpos. Se as modelos so vtimas de um padro de beleza inatingvel, imagine as demais mulheres! Se elas mendigam
o po da auto-estima, como as demais mulheres sobrevivero?
        Inspirado pelas palavras de Brgida, Falco fez um breve relato da beleza no tempo. Disse que estilistas determinavam tiranicamente as medidas antropolgicas
da beleza feminina, medidas irracionais, pois levavam em conta escalas de sensualidade absurdas que faziam com que as mulheres se sentissem deficientes, deformadas,
no atraentes, no admiradas.
        Comentou que sempre houve certo padro de beleza na histria, mas no passado ele era mais inteligente e saudvel. Citou algumas esculturas e pinturas que
retratavam a beleza da mulher no Museu do Louvre. Falou sobre a Vnus de Milo, uma escultura entalhada em mrmore no ano 100 a.C. A "deusa do amor", prottipo da
formosura na poca helenstica, cujos quadris, barriga e rosto redondo refletiam uma indecifrvel beleza, para os estpidos padres atuais seria considerada gorda.
Citou as esttuas das mulheres dos imperadores romanos, cujo ventre arredondado, tronco desenvolvido e papada no queixo refletiam o apogeu da beleza e da sade da
poca.
        Citou tambm a escandalosamente bela pintura de Jean Auguste Dominique, de 1808, retratando mulheres tomando banho. Mulheres livres, tranqilas, serenas,
que revelavam uma despreocupao com a beleza e se banhavam folgadamente sem medo de mostrar seu corpo umas para as outras. Ainda que algumas fossem gordas para
os padres atuais, a obesidade era sinal de beleza, e no objeto de vergonha.
        - O comportamento das mulheres do quadro de Dominique mostra como as mulheres atuais esto doentes, pois muitas no vo  praia por rejeitarem a anatomia
do seu corpo, por no suportarem no apenas as crticas dos homens, mas, principalmente, das demais mulheres - comentou o pensador. Em seguida, acrescentou: - Se
as belas musas do sculo XIX fossem candidatas ao cargo de modelos nos dias atuais, morreriam de fome, ou teriam de fazer dezenas de plsticas.
        Aps discorrer sobre outros quadros, citou a famosa pintura A liberdade conduzindo o povo, de 1830, de Eugne Delacroix. A liberdade  retratada por uma
jovem mulher de traos fortes, com curvas exaltadas, musculatura saudvel, empunhando uma bandeira em uma das mos e uma arma na outra, incitando a multido a se
rebelar contra a ditadura.
        - O padro de beleza na histria sempre foi flutuante, e no rgido. Dependeu da cultura, do ambiente, da sade, da troca de informaes. Mas, na atualidade,
depende do capital. O capitalismo trouxe ganhos inegveis para as sociedades, mas disseminou um esteretipo falso de beleza que contaminou as escolas, os lares,
as ruas, os clubes, e povoou os sonhos das meninas, dos meninos, das mes, dos pais. Estamos mais ricos financeiramente hoje, mas muito mais miserveis e infelizes
interiormente.



CAPTULO 9
        A conferncia de Falco e Marco Polo foi a ltima do congresso. A fala dos dois causou um impacto enorme, gerou um acalorado  debate. Ao  final, Elizabeth
estava ansiosa. Levantou-se e afirmou que uma luta mundial deveria ser travada em funo da mulher, mas os obstculos seriam grandes.
        - Como enfrentaremos o sistema? - indagou, aflita.
        Os dois pensadores sabiam que, embora fossem grandes formadoras de opinio, as jornalistas precisariam de sabedoria e de coragem para enfrentar a mais penetrante
das ditaduras. Pela amostra das pessoas que saram explodindo de raiva do congresso, os riscos seriam intensos e imprevisveis.
        Diante disso, Falco e Marco Polo olharam um para o outro, pediram novamente a palavra e resolveram gastar mais 10 minutos para falar da coragem do homem
que mais defendeu o direito das mulheres. Queriam encoraj-las com a histria de algum que correu todos os riscos para proteg-las e para dar-lhes o status de seres
humanos.
        Num estado de sublime abstrao da sua inteligncia, Falco falou:
        - As mulheres freqentemente foram silenciadas, controladas,
diminudas  e tratadas  como  subumanas  nas mais  diversas
sociedades humanas. Todavia, houve um homem que lutou sozinho contra o imprio do preconceito. Ele foi incompreendido,
rejeitado, excludo, mas no desistiu dos seus ideais. Ningum apostou tanto nas mulheres como ele. Fez das prostitutas rainhas, e das desprezadas, princesas. Muitos
dizem que ele  o homem mais famoso da histria, mas poucos sabem que foi ele quem mais defendeu as mulheres. Seu nome  Jesus Cristo, o Mestre dos Mestres na arte
de viver.
        Falco fez uma pausa para respirar e contou uma histria que emocionou profundamente as mulheres, incluindo as budistas, as judias, as islamitas, de outras
religies e at as que no tinham qualquer religio. Falco e Marco Polo no falaram de uma religio, mas da filosofia e da psicologia do homem mais complexo e ousado
de que se teve notcia.
        Disseram que nos tempos de Jesus os homens adlteros no sofriam punio severa. Todavia, a mulher adltera era arrastada em praa pblica, suas vestes rasgadas
e, com os seios  mostra, eram apedrejadas sem piedade. Enquanto sangravam e agonizavam, pediam compaixo, mas ningum as ouvia. A cena, inesquecvel, ficava gravada
na mente e perturbava a alma para sempre.
        Aps essa breve exposio, Falco contou que certa vez uma mulher foi pega em adultrio. Arrancaram-na da cama e a arrastaram centenas de metros at o lugar
em que Jesus se encontrava. A mulher gritava "Piedade! Compaixo!", enquanto era arrastada; suas vestes iam sendo rasgadas e sua pele sangrava esfolando-se na terra.
        Jesus estava dando uma aula tranqila na frente do templo. Havia uma multido ouvindo-o atentamente. Ele lhes ensinava que cada ser humano tem um inestimvel
valor, que a arte da tolerncia  a fora dos fortes, que a capacidade de perdoar est diretamente relacionada  maturidade das pessoas. Suas idias revolucionavam
o pensamento humano, por isso comeou a ter muitos inimigos. Na poca, os judeus constituam um povo fascinante, mas havia um pequeno grupo de radicais que passou
a odiar as idias do Mestre. Quando trouxeram a mulher adltera at ele, a inteno era apedrej-lo juntamente com ela, us-la como isca para destru-lo.
        Ao chegarem com a mulher diante dele, a multido ficou perplexa. Destilando dio, comentaram que ela fora pega em flagrante adultrio. E perguntaram qual
era a sentena dele. Se dissesse "Que seja apedrejada", ele livraria a sua pele, mas destruiria seu projeto transcendental, seu discurso e principalmente seu amor
pelo ser humano, em especial pelas mulheres. Se dissesse "No a matem!" ele e a mulher seriam imediatamente apedrejados, pois estaria indo contra a tradio daqueles
radicais. Se os fariseus tivessem feito a mesma pergunta aos discpulos de Jesus, estes provavelmente teriam dito para mat-la. Assim se livrariam do risco de morrer.
        - Qual foi a primeira resposta do Mestre diante desse grave
incidente? - perguntou Falco para a platia.
        A grande maioria das mulheres sabia a resposta. Responderam coletivamente:
        - Quem no tem pecado atire a primeira pedra!
        Falco fez um sinal e Marco Polo continuou a analisar a histria. O filsofo se calou e o psiquiatra falou:
        - No! Essa foi a segunda resposta. A primeira foi no dar
resposta, foi o silncio.
        A platia fez um burburinho, e ele continuou:
        - S o silncio pode conter a sabedoria quando a vida est em
risco. Nos primeiros 30 segundos de tenso cometemos os maiores erros de nossas vidas, ferimos quem mais amamos. Por
isso, o silncio  a orao dos sbios. Para o Mestre dos Mestres,
aquela mulher, ainda que desconhecida, pobre, esfolada, rejeita
da publicamente e adltera, era mais importante do que todo o
ouro do mundo, to valiosa como a mais pura das mulheres. Era uma jia rarssima, que tinha sonhos, expectativas, lgrimas, golpes de ousadia, recuos, enfim, uma
histria fascinante, to importante como a de qualquer mulher presente nesta sala. Valia a pena correr riscos para resgat-la.
        Falco tomou a frente e comeou a dizer que para o Mestre dos Mestres no havia um padro para classificar as mulheres. Todas eram igualmente belas, no
importando a anatomia do seu corpo, no importando nem mesmo se erravam muito ou pouco.
        - Jesus precisava mudar a mente dos acusadores, mas nunca
ningum conseguiu mudar a mente de linchadores. O "eu" deles
era vtima das janelas do dio, no eram autores da sua histria,
queriam ver sangue. O que fazer, ento?
        Falco respirou profundamente. Nesse momento, percebeu que a platia estava fazendo a mais profunda orao do silncio. Ento continuou:
        - Ao optar pelo silncio, Jesus optou por pensar antes de reagir. Ele escrevia na areia, porque escrevia no teatro da sua mente.
Talvez dissesse para si mesmo: "Que homens so esses que no
enxergam a riqueza dessa mulher? Por que querem que eu a
julgue, se eu quero am-la? Por que, em vez de olhar para os
erros dela, no olham para seus prprios erros?"
        Em seguida, o psiquiatra interpretou a reao dos fariseus. Disse que o silncio inquietante de Jesus deixou os acusadores perplexos, levando-os a diminuir
a temperatura da raiva, da tenso, oxigenando a racionalidade deles.
        - Num segundo momento, eles voltaram a perguntar o veredicto do Mestre - disse Marco Polo. - Ento, finalmente, ele se levantou. Fitou os fariseus nos olhos,
como se dissesse: "Matem a mulher! Todavia, antes de apedrej-la, mudem a base do julgamento, tenham a coragem de ser transparentes e enxergar as suas falhas, erros
e contradies." Esse era o sentido de suas palavras. "Quem no tem pecado atire a primeira pedra!" - E Marco Polo indagou: - Que amor  esse que se doa at s ltimas
conseqncias?
        A platia ficou abismada com as palavras de Marco Polo e Falco. Algumas mulheres enxugavam os olhos. Eles tambm estavam comovidos, afinal de contas viviam
numa sociedade que apedrejava emocionalmente milhes de mulheres, adolescentes e crianas sem piedade. No passado, Falco fora apedrejado pelo preconceito e, para
ele, o sofrimento gerado pela discriminao produzia cicatrizes indelveis na alma humana.
        Com os olhos midos, ele fez um sinal para Marco Polo continuar a sua interpretao. Eles sempre discutiam a grandeza das reaes de Jesus Cristo. No defendiam
uma religio, mas eram fascinados por suas idias.
        - Os fariseus receberam um choque de lucidez com as pa
lavras de Jesus. Saram do crcere das janelas killer e comearam
a abrir as janelas light. Deixaram de ser vtimas do instinto de
agressividade e passaram a gerenciar suas reaes. O homo sapiens prevaleceu sobre o homo bios, a racionalidade voltou. O
resultado  que eles saram de cena. Os mais velhos saram
primeiro porque tinham acumulado mais falhas ao longo da
vida ou porque eram mais conscientes delas - Marco Polo falou
com serenidade.
        Falco se recobrou e expressou:
        - Jesus olhou para a mulher e fez uma delicada pergunta:
"Mulher, onde esto seus acusadores?" O que ele quis dizer com
essa pergunta e por que a fez? - dirigiu-se  platia.
        Houve conversas paralelas, mas ningum conseguiu responder. Falco comentou:
        - Em primeiro lugar, ele chamou a adltera de "mulher" deu-
lhe o status mais nobre, o de um ser humano. Ele no perguntou com quantos homens ela dormira. Para o Mestre dos Mestres, a pessoa que erra  mais importante do
que seus prprios erros. Aquela mulher no era uma pecadora, mas um ser humano maravilhoso. Em segundo lugar, perguntou: "Onde esto os seus acusadores? Ningum
a acusou?" Ela respondeu: "Ningum." Ele reagiu: "Nem eu." Talvez ele fosse a nica pessoa que tivesse condies de julg-la, mas no o fez. O homem que mais defendeu
as mulheres no a julgou, mas compreendeu; no a excluiu, mas a abraou. - E continuou: - As sociedades ocidentais so crists apenas no nome, pois desrespeitam
os princpios fundamentais vividos por Jesus. Um desses princpios  o respeito incondicional pelas mulheres!
        Todas as mulheres da platia se levantaram e aplaudiram essas palavras.
        Em seguida, Marco Polo disse:
        - O homem que mais defendeu as mulheres no parou por a. Sua ltima frase indica o apogeu da sua humanidade, o patamar mais sublime da solidariedade. Ele
disse para a mulher: "V e refaa seus caminhos." Fiquei perplexo quando analisei esta frase junto com Falco. Ela abala os alicerces da psiquiatria, da psicologia
e da filosofia. Jesus tinha todos os motivos para dizer: "De hoje em diante, sua vida me pertence, voc deve ser minha discpula." Os polticos e autoridades usam
seu poder para que as pessoas os aplaudam e gravitem em sua rbita. Mas Jesus, apesar de seu descomunal poder sobre a mulher, foi desprendido de qualquer interesse.
"V e revise a sua histria, cuide-se. Mulher, voc no me deve nada. Voc  livre!"
        As mulheres nunca tinham analisado Jesus sob essa perspectiva. Estavam deslumbradas, envolvidas, fascinadas. Retomando a palavra, Falco completou: - Jesus
a despediu, mas ela no foi embora. E por qu? Porque o amou. E, por am-lo, o seguiu para sempre, inclusive at os ps da cruz, quando ele agonizava. Talvez essa
mulher tenha sido Maria Madalena. A base fundamental da liberdade  a capacidade de escolha, e a capacidade de escolha s  plena quando temos liberdade de escolher
o que amamos. Todavia, estamos vivendo numa sociedade em que no conseguimos sequer amar a ns mesmos. Estamos nos tornando mais um nmero de carto de crdito,
mais um consumidor em potencial. Isso  inaceitvel.
        E para estimular o processo de reflexo dos espectadores Marco Polo disse que, alm da sndrome PIB atingir mais de um bilho de mulheres no mundo, o Mental
Health Foundation estima que uma em cada 20 mulheres sofrer futuramente alguns dos sintomas de transtorno alimentar, como anorexia e bulimia, o que indica que esses
males afetaro 150 milhes de mulheres. E contou uma histria sobre o dia em que a humanidade chorou, fazendo uma comparao da maior seriedade.
        -        Cerca de um milho de crianas e adolescentes judeus morreram na Segunda Guerra Mundial, a maioria nos campos de concentrao. Ao tomar conhecimento
disso, a humanidade chorou.
Foi um horror indescritvel, esses jovens no tinham o que comer,
morreram desnutridos, nas condies mais inumanas.
        O psiquiatra, emocionado, prosseguiu, fazendo a comparao:
        - Atualmente h cerca de 50 a 60 milhes de pessoas acometi
das pela anorexia nervosa em todo o mundo, das quais 90% so
mulheres que freqentemente iniciaram a doena na adolescncia. Elas tm mesa farta, mas se negam a comer, no tm apetite.
Milhes de pessoas maravilhosas podero morrer de inanio,
vtimas de um campo de concentrao socialmente aceito. A
humanidade novamente est chorando, mas ningum ouve seus
clamores.
        Marco Polo comentou que as pacientes portadoras de anorexia que no forem tratadas adequadamente podero apresentar seqelas psicolgicas ao longo da vida,
como inadequao social, adaptao profissional prejudicada, papel materno mal elaborado, dificuldade de criar vnculos conjugais saudveis, depresso, fobia social.
Disse ainda que as estatsticas mostram que uma em cinco pessoas portadoras de transtornos alimentares pode morrer de inanio, parada cardaca, suicdio. Ao ouvir
esses dados alarmantes, as mulheres ficaram pasmas.
        Apoiando-se na corajosa histria do Mestre dos Mestres analisada por eles, Falco finalizou a conferncia com uma afirmao e uma pergunta:
        - Pela sade e felicidade de uma mulher e de uma criana,
vale a pena fazer uma batalha. E por milhes delas, o que vale a
pena fazer?
        Muitas mulheres no tiveram dvida. Gritaram com conscincia crtica e em coro:
        -Uma revoluo!
        Nesse momento, Elizabeth, profundamente inspirada, disse:
        - No passado, as mulheres foram mutiladas, humilhadas,
amordaadas, queimadas,  apedrejadas, consideradas  objetos sexuais e, em alguns casos, animais de estimao. Muitas foram
mortas, outras sofreram caladas. No podiam votar, trabalhar,
decidir, opinar.
        Elizabeth parou para respirar e concluiu suas idias:
        - Lutamos pelos nossos direitos ao longo da histria, conseguimos grandes conquistas. Mas, quando pensvamos que
ramos livres, surge uma ditadura que nos controla por dentro.
Realmente precisamos fazer uma segunda revoluo, uma revoluo contra um sistema que usa nossos corpos como mercadoria sem respeitar nossa inteligncia e dignidade
e nem as de nossos filhos e filhas. Sugiro a formao de um comit de mulheres contra a ditadura da beleza.
        As mulheres aderiram em peso  proposta. Decidiram fazer uma revoluo contra um inimigo invisvel e ao mesmo tempo bem visvel, um inimigo presente em todo
lugar, inclusive dentro delas. Era necessrio fazer uma revoluo inspirada na serenidade do Mestre dos Mestres, sem armas, ousada, intrpida, fundamentada na sabedoria.
Todavia, Jesus pagou um preo carssimo. Foi silenciado numa cruz. O sistema social estaria preparado para essa revoluo? O destino de todas as revolucionrias
era incerto.
        As borboletas saram do casulo e resolveram mostrar suas asas. No espao do congresso elas voaram alto, com suavidade e poesia, mas l fora os predadores
as aguardavam.


CAPTULO 10
        Foram escolhidas 10 mulheres para dirigir o comit. Preferiram indicar editoras de revistas femininas de vrios pases, pois, por traarem a linha editorial
e coordenarem equipes de jornalistas, tinham mais poder de influncia social e mais possibilidade de enfrentar os obstculos que surgiriam.
        Chamaram o movimento de "Comit contra a ditadura da beleza". Entre as participantes estavam Elizabeth, dos EUA, Mitiko, do Japo, Brgida, da Frana, Lcia,
do Brasil, Sofia, da Itlia, Helen, da Alemanha, Christine, da Inglaterra, Lorna, do Canad, Chen, da China, Rbia, da Rssia. Elizabeth foi eleita presidente, e
Lisa, sua amiga, secretria do comit. Nenhuma era remunerada. Todas lutavam por um sonho.
        A primeira atitude do comit foi marcar o primeiro encontro internacional do movimento, quatro meses depois, em Los Angeles, na terra de Hollywood. Queriam
visibilidade para a causa. Resolveram elaborar em conjunto uma carta aberta a ser publicada em cada uma das revistas que dirigiam, alertando suas leitoras para a
ditadura da beleza e os riscos da sndrome do padro inatingvel de beleza. Comearam a erguer a bandeira da liberdade.
        Resolveram publicar a carta simultaneamente. Porm, havia um obstculo srio no caminho. Como gerentes editoriais, elas tinham liberdade de tomar decises,
mas no de publicar uma carta desse teor. Teriam de submet-la aos critrios dos executivos da revista, em sua maioria homens. Como acharam que seriam bloqueadas,
resolveram correr riscos e publicar sem o aval da direo.

?
        No ms seguinte a carta foi publicada:
         Queridas leitoras. Alguns homens, como Jesus Cristo, nos transformaram em rainhas, correram riscos de morrer para resgatar nossos direitos e nos tratar
como seres humanos. Tiveram a coragem de se colocar na frente das pedras de homens radicais que nos atacavam e desatar os ns das mordaas que nos calavam. Mas no
foram muitos os homens que lutaram abertamente pela nossa causa. Fomos caladas, feridas, tolhidas, tratadas sem dignidade por geraes de homens.
         No queremos diminuir, deslocar, subjugar os homens, mas apenas ter o direito de ser amadas e tratadas com igualdade, pois afinal fomos ns que os geramos,
amamentamos e cuidamos deles. Felizmente, o sculo XX  foi um sculo de grandes conquistas para a mulher. Lutamos pelos direitos de votar, opinar, freqentar universidades,
trabalhar, ter igualdade de oportunidades, ganhar salrios semelhantes aos dos homens pelas mesmas funes.
         Quando a sociedade masculina nos deu espao, avanamos, nos transformamos sem alarde na maior fora da sociedade. Conquistamos importantes postos de trabalho,
nos tornamos em maior nmero do que os homens em muitos cursos universitrios. Brilhamos na cincia e desenvolvemos maiores habilidades em quase tudo.
         Sabemos que os homens sempre mancharam mais a histria da humanidade com guerras, assassinatos, estupros, violncias, discriminao e excluso. Se governssemos
as naes, haveria menos guerras comerciais, menos fome, menos injustia e menos dor fsica e emocional nessa breve existncia. Se dependesse de ns, haveria mais
tolerncia religiosa, mais unidade da espcie, mais afetividade nas relaes humanas. Mas nunca quisemos a supremacia sobre os homens, pois ns nos completamos.
No sobrevivemos sem eles, nem eles sem ns. A fora das mulheres no se encontra nas armas, nas ameaas e presses sociais, mas na sutileza da sensibilidade, na
audcia da criatividade, na intensidade da solidariedade.
         Agora estamos em pleno sculo XXI. Quando pensvamos que os nossos direitos seriam respeitados na plenitude, a sociedade de consumo que ajudamos a construir
infectou nossa alma com um vrus que nos fez escravas de um padro irresponsvel de beleza. Nas ltimas dcadas houve um assassinato coletivo da auto-estima das
mulheres em todo o mundo. Poucas de ns se descrevem como belas.
         Embora haja nos mais altos escales das empresas homens ticos e preocupados com a nossa qualidade de vida, infelizmente a beleza da mulher tem sido manipulada
pela indstria da moda, das bebidas, do cigarro, de inmeros produtos. O corpo da mulher vende tudo hoje, s no vende auto-estima para elas mesmas. Centenas de
milhes de mulheres esto insatisfeitas e ansiosas para serem o que no so e milhes delas esto desenvolvendo bulimia e anorexia nervosa devido  ditadura da beleza.
         Cada mulher  linda ao seu modo, tem seu jeito especial de ser, sua anatomia prpria, e deve se amar, se contemplar e curtir intensamente a vida. Deve se
olhar no espelho sem medo, no se rejeitar, mas admirar sua beleza e fora interior. Pois sentir-se bela  um estado de esprito, um treinamento da emoo, um exerccio
intelectual e afetivo dos olhos de quem observa.
         No estamos dizendo que as mulheres no deveriam fazer plsticas, peelings, lifting, botox, preenchimentos, pois somos livres para fazer escolhas e conquistar
o que nos d prazer. Mas deveramos ter plena conscincia de que a eterna juventude no existe. Podemos ser eternamente jovens em nosso esprito, no anfiteatro de
nossas mentes. Envelhecer fisicamente  o nosso destino, viver feliz e com dignidade deve ser a nossa meta.
         Uma pesquisa revelou que 86% das mes gostariam que seus filhos se sentissem belos, ainda que sua aparncia no esteja dentro do esteretipo de beleza da
mdia. Cada criana tem sua beleza, no importa a cor, raa, tamanho e curvas do corpo. Mesmo as crianas especiais, como as portadoras de sndrome de Down, so
maravilhosamente belas.
         Estamos preocupadas com a nova gerao. Os pr-adolescentes e adolescentes esto adoecendo rapidamente, so insatisfeitos, consumistas, autoritrios, querem
o mundo aos seus ps e reclamam sempre do prprio corpo. No incentive suas filhas a se maquiarem precocemente, a se preocuparem com a moda, a se comportarem como
modelos. Estimule-as a viver sua infncia plenamente. Tambm no incentive os garotos a supervalorizar o espelho, as roupas de marca, os objetos de consumo, os jogos
de video game. Estimule-os a brincar, inventar, a sonhar, a ter contato com a natureza, a praticar esportes, a conquistar amizades, a viver a vida como uma grande
aventura.
         Leve seus filhos desde pequenos a criticarem o modelo de beleza imposto pela mdia, em especial pelas propagandas comerciais. Deste modo, eles desenvolvero
defesa emocional contra a invaso de imagens em seu inconsciente e tero mais chances de no desenvolver a sndrome do Padro Inalcanvel de Beleza.
         A grande maioria das mulheres gostaria que a mdia difundisse um padro de beleza comum, que enfatizasse um bitipo normal da mulher, e no estabelecesse
como padro de beleza corpos supermagros de adolescentes. A mulher atual deseja ainda que a mdia enfatize menos as curvas do corpo e mais a inteligncia da mulher.
Batalharemos por essa meta em nossas revistas. Entrem nessa luta! Reclamem, confrontem, critiquem as empresas que vendem um falso ideal de beleza. Precisamos de
um combate mundial. Por amor  humanidade, participe desse movimento!
         Comit Internacional Contra a Ditadura da Beleza.
         Elizabeth Whit (EUA), Mitiko Sakamura (Japo), Brgida Fonn (Frana), Lcia Lacerda (Brasil), Sofia Donatelli (Itlia), Helen Gnter (Alemanha), Christine
Johnson (Inglaterra), Lorna Roosevelt (Canad), Chen Ling (China), Rbia Rumanovi (Rssia).


?
        Ao pegar a nova edio da Mulher Moderna, Robert ainda sentia o cheiro fresco de tinta. Olhou a modelo da capa, achou-a atraente. Enquanto a observava, refletiu
que fora um homem de fibra ao rejeitar Sarah como capa de revista. "Um lder no deve ceder a presses, deve estar acima das paixes humanas", pensou ele.
        Enquanto folheava tranqilamente a revista e passava os olhos nas reportagens, encontrou a carta aberta. Levou um susto. Inicialmente, pensou que se tratava
de matria paga, mas no havia nenhuma tarja indicando.  medida que comeou a l-la, sentiu uma contrao intestinal e um n na garganta. Os primeiros pargrafos
o abalaram tanto que gritou para si mesmo: "Quem escreveu esse absurdo?" Subitamente desceu os olhos e viu o nome de Elizabeth. Teve um ataque de raiva e balbuciou:
"Isso  vingana, o golpe mais baixo que j recebi!"
        Continuou a ler ansiosamente a carta, mas,  medida que lia, suava frio. Estava to desnorteado que lia e relia algumas frases em voz alta e meneava a cabea
condenando o que ouvia. Imaginou que tal carta poderia ser um desastre para o futuro da revista. " tudo o que os concorrentes querem." Ao termin-la, estava trmulo.
Pegou o interfone e gritou para sua secretria:
        - Chame Elizabeth!  urgente!
        Ao receber o comunicado, Elizabeth perguntou  secretria:
        - Como est o humor dele?
        - Pssimo - ela respondeu.
        Elizabeth ficou apreensiva, mas teria de enfrentar a fera. Afinal, nada poderia ser pior do que v-lo discriminar sua prpria filha. Ao entrar no escritrio,
ele esbravejou:
        - Voc  louca, Elizabeth! - Parecia querer engoli-la com os olhos. - Com que autoridade voc escreveu uma carta dessas sem minha autorizao? J imaginou
as conseqncias do seu contedo?
        - Fui fiel  minha conscincia. Quem no  fiel  sua cons
cincia tem uma dvida impagvel consigo mesmo - ela afirmou
tentando mostrar segurana.
        - Dvida com a sua conscincia? - Ele no entendia o que ela
falava. Mas rebateu. - Dvida voc ter ao perder seu emprego.
        A boca de Elizabeth secou. Sarah estava encerrando sua carreira de modelo. Se ela tambm ficasse desempregada, a situao poderia se agravar muito. Sabia
que Robert era um homem frio, que cumpria suas ameaas.
        Ela tentou falar algo sobre a grandeza do movimento. Esperava que, se ele no o apoiasse, pelo menos o respeitasse, pois se tratava de um movimento internacional.
Comentou sobre o comit, os objetivos pacficos do projeto e disse que Lisa era a secretria executiva. Enquanto Elizabeth falava, Robert sentiu no ar o perigo enorme
que esse movimento poderia representar para a sua carreira e para o futuro da Mulher Moderna.
        - As crianas esto perdendo a sua infncia, os adolescentes
esto... - Antes que Elizabeth completasse a frase, ele a interrompeu agressivamente.
        Ns estamos na nao mais livre do mundo. As crianas, as
adolescentes e as mulheres deste pas so livres e tm uma qualidade de vida invejvel.
        - No tenho dvida quanto a isso, mas precisamos ser livres
por dentro e.... - Quando ela ia completar a frase, Robert novamente a cortou.
        - Voc quer consertar a democracia? Se quiser, mude de emprego. - Sua frieza era insuportvel.
        - Creio que, se formos transparentes com nossas leitoras,
conquistaremos um pblico mais fiel para nossa revista e
aumentaremos a massa crtica da sociedade.
        - Massa crtica? Pare com esse romantismo. Precisamos
vender revistas! Este  o nosso negcio! - Sua falta de considerao pelas mulheres era total.
        - Voc vende revistas, mas eu vendo idias. Somos diferentes...
        - Claro que somos diferentes. Eu sou diretor e voc  minha
subordinada. E no percebe que pode ser despedida.
        - Quando voc me contratou h mais de 11 anos, a revista
estava em pssima situao. Sob minha gerncia editorial, multiplicamos por 10 a tiragem de cada edio. Voc no  capaz de
reconhecer o meu valor?
        Robert ficou abalado, mas continuou agressivo:
        - Voc no fez mais do que sua obrigao, recebeu por isso.
Mas, com essa carta utpica que voc e suas amiguinhas com peso na conscincia escreveram, voc est colocando a empresa em alto risco. S faltaram dizer s leitoras
"perdoem as tolices que fizemos". Um lder no se arrepende das suas atitudes. Voc fez bem at hoje em divulgar um padro de beleza definido. Pode se retirar -
disse secamente.
        Elizabeth jamais havia chorado na redao, por mais problemas e dificuldades que atravessasse, mas desta vez chorou. Odiou Robert no apenas porque a maltratara,
mas pelo desrespeito com as leitoras. A suspeita de que o comit enfrentaria dias difceis estava se confirmando.
        Quando a viram chorando, um grupo de jornalistas que apoiava suas idias correu para consol-la. De repente, Lisa chegou.
        - O que aconteceu? - perguntou a secretria do movimento.
        - Encontrei um monstro. Temo pelo nosso emprego - disse
Elizabeth, insegura.
        Robert decidiu esperar os resultados da carta para tomar suas decises. Queria sentir como reagiriam as vendas da revista e os anunciantes.

CAPTULO 11
        Trs dias depois, Robert chamou Elizabeth para informar que alguns anunciantes tinham rompido seu contrato com a revista devido  carta aberta. Era o que
ele precisava para cortar as asas dessa perigosa revoluo que estava nascendo em sua redao. Desejando romper a veia jugular da sua gerente editorial, disse agressivamente:
        - Por sua causa, terei de despedir trs jornalistas. Entre elas, Lisa.
        Elizabeth entrou em estado de choque. Despedir Lisa por sua causa era como enfiar um estilete na sua alma. Robert s no despediu Elizabeth porque ainda
precisava do seu trabalho.
        - Por favor, no faa isso! Despea-me e mantenha o emprego
de Lisa e das outras jornalistas - disse, com lgrimas nos olhos.
        - J tomei minha deciso, voc pode sair - falou, cortando
qualquer possibilidade de dilogo.
        Robert j tinha conversado com Lisa minutos antes. Ela estava chorando quando Elizabeth a encontrou em sua sala. Elas se abraaram prolongadamente. Elizabeth
pediu-lhe desculpas e disse que no aceitaria essa situao.
        - Pedirei demisso tambm - disse, solidria com a amiga.
        - No, Elizabeth.  o que Robert quer. Ele representa o sistema que deseja nos calar. No se demita, voc  mais til para
nossa causa aqui. Muitos sonham, mas poucos tm coragem de
pagar o preo para executar seus sonhos. Enfrentarei o concorrido mercado de trabalho novamente.  o meu preo.
        Elizabeth ficou emocionada com a coragem de Lisa. Todas as mulheres do comit receberam advertncias dos diretores dos grupos que editavam as revistas. Foram
pressionadas, chantageadas e encorajadas a jamais terem outra atitude semelhante. Mitiko, gerente editorial do Japo, e Sofia, da Itlia, tiveram o mesmo destino
de Lisa: foram despedidas sumariamente. Houve ruptura de anunciantes em todas as revistas.
        Quando soube do drama de Sofia e Mitiko, Elizabeth ficou arrasada. Sentia-se culpada, afinal de contas foi ela que props a formao do comit. Pensou com
ela mesma: "Acabei com a carreira de grandes jornalistas." Teve medo e raiva do sistema. O movimento sofreu um grande abalo. Todavia, as conselheiras do comit que
ainda preservaram seus empregos decidiram contratar Mitiko, Sofia, Lisa e as outras jornalistas que foram demitidas como correspondentes internacionais das revistas
dirigidas por elas. A tempestade foi aliviada, mas o inverno ainda no havia chegado.
        Nos dias que se seguiram, o movimento contra a ditadura da beleza entrou em estado de euforia. Comeou a surgir uma avalanche de cartas e e-mails apoiando
a causa. Esqueceram as presses e se alegraram com as reaes das mulheres em todos os pases em que a carta aberta foi publicada. A sensao era de que uma revoluo
silenciosa e inteligente estava no caminho certo. Somando-se todas as cartas e todos os e-mails recebidos, o nmero ultrapassava os dois milhes. Foi a maior repercusso
de todos os tempos para uma matria jornalstica.
        Mais de 500 mil mulheres de todas as idades queriam mais informaes sobre a sndrome PIB. Elas agradeciam a carta aberta, revelando que ela era um brinde
 sua debilitada auto-estima. Diziam no suportar se olhar no espelho e confirmaram que a insatisfao com o corpo afetava sua autoconfiana, seu prazer social,
profissional e sexual.
        Pelas mensagens, ficou comprovado que a aparncia e o estilo da mulher muitas vezes determinam seu sucesso ou fracasso em empresas que lidam diretamente
com o pblico, caso de bancos, empresas areas e lojas de departamentos. Algumas contaram casos de discriminao profissional, inclusive em concursos, por no estarem
dentro do padro de beleza. E houve at quem tenha sido humilhada pelo chefe porque no era bonita.
        Chegaram tambm mais 100 mil mensagens de mes desesperadas relatando casos de transtornos alimentares de seus filhos. Queriam ter recebido esse alerta quando
eles estavam na primeira infncia, mas nunca foram orientadas. Mais de duas mil adolescentes portadoras de anorexia nervosa e bulimia diziam que tinham perdido a
vontade de viver, mas que agora se sentiam com um novo nimo. Algumas reproduziam o trecho da carta aberta, que dizia: Cada criana tem sua beleza, no importa a
cor, raa, tamanho e curvas do corpo. Prometeram que confiariam mais nos seus psiquiatras e psiclogos, que lutariam contra a ditadura da beleza.
        Surpreendentemente, chegaram 500 mensagens de garotos com vigorexia, um transtorno que tem sintomas opostos  anorexia. Eles malham compulsivamente nas academias
para se sentirem poderosos fisicamente e socialmente admirados. As mensagens tambm revelavam que, para adquirir massa muscular, eles tomavam anabolizantes e vitaminas
sem orientao mdica, colocando suas vidas em risco. Aps terem lido a carta, disseram que queriam ser poderosos em sua inteligncia.
        Receberam ainda mais de 150 mil mensagens de mulheres com idade acima dos 40 anos admitindo seu medo de envelhecer, de perder o prazer sexual, de no ser
atraente, amada e procurada. Disseram que comearam a entender que beleza era um estado de esprito.
        Uma senhora de 92 anos escreveu dizendo que se sentia eternamente jovem, mais jovem do que muitos adolescentes. Alis, mais de mil mulheres acima de 70 anos
declararam que ainda se sentiam bonitas, mesmo que as sociedades modernas valorizassem a esttica dos jovens e no a sabedoria dos idosos. Elas escaparam da ditadura
da beleza porque viveram numa poca menos massificadora.
        A grande surpresa, no entanto, foram os depoimentos escritos por homens de todas as idades, principalmente da faixa de 25 a 40 anos. Mais de 50 mil e-mails
afirmavam que eles tambm eram escravos da beleza e compulsivos por dietas. Comiam com culpa e no se permitiam relaxar num restaurante. Muitos tinham graves complexos
pela anatomia do nariz, rosto, altura. Outros no suportavam os cabelos grisalhos, muito menos a calvcie.
        Mas o que a maioria dos homens detestava mesmo era a proeminncia da barriga. Vrios queriam fazer cirurgia plstica. Mas eles estavam comeando a perceber
que supervalorizar o corpo e minimizar o mundo das idias era um suicdio emocional. Um jovem de 30 anos brincou com sua prpria barriga, dizendo que sua plstica
seria diminuir a cerveja.
        Alm dos mais de dois milhes de leitores que escreveram apoiando o comit, mais de 500 psiclogos e 200 psiquiatras de vrias partes do mundo tambm enviaram
mensagens animadoras. Eles consideravam a ditadura da beleza uma das mais graves violaes dos direitos humanos de todos os tempos e louvaram a atitude corajosa
das revistas que a denunciaram. Verdadeiros tratados psicolgicos foram enviados via e-mail, que explicavam como as imagens das modelos vendendo produtos penetram
no subconsciente e geram conseqncias mais srias e sutis do que as mensagens subliminares. As mensagens subliminares atuam atravs de inseres de imagens, influenciando
a capacidade de deciso de todos ns. Se, por exemplo, a imagem de um refrigerante aparecer na trama de um filme - a cada segundo passam 24 fotogramas para dar a
idia de movimento -, embora imperceptvel aos olhos conscientes do espectador, esse processo visual detona um fenmeno chamado gatilho da memria, que desperta
o desejo de tomar o refrigerante na sada do cinema. As mensagens subliminares moldam a capacidade de deciso do expectador e por isso foram proibidas.
        Da mesma forma, as imagens das modelos nas campanhas de publicidade, amplamente pulverizadas em todos os meios de comunicao, entram no subconsciente, gerando
na mulher o desejo subliminar de identificao com o corpo das modelos e no homem o desejo ertico de possu-las. Alguns profissionais de sade mental consideram
a explorao ertica do corpo da mulher na indstria do consumo uma das maiores e nocivas invenes do capitalismo.
        Alm de todas as mensagens de apoio, a repercusso da carta aberta em toda a mdia foi fenomenal. As dirigentes do comit comearam a dar entrevistas em
jornais, outras revistas, programas de televiso. Saram do anonimato para o estrelato. Sabiam que estavam sendo notcia e queriam usar esse momento mpar para divulgar
o movimento.
        Foram dias de grandes vitrias. Elas estavam verdadeiramente eufricas, parecia que os obstculos haviam se dissipado no ar. Para coroar essa ousadia, em
todos os pases as revistas venderam, na mdia, 20% a mais do que no ms anterior. Na Frana, o aumento chegou a 28%. Ou seja: um sucesso inquestionavelmente estrondoso.
        O entusiasmo foi to grande que as lderes do movimento no perceberam que eram pequenos peixes nadando entre tubares.

CAPTULO 12
        Rosie foi novamente ao consultrio de Marco Polo. Antes de comear a se tratar com ele, ela havia deixado de freqentar lugares pblicos.  exceo da escola,
sua casa era seu mundo, ou melhor, seu presdio. Sua me, Brbara, professora de matemtica, interrompera as aulas na universidade nos ltimos dois anos para cuidar
mais de perto da filha. O medo de que Rosie tivesse falncia mltipla dos rgos a desesperava, bem como a seu marido.
        A notcia de que ela comeu um pequeno bife ou tomou um iogurte era comemorada por seus pais como um trofu. Marco Polo, no entanto, pediu insistentemente
para que eles agissem com o mximo de naturalidade, no a chantageassem e nem a pressionassem para comer, muito menos se comportassem como platia para seus caprichos.
        Orientou que eles deviam comer com prazer na frente dela, exaltar o paladar dos alimentos espontaneamente. A ansiedade em faz-la comer detonava uma reao
que, em frao de segundo, a levava a penetrar em suas zonas de conflito inconscientes e automaticamente bloqueava o apetite. Ao mesmo tempo, ela esperava uma superateno
por parte dos espectadores aflitos. Ou seja: esse fascinante mecanismo perpetuava seu presdio psquico.
        A medida que Rosie comeou a questionar sua auto-imagem e sua interpretao distorcida da vida, passou a enxergar as coisas de forma diferente. s vezes,
ela tinha recadas e insistia que estava obesa, principalmente quando ganhava um ou dois quilos, mas, em seguida, retomava a trajetria ascendente. Ainda havia muitos
riscos em seu tratamento.
        Marco Polo estimulava sua inteligncia e sua emoo com segurana e amabilidade. Ele sabia que um "eu" mal definido no tinha plena conscincia de si mesmo,
no construa seus prprios caminhos. O "eu" de Rosie precisava deixar de ser um espectador passivo da anorexia e passar a cultivar as mais belas sementes da inteligncia
nos solos da sua mente, em especial a autocrtica.
        O psiquiatra disse-lhe que o primeiro passo para a transformao  perder o medo de entrar em contato com sua prpria realidade, descobrir as prprias feridas,
reconhecer atitudes infantis, autoritrias, simulatrias. Vendo-a pensativa, Marco Polo aproveitou o momento e comentou:
        - Voc  uma garota inteligente e encantadora, mas, s vezes, acho que possui uma necessidade intensa de ser vista. As pessoas tm de not-la, ainda que
seja pelo seu corpo magrrimo. Parece que voc tem medo de ganhar peso e conquistar uma beleza natural que no chame muito a ateno dos outros. Se eu estiver errado,
aponte seus argumentos e me desculpe, pois no sou. dono da verdade, mas, se eu estiver correto, reflita e repense seu comportamento - disse delicada, mas seriamente.
        Rosie se surpreendia freqentemente com o modo gentil e, ao mesmo tempo, provocativo de Marco Polo. Ela era convidada a pensar. Sabia que, no fundo, as palavras
dele dissecavam algumas caractersticas que aliceravam sua doena. Sentia que precisava ter luz e rbita prprias. Tinha de repensar a imagem distorcida que tinha
de si mesma. J era tempo de parar de sofrer.
        Num momento de interiorizao, comeou a chorar. Lgrimas escorriam pela sua face plida e magra, desenhando contornos no rosto esmagado pela dor. Marco
Polo no suportou. Tambm ficou com os olhos cheios d'gua. Por mais que protegesse sua emoo, o psiquiatra e o ser humano eram inseparveis.
        - Tenho medo de no ser amada, mas acho que a pessoa que menos gosta de mim sou eu mesma - falou Rosie soluando, mas com lucidez. E adicionou: - O que eu
tenho feito com minha vida? - perguntou para si mesma.
        Marco Polo sorriu suavemente. Finalmente, Rosie comeou a penetrar em camadas mais profundas no complexo oceano da sua personalidade. No era fcil reconhecer
as prprias misrias psquicas, mas era necessrio. No era confortvel enxergar suas falhas e sua autodestrutividade, mas era fundamental. Rosie, pouco a pouco,
comeou a se alimentar melhor e a romper seu ritual angustiante de escolher alimentos e somar suas calorias.


?
        Na semana seguinte, Marco Polo encontrou Elizabeth e Lisa. Ele estava acompanhado de Anna. Disse que a pesquisa que eles haviam discutido na casa de Elizabeth
era excelente, mas outros dados precisavam ser investigados. Comentou que ele e Anna haviam elaborado uma nova pesquisa para ser aplicada num pas tropical, com
uma populao multirracial, onde as mulheres eram alegres, soltas, comunicativas: o Brasil. Acreditavam que, se os dados sobre a ditadura da beleza num pas tropical
fossem alarmantes, nos demais pases a situao seria ainda mais grave. - E, infelizmente, os dados parciais da nova pesquisa so espantosos. Trazem informaes
que aliceram a luta do comit - declarou Anna, convicta.
        Elizabeth e Lisa ficaram felicssimas com a notcia.
        - No h melhor lugar para voc apresentar essa pesquisa do que no congresso de Los Angeles - disse Elizabeth a Marco Polo. Em seguida, relatou seu entusiasmo
com o movimento: - Temos dado muitas entrevistas e sinto que a imprensa est nos apoiando maciamente em muitos pases.
        - Somos mulheres da mdia, temos de us-la a nosso favor - completou Lisa.
        Somando todas as entrevistas em jornais, TV, rdio e revistas que as dirigentes do comit haviam dado, foram mais de 230. Alm de defender a causa das mulheres,
elas aproveitavam para divulgar o primeiro congresso do movimento.
        Em seguida, Elizabeth falou de forma entusiasmada para Marco Polo:
        - Devemos muito a voc e ao Falco o sucesso desse movimento. Conversei com todas as conselheiras e em nome delas
gostaria de nome-los oficialmente, como psiquiatra e filsofo,
consultores oficiais do comit. Gostaramos que vocs tambm
dessem entrevistas em todos os meios de comunicao.
        Marco Polo esboou um sorriso, mas estava apreensivo pelo fato de o movimento estar superexposto na mdia. Sabia como se forma a imagem de uma pessoa ou
de uma ideologia no inconsciente coletivo, sabia como a mdia poderia ajudar ou prejudicar a formao dessa imagem. Inquieto, ele ligou naquela noite para Elizabeth
e disse que aceitaria com grande prazer contribuir com o comit, mas gostaria de manter um distanciamento da mdia. Os seus livros falavam por ele. S daria entrevistas
em casos estritamente necessrios. E acrescentou:
        - Elizabeth, eu sei que nenhuma sociedade  livre sem uma
imprensa livre. Sei que todas vocs tm mais experincia que eu
nessa rea. Mas tomem cuidado! A imprensa constri e destri
mitos. Num instante vocs esto no auge, no outro podem cair
em desgraa.
        Marco Polo achava que o movimento deveria ter menos glamour, ocupar menos espao na imprensa, comear de baixo para cima, produzindo uma revoluo educacional
cujo ponto de partida seriam as escolas, as famlias, as ruas, os bairros. Para ele, os professores so os profissionais mais importantes da sociedade. Sua adeso
daria credibilidade ao movimento, ele ganharia corpo.
        As mulheres do comit eram jornalistas de sucesso, arrojadas e intrpidas, mas s tinham experincia do lado de l da mdia, como entrevistadoras, e no
como objeto das entrevistas. Elizabeth engoliu em seco as palavras do amigo. Tudo corria to bem que considerou os riscos mnimos.
        O movimento crescia dia a dia e ganhava a simpatia da sociedade. Inmeras reunies eram feitas nos mais diversos pases. O que ningum imaginava  que o
movimento contra a ditadura da beleza estava mudando no apenas a maneira como a mulher ou o homem contemplavam o belo e expandiam seu prazer de viver. Ele estava
mexendo, direta ou indiretamente, com uma quantidade enorme de produtos e servios, ou seja, com uma parte significativa do produto interno bruto das naes.
        E, quando se mexe com o dinheiro, abre-se uma caixa de pandora, um ba de segredos cujas conseqncias so imprevisveis.

CAPTULO 13
        Chegou o grande dia do Congresso Contra a Ditadura da Beleza. A durao do congresso era de trs dias. Havia mais de 10 mil participantes, sendo que trs
mil mulheres vieram de mais de cem pases diferentes. No havia patrocinadores, pois, embora admirassem a causa, as empresas queriam entender melhor o movimento
e saber aonde ele levaria e que ganhos ou prejuzos teriam para a imagem dos seus produtos. Ficaram em cima do muro.
        Lisa estava eufrica. Abraava as dirigentes do comit e dizia, entusiasmada: - Que sucesso!
        Elizabeth abriu o evento. Na seqncia, foram realizadas vrias conferncias sobre os direitos da mulher, qualidade de vida, auto-estima, transtornos psicolgicos,
doenas psicossomticas e assdio sexual, entre outras. Havia tambm trabalhos sobre temas especficos: o espancamento das mulheres pelos homens em pases europeus;
a solido das mulheres idosas que moravam sozinhas nos ltimos andares dos prdios de Lisboa, Paris e Londres; o trfico de mulheres em pases da Amrica Latina,
que eram seduzidas a viverem no paraso de pases ricos, mas, na realidade, encontravam um inferno emocional, pois tinham de praticar sexo com vrios parceiros dirios
como se fossem mquinas humanas.
        Tambm foram apresentados trabalhos sobre a prostituio infantil e o turismo sexual em pases de baixa renda, com homens de meia-idade vindo de naes ricas
para ter relaes sexuais com adolescentes, pr-adolescentes e at crianas. Essas meninas procuravam um pai para proteger e suprir suas necessidades, mas encontravam
homens abonados, com cursos superiores, que estupravam sua infncia.
        Mdicas, psiquiatras, psiclogas, socilogas e assistentes sociais apresentaram trabalhos de alguma forma ligados  auto-imagem,  opresso da beleza e 
beleza como fator de barganha.
        As mulheres estavam ansiosas pela conferncia de Marco Polo e Falco. Eles no amavam os holofotes, mas se tornaram incontrolavelmente famosos. A fama era
um corpo estranho na alma deles, porque acreditavam, como pensadores, que no seio da humanidade no havia reis e sditos, celebridades e annimos, intelectuais e
psicticos, mas seres humanos que deveriam se relacionar com igualdade e fraternidade.
        Quando subiram ao palco, um batalho de fotgrafos da imprensa mundial comeou a clic-los. Lembraram-se dos tempos em que faziam poesias e discursos nas
praas, viviam no anonimato, extraam o mximo de prazer das pequenas coisas, eram muito felizes. Ajudaram a fundar o movimento e s estavam nele porque eram apaixonados
pela causa das mulheres.
        Inicialmente, Marco Polo falou sobre o fenmeno da psicoadaptao e construo da auto-imagem. A psicoadaptao  a perda da capacidade de sentir prazer
ou dor diante da exposio ao mesmo estmulo. E deu exemplos. Disse que, quando se compra um celular, no comeo a imagem do celular anima, excita, d um sentimento
de realizao, mas,  medida que o estmulo se repete ao longo do tempo, ele deixa de suscitar a emoo. Com isso, surge uma ansiedade vital que faz a pessoa procurar
um novo modelo de celular. - Alguns colocam um quadro de pintura na parede e nos primeiros dias sentem prazer em contempl-lo, mas um ms depois nem lembram que
ele est ali. Do mesmo modo, as mulheres sentem-se bem com uma nova roupa. Depois de us-la algumas vezes, mesmo que a roupa esteja novssima, a psicoadaptao bloqueia
o prazer. - Marco Polo continuou: - Todos ns sofremos ao do fenmeno da psicoadaptao, porm, dependendo do tipo de personalidade, ela pode ser mais ou menos
intensa. H adolescentes que, aps ganhar um presente e us-lo uma nica vez, perdem o encanto por ele. Falco entrou em cena e disse:
        - Do lado positivo, o fenmeno da psicoadaptao gera uma ansiedade que nos estimula a sempre procurar novas experincias, o que promove a criatividade,
a inventividade, a curiosidade. Sem isso, no teramos desenvolvido cincia, cultura e religio. Do lado negativo, se ele for mal gerenciado, gera solido, insatisfao
crnica e destri as relaes sociais. H profissionais bem-sucedidos que tm muitos motivos para serem felizes, mas so entediados, angustiados. Psicoadaptaram
a vida. Tudo  chato, rotineiro, sem sabor emocional. S amam desafios.
        A platia os ouvia atentamente, mas no sabia aonde eles desejavam chegar. Em seguida, Falco perguntou:
        - O que tem a ver a psicoadaptao com a ditadura da beleza?
Aps um momento de silncio, Marco Polo respondeu:
        - Muitssimo. A freqente exposio da imagem de uma mulher diante do espelho faz com que ela se psicoadapte  sua
imagem e deixe de se encantar com ela, ainda que no tenha um
padro de beleza doentio em seu inconsciente.
        As mulheres entenderam que diminuir o prazer diante da prpria imagem era algo natural e que para recuper-lo era preciso aprender a elogiar a vida, perceber
sua graa, aceitar seu corpo, viver com suavidade. Marco Polo disse que  normal um casal diminuir o nvel de paixo com o tempo. Para reacend-la, eles s precisariam
aprofundar a relao, entrar em camadas mais profundas de dilogo, viver belos sonhos juntos. Do mesmo modo, resgatar a auto-estima e o prazer pela vida exigiria
mergulhar em camadas mais profundas da existncia.
        Aps essa exposio, Marco Polo comentou que, se por um lado h uma diminuio natural do encanto com o corpo devido  ao do fenmeno da psicoadaptao,
por outro lado o padro inatingvel de beleza difundido pela mdia multiplicava a ao desse fenmeno, gerando uma intensa ansiedade e uma rpida reduo de prazer
talvez nunca antes vista na histria. Era preciso treinar a emoo para se proteger, expandir a tranqilidade, fomentar a alegria e superar as amarras do fenmeno
da psicoadaptao.
        O psiquiatra ainda comentou que o fato de mulheres e homens no possurem esse treinamento emocional os deixa mais propensos  sndrome PIB. A dana de fenmenos
inconscientes, como o "gatilho", as "janelas" e a "psicoadaptao", tornava o ser humano presa fcil dos seus conflitos, dificultando que ele se torne o autor da
sua prpria histria.
        Ele abordou tambm a maneira como a rejeio de uma certa rea do corpo, como nariz, culote, seios, barriga, gera um estado de angstia que acelera a distoro
da realidade, convencendo a pessoa de que aquela rea do corpo  monstruosa.
        Aps esse relato, Marco Polo comentou:
        - A mentira contada vrias vezes gera uma psicoadaptao a ela e, por fim, ela se torna verdadeira. Ainda que todo mundo diga que uma rea do seu corpo que
voc rejeita  bela, o que acaba valendo  a imagem interior, a que voc se psicoadaptou.
        Para reforar sua tese, comeou a dissecar a interessante pesquisa que elaborou, mas, antes de tecer seus comentrios, agradeceu a colaborao de Anna. Olhou
para ela e comentou:
        - Na frente, e no atrs, de um grande homem h uma grande
mulher. Eu sinto que no sou um grande homem, mas tenho
certeza de que minha esposa  uma grande mulher. Obrigado,
Anna, por encantar a minha vida.
        As mulheres aplaudiram com entusiasmo essa declarao de amor. Em seguida, Marco Polo discorreu:
        - A pesquisa revelou que 46% das mulheres rejeitam sua barriga. - Ao ouvir esse nmero, as mulheres deram risadas na platia.
Identificaram-se com o problema. - Extrapolando esses nmeros para todas as mulheres das sociedades modernas, teremos a cifra de quase 1,1 bilho de mulheres que
tm verdadeiro pavor de olhar para sua maravilhosa barriguinha. Quando esto diante do espelho, elas viram de um lado para outro na tentativa de disfar-la. O que
 engraado  que em muitos perodos da histria uma barriga levemente proeminente era sinal de beleza e sade.
        Ele continuou dizendo que 21% rejeitam seus seios, 21% criticam seus cabelos, 14% detestam seu culote, 14% odeiam seu bumbum, 12% abominam seu nariz, 11%
tm problemas com seu quadril, 9% no gostam dos seus dentes e 8% fazem restries s suas coxas. Disse ainda que quando uma pessoa passa a rejeitar uma rea do
corpo, essa rejeio se torna um grave sintoma da sndrome PIB e, em alguns casos, pode se transformar em um transtorno do corpo dismrfico, uma averso  forma
do corpo. E deu uma pssima notcia.
        - Cinco por cento das mulheres detestam o seu corpo. Se extrapolarmos esse ndice para o total de mulheres na sociedade moderna, mais de 130 milhes delas
querem mudar tudo em seu corpo, at os fios de cabelos. Algum na platia quer trocar de corpo?
        O caso era de chorar, mas, por ser to bizarro, as mulheres deram novas gargalhadas. Falco aproveitou para abordar o outro dado da pesquisa:
        - Os coitados dos ps que diariamente suportam nosso peso tambm so vtimas da ditadura da beleza. Por incrvel que parea, 8% das mulheres rejeitam seus
ps, embora os lavem, pintem ritualmente suas unhas e faam peripcias para deix-los bonitos - disse o filsofo, brincando. E afirmou: - Raramente algum homem repara
nos ps das mulheres, mas quase 200 milhes delas tm a parania de achar que eles os observam. Queridas mulheres, parem de pr caraminholas nas suas cabeas!
        Falco comentou mais um dado:
        - De acordo com essa pesquisa, apenas 20% das mulheres
esto satisfeitas com tudo. Por um lado, isso  timo, mas por outro indica que 80% da populao feminina, ou seja, mais de 2 bilhes de mulheres detestam alguma
rea do seu corpo. Isso quer dizer que o  normal  ter sintomas da sndrome do padro inatingvel de beleza e o anormal  ser saudvel. Tem algum "normal" aqui?
- perguntou, bem-humorado. Quase todas as mulheres levantaram as mos.
        As mulheres relaxaram. Marco Polo comentou outro dado da pesquisa que as deixou pasmas e, ao mesmo tempo, com mais garra para lutar contra a ditadura da
beleza.
        -  muito triste relatar que 22% das mulheres j tm conscincia de que so escravas da ditadura da beleza.
        Falco, com o corao apertado, acrescentou:
        - Esse  um ndice altssimo. Extrapolando para a populao
feminina mundial, so mais de 600 milhes de mulheres. Elas
deveriam estar sorrindo, sonhando, vivendo belssimos projetos de vida, mas esto aprisionadas, sufocadas, asfixiadas, para ser o que no so. A anlise por faixa
etria revela uma situao mais cruel ainda, pois um tero das mulheres dos 30 aos 39 anos, que esto numa excelente fase, so mais maduras, sensuais e atraentes,
so atormentadas porque no tm o corpo de uma adolescente.
          As mulheres ficaram perplexas. Eles estavam falando de uma escravido da alma. Uma escravido que ditadores, psicopatas, reis inescrupulosos no conseguiram,
pois acorrentavam corpos, mas a mente dos acorrentados era livre. Essas informaes representavam no apenas a mais detestvel das ditaduras, mas a mais extensa
"territorialmente" da histria da humanidade.
        Marco Polo deu um suspiro e tocou era outro assunto gravssimo, um verdadeiro tabu:
        - Infelizmente, Hollywood tem contribudo para difundir um falso ideal de beleza no mundo. Tem contribudo para discriminar e assassinar a auto-estima de
milhes de mulheres de todas as raas, culturas, religies.
        Essa afirmao deixou o pblico atnito. Falco foi mais longe na sua abordagem:
        - Mais de 70% das mulheres concordam que o cinema de
Hollywood discrimina as mulheres, pois coloca em destaque atrizes que fogem dos padres comuns de beleza. A excessiva exposio de atrizes magrssimas e de uma beleza
atpica penetra imperceptivelmente no inconsciente das espectadoras como o joio nos campos de trigo.
        Nunca ningum havia levantado esses dados. Ocorreu um burburinho na platia, as mulheres no paravam de falar umas com as outras. Elizabeth e as demais conselheiras
do comit esfregaram as mos no rosto e nos olhos diante dessa anlise. Ela tinha algumas amigas que eram excelentes atrizes e, enquanto eram jovens e bonitas, tinham
papis de destaque no cinema, mas,  medida que os traos do rosto e do corpo foram mudando, perderam os papis importantes. Apenas algumas se mantiveram em evidncia.
        Marco Polo afiou a sua crtica ao tocar em outro assunto:
        - O cinema americano, ainda que inconscientemente, discrimina os prprios adolescentes americanos. Cerca de um tero dos jovens desse pas possui algum grau
de obesidade, mas raramente um jovem gordinho tem um papel de destaque nos filmes, a no ser que seja um filme de humor. A obesidade se torna um fator de deboche,
um convite  stira. Ser que Hollywood no percebe que cada jovem que est acima do peso  um mundo a ser explorado, uma estrela no palco da vida? Falco respirou
profundamente e completou: - J notaram que  rarssimo haver no cinema pares romnticos de obesos, de pessoas com beleza comum ou de idosos? Parece que s os atores
dentro de um padro supervalorizado de beleza so aventureiros, perspicazes, dotados de inteligncia e paixo. Isso  discriminao, uma estupidez da inteligncia!
- falou o pensador da filosofia com autoridade. E ainda mexeu com as mulheres de meia-idade, muitas das quais jornalistas. - At parece que senhores e senhoras como
eu e vocs no fazem amor!
        A platia delirou. Um casal de velhinhos de 80 anos levantou-se no imenso auditrio e gritou: -Parabns, meu filho!
        Marco Polo aproveitou o momento para informar que pesquisas recentes revelavam que as pessoas levemente obesas viviam por mais tempo. O peso considerado
ideal at ento estava sendo questionado na medicina. Estar um pouco acima do peso ideal no era um pecado, mas um sinal de sade, desde que o colesterol, os triglicerdeos,
a glicemia, etc. estejam em ordem. E brincou com seu amigo, dizendo:
         ~ Da prxima vez que virem um gordinho como o Falco, pensem: "Este homem  saudvel."
        - E bonito tambm! - adicionou o filsofo de 68 anos, que se sentia um garoto descobrindo a vida. A platia aplaudiu em peso seu jeito alegre de viver.
Marco Polo comentou outros dados da pesquisa. Disse que a ditadura da beleza  to insidiosa que 80% das mulheres se vestiam no apenas para sua satisfao, mas
para satisfazer a crtica de outras mulheres. Relatou que a indstria da moda  exclusivista e discriminatria, pois 73% das mulheres afirmam que ela  feita para
as magras.
        - Ser que no podemos ter um desfile com pessoas fora do padro alucinante da mdia? Excluir drasticamente do mundo fashion e das passarelas o bitipo comum
das mulheres no  praticar um crime contra a conscincia delas, no  exclu-las, como os leprosos foram no passado? - indagou Marco Polo.
        A platia ficou alvoroada. Havia 20 grandes estilistas no evento. Alguns saram nesse momento. Ficaram apavorados, suas cabeas entraram em transe. Outros
queriam fazer mudanas, mas temiam as conseqncias.
        De repente, o silncio foi quebrado. Um famoso estilista de Paris, Ives Latorra, cultuado pela mdia internacional, decidiu naquele momento romper os paradigmas,
revolucionar seu desfile que ocorreria justamente no final do ms seguinte. Ele encarava cada mulher como uma pessoa nica, para ele no havia belas e feias, cada
uma tinha seu estilo. Ele sabia que os desfiles eram opressivos, uma apologia ao corpo esqueltico. Tinha conscincia de que as mulheres absolutamente normais pagavam
pela obsesso da magreza. Nunca ousou fazer mudanas porque o mercado da moda o obrigava a seguir o esteretipo. Para surpresa de todos, ele se levantou na dcima
fileira e gritou: - Eu aceito o desafio! Farei um desfile mesclando a beleza das top models com a beleza comum.  tempo de mudana. Colocarei mulheres fora do esteretipo
da beleza.
        A reao das mulheres foi imediata. As que estavam perto o abraaram e beijaram. Era a primeira vez que algum enfrentaria as imensas garras do mercado.
Elizabeth interrompeu a conferncia e falou ao microfone da ousadia de Latorra. Mais de mil mulheres choraram de emoo. A aventura poderia ser um osis ou um desastre.
Ningum sabia.
        Animado, Marco Polo fez o relato final da pesquisa. Disse que o quadro dos sintomas psquicos e psicossomticos das mulheres era muito preocupante. Vinte
e seis por cento das mulheres sentiam fatiga excessiva, 28% tinham transtorno do sono, 20% apresentavam dficit de memria, 22% sentiam angstia, 19% sentiam desmotivao,
desnimo, 19% sentiam medo, medo da vida, medo do amanh, medo de no ser aceita, 17% viviam ilhadas pela solido. Alm disso, 5% das mulheres, representando mais
de 100 milhes de mulheres, tinham vontade de desistir da vida, sendo que a maioria era de adolescentes.
        Havia centenas de mes no congresso no apenas preocupadas com o movimento, mas com a crise que seus filhos estavam atravessando. De repente, notaram uma
mulher japonesa na segunda fileira, que chorava sem parar.
        Era Kiomi, uma sociloga que viveu uma tragdia familiar. Sua filha de 18 anos rejeitara drasticamente os traos orientais, queria parecer uma adolescente
ocidental. Teve crises depressivas, fobia social e ficou alguns anos sem sair de casa, at que um dia cometeu suicdio. Kiomi estava na platia oferecendo as suas
lgrimas para irrigar o movimento.
        Ao final da conferncia, Marco Polo e Falco foram ovacionados com entusiasmo pela imensa platia. Todavia, o choro daquela mulher parecia mais importante
para eles. Falco desceu do palco e, sem conhecer Kiomi, chorou com ela. Ele era um homem sofrido, conhecia o cdigo das lgrimas. Sabia que as gotas que saam do
anonimato e ganhavam o palco dos olhos eram mais eloqentes do que o ribombar das palavras.
        Elizabeth levantou-se supermotivada e disse:
        - Precisamos nos educar e educar nossos filhos a criticar o esteretipo de beleza. Devemos aprender o caminho da individualidade. O individualismo  uma
doena, mas a individualidade, que representa nossa identidade fsica e psquica, deve ser preservada, pois  uma fonte de sade psquica. Nossa beleza pode ser
desprezvel pelo sistema, principalmente quando envelhecemos, mas devemos sempre nos sentir belas, pois a vida  encantadora desde a aurora da vida fetal at o ltimo
suspiro existencial Lutem em cada departamento, em cada escritrio, em cada escola, em cada religio contra quem controla seu prazer de viver e de ser.
        E, finalizando, proclamou em voz alta:
        - Somos seres humanos, somos belssimos. Voc  nica e bela! Seus filhos so nicos e belos!
        As mulheres proclamaram a uma s voz:
        - Abaixo a ditadura da beleza!
        E, como poetas da vida, elas se abraaram e se beijaram e diziam umas para as outras: "Voc  linda!" "Voc  maravilhosa!". Kiomi saiu do caos da sua dor
e comeou abraar as mulheres ao seu redor. Mulheres rabes e judias olhavam-se nos olhos e se abraavam afetivamente. Eram mais do que rabes e judias, eram seres
humanos falando a mesma linguagem, a linguagem da sensibilidade e do amor pela vida.

CAPTULO 14
        Aps o trmino do primeiro congresso, as mulheres fizeram uma grande passeata em Los Angeles. O movimento causou tanto impacto que foi a estrela do noticirio
nos horrios nobres da TV de todo o mundo. Como elas queriam resultados prticos, pediram no dia seguinte uma audincia com alguns executivos da indstria do cinema.
        Devido  repercusso do congresso na mdia, 10 executivos de diversas produtoras de cinema abriram espao na agenda e fizeram uma pequena reunio para receb-las.
Estava presente toda a equipe do comit, alm de Falco e Marco Polo.
        Elas fizeram uma exposio sobre o padro tirnico de beleza e seus efeitos no inconsciente coletivo, comentaram sobre a anorexia nervosa, bulimia e outros
transtornos alimentares. Entretanto, quando levantaram a hiptese de que o cinema poderia estar contribuindo para a propagao dessas mazelas psquicas, um dos executivos
rebateu com agressividade.
        - Isso  tolice. O cinema  arte e entretenimento! Ele no  capaz de afetar o psiquismo de ningum.
        O clima ficou tenso. Elizabeth tomou a frente e repetiu a informao dada no congresso de que mais de 70% das mulheres concordam que o cinema de Hollywood
as discrimina ao colocar sistematicamente em cena atrizes que fogem dos padres comuns de beleza. O executivo engoliu em seco esse dado. Perturbado, novamente discordou:
        - Eu no confio nesses dados. Jack Nicholson, Robert de Niro e Robin Williams no so bonitos - disse em tom de deboche, tentando desconversar o bvio.
        As mulheres no falavam da imagem de alguns atores e atrizes consagrados. Referiam-se  grande maioria dos papis de aventura e romance que eram dados quase
que exclusivamente a atores e atrizes que vendiam um esteretipo opressivo de beleza. As mulheres do comit gostariam que o padro de beleza fosse o mais mesclado
e homogneo possvel. Gostariam tambm que os idosos estivessem no foco do cinema, pois o culto ao vigor de jovens atores e atrizes era uma afronta ao romantismo
da velhice. Com a maior espontaneidade, a francesa Brgida perguntou:
        - Por que casais de gordinhos e de pessoas fora do padro de
beleza da mdia no protagonizam cenas de amor no cinema?
        - Porque isso seria um suicdio de bilheteria - respondeu
rpida e sarcasticamente um importante produtor.
        Todos os executivos deram risadas. No fundo, estavam rindo dos espectadores que os sustentavam. E David, o mais poderoso dos executivos presentes, completou
a idia de seu colega com uma honestidade intragvel:
        - No fazemos cinema para educar a emoo das pessoas, mas para propiciar-lhes prazer. Vendemos a beleza incomum, para que os mortais comuns se sintam seduzidos
por ela. As pessoas s querem consumir aquilo que no tm ou o que no so.
        As mulheres ficaram abaladas com a convico dele. Ele descreveu a sndrome PIB. Os produtores de cinema estavam conscientes do que faziam, apoiavam a ditadura
da beleza, embora no tivessem plena conscincia do estrago no inconsciente.
        Tentando diminuir o clima constrangedor, outro executivo disse:
        - Vocs viram Shrek? So dois gordinhos se amando.
        Elizabeth meneou a cabea e disse:
        - Shrek! Shrek  um desenho animado, senhor! No  um retrato da realidade.
        Mitiko acrescentou:
        - No filme Shrek no h dois seres humanos se amando, mas
uma mulher amando um ogro. Apesar de belssimo,  um filme
de comdia.
        - Quer dizer que dois jovens que no tm o padro ditatorial de beleza s podem viver um romance se estiverem num ambiente fora da realidade? - perguntou
Lisa contundentemente, desmontando os executivos. A secretria do movimento parecia no se dobrar a nada.
        Falco e Marco Polo se deliciavam com a capacidade de luta das mulheres. Elas demonstravam ser imbatveis.
        Rbia Rumanovi respirou fundo e colocou uma bomba nas mos deles:
        - Ao excluir a beleza comum dos americanos nos papis relevantes do cinema, vocs esto discriminando os prprios jovens que sustentam suas bilheterias.
Milhes deles esto acima do peso. Eles so belos, inteligentes, mas no para brilhar no cinema. Eles podem e devem brilhar tanto nas telas como na vida. Espero
que a Rssia, meu pas, no copie essa indstria da discriminao.
        O clima, que estava tenso, ficou turbulento. Entretanto, trs executivos se mostraram sensveis ao movimento e concordaram com as mulheres. Eles tinham filhos
adolescentes que apresentavam transtornos de auto-imagem, acompanhados de auto-rejeio e baixa auto-estima. Um deles, cuja filha de 14 anos era tmida, insegura,
socialmente aptica e que rejeitava seus cabelos, seus olhos, seu queixo, sua boca, teve a ousadia de dizer:
        - Precisamos pensar nas conseqncias do esteretipo de beleza.
        Ao ouvir essas palavras, David tentou encerrar a questo.
        Considerava o assunto um tabu, uma tese perigosa para a imagem de Hollywood. Era melhor congelar o tema do que discuti-lo. Por isso, imediatamente reagiu:
        - Vamos parar com essa discusso estpida. Esse assunto  entediante e no leva a nada! - E levantou-se para sair. O ambiente ficou to conturbado que todos
resolveram ir embora.
        As mulheres do comit no estavam tentando impor suas idias, mas exp-las. Elas tinham grande apreo pelo cinema, mas queriam mudar alguns preconceitos.
Estavam discutindo o assunto apenas pela sade do ser humano. Marco Polo no suportou a arrogncia de alguns executivos nem o encerramento sbito da reunio. Por
isso, antes que eles se retirassem, confrontou-os com os dados que apresentou no congresso:
        - Cerca de 93% das mulheres disseram que a mdia  capaz de produzir uma busca doentia por um padro de beleza. Esse clamor no os inquieta? Vocs filmam
ditaduras, mostram o sangue e a dor de pessoas subjugadas, mas no percebem que uma insidiosa ditadura socialmente aceita tem subjugado inmeras pessoas em todas
as sociedades modernas? O que vocs pensam do fato de 600 milhes de mulheres que procuram ansiosamente um padro inatingvel de beleza se declararem vtimas de
uma das mais nefastas masmorras psquicas? Estatisticamente  a maior violao dos direitos humanos da histria. Esse imenso pblico feminino  o que freqenta as
salas de cinema no mundo.
        Os executivos ficaram pensativos, alguns franziram a testa inquietos, outros voltaram a sentar. O cinema faturava bilhes de dlares, mas no estava interessado
em pesquisar os efeitos das suas imagens no inconsciente dos espectadores. Sempre se preocupou com bilheterias e pouco com idias. David mostrou uma evidente impacincia.
Percebendo sua ansiedade, Falco levantou-se e falou sobre um princpio filosfico que mudou a sua vida:
        - Os senhores conhecem o principio da co-responsabilidade inevitvel?
        - No! - disseram confusos.
        Marco Polo sabia aonde o amigo queria chegar. Passou a mo nos cabelos, esperando a bomba.
        - Esse princpio afirma que todos somos responsveis pela humanidade. Nenhum ato  inocente e volta vazio. Toda ao tem repercusses incontrolveis na sociedade
atual e nas prximas geraes.
        - No estamos entendendo, senhor... Qual  o seu nome?
        - Chamo-me Falco.
        Querendo terminar a reunio, David falou, zombando:
        - Seja rpido, senhor pssaro! Desculpe-me, senhor Falco. Saindo do clima apreensivo, alguns executivos colocaram as mos na boca para conter o riso. David
gostou e, por isso mesmo, antes que Falco continuasse, tentou desvaloriz-lo ainda mais perguntando qual era a profisso dele. Pela aparncia de Falco, supunha
que nunca tivesse freqentado uma universidade:
        - Sou um pequeno aluno da escola da vida, senhor. Sou Ph.D.
em filosofia.
        Eles engoliram em seco, estavam diante de um intelectual.
        Falco fitou furtivamente os olhos de David e deu-lhe um exemplo desse princpio, o mesmo que um dia Marco Polo usou para encoraj-lo a sair das ruas como
mendigo e o motivou a retornar  universidade e a brilhar novamente nas salas de aula.
        - Hitler queria ser um artista plstico e procurou a Escola de Belas-Artes de Berlim, mas foi rejeitado. Se o professor dessa escola o tivesse acolhido,
talvez o mundo tivesse tido mais um pintor medocre, mas certamente no um dos maiores psicopatas da histria. Vocs fariam menos filmes sobre guerras, pois provavelmente
no haveria a Segunda Guerra Mundial. Uma pequena atitude produziu conseqncias inimaginveis.
        Falco fez uma pausa, elevou suavemente seu tom de voz e disse-lhe:
        - Um gesto, senhor David, inclusive seu deboche, repercute por sculos. O cinema entretm, gera prazer, mas suas imagens no so inofensivas. Uma imagem,
ao ser registrada no inconsciente, pode influenciar uma vida, um grupo, uma sociedade. O que indica que vocs tambm so co-responsveis por traar os caminhos da
humanidade.
        E, estendendo as mos a David, disse "Durma bem", pois sabia que o executivo poderia ter insnia. E saiu junto com as mulheres. Os outros executivos ficaram
mudos, estarrecidos com sua perspiccia. Na sada, as mulheres disseram a Falco:
        - Voc arrasou.
        Modesto, ele disse:
        - So homens inteligentes, mas os limites da inteligncia se
estendem aos limites dos interesses. Quando os interesses se sobrepem  sabedoria, a inteligncia fica bloqueada.
        Ao sair, Falco e Marco Polo viram algumas belssimas rvores no meio de uma grande praa. Pediram licena e foram at l. Curiosas, as mulheres os acompanharam.
Ao se aproximarem, os dois pensadores contemplaram as rvores. Elas ficaram impressionadas com o silncio deles. Pareciam fazer uma orao. Em seguida, quebrando
qualquer expectativa, eles abraaram e beijaram as rvores afetuosamente.
        As mulheres ficaram boquiabertas. Nunca viram tais reaes, ainda mais partindo de dois intelectuais. Ento, Falco lhes disse:
        - Venham, no tenham medo, toquem as rvores, sintam-nas
com seu abrao.
        Marco Polo falou como um engenheiro de idias:
        - Essas rvores suportaram tempestades intensas e invernos
drsticos. Para sobreviver, se protegeram, construram pouco a pouco uma grossa crosta. E vocs? Tm procurado se proteger?
        - Eu estou fascinado com a coragem de vocs - afirmou Falco. E, inspirando-se nas palavras de Marco Polo, completou: - O movimento poder atravessar tempestades
imprevisveis e perdas inimaginveis. S enfrentando-as com dignidade ser possvel adquirir uma slida defesa.
        As dirigentes do comit se entreolharam. Disseram para si mesmas: "Que homens so esses que extraem poesias e experincias em tudo que encontram!" Resolveram,
ento, pela primeira vez, abraar as rvores e sentir a fora da sobrevivncia no caos da existncia. As pessoas paravam para ver o bando de loucos deslumbrados
pela vida. Afinal de contas, uma revoluo precisa de poetas.


?


        No ms seguinte, as conselheiras foram convidadas para ir ao desfile de Ives Latorra. O estilista trabalhara arduamente procurando adaptar a nova coleo
para as gordinhas e as modelos fora de padro. Latorra procurou esconder a mudana de paradigmas da mdia. Queria o impacto da surpresa. Acreditava que esse desfile
seria o maior acontecimento no mundo da moda da dcada. Sonhava com as novas modelos, imaginava-as sendo aplaudidas, tratadas com dignidade. Pensava que seria um
novo tempo para a mulher, um tempo de solidariedade e gentileza, e no de explorao sexual.
        Na primeira fileira do seu concorrido desfile estavam atrizes, atores, polticos, grandes empresrios e as mulheres do comit. Nas demais fileiras, a elite
social de vrios pases. Quatorze modelos desfilariam: sete top models dentro dos padres, magrrimas e com quadris finssimos que no ultrapassavam os 90cm; quatro
gordinhas e trs tipos normais, com culote, pernas grossas e quadris com mais 110 cm, que poderiam ser consideradas feias pelo esteretipo de beleza, mas, na realidade,
tinham sua beleza particular.
        O estilista pediu que cabeleireiros, costureiros e maquiadores tratassem suas modelos como rainhas. Elas estavam eufricas, no acreditavam que estavam em
Paris, no centro da moda, desfilando de igual para igual com modelos hiperfamosas.
        As top models sabiam do comit e das intenes de Latorra. Trs delas estavam enciumadas, mal-humoradas, achando aquilo um circo, mas as outras mostravam-se
solidrias, indo aos camarins onde as "novas" modelos estavam se arrumando e fazendo calorosos elogios. Para deix-las seguras, diziam-lhes:
        - Vocs esto lindas!
        Ao ouvir essas palavras por parte das supermodelos, Ives Latorra sorriu e pensou que o desfile realmente seria um grande sucesso. Fez um brinde  solidariedade
feminina. Chegou at a imaginar que essa mudana de paradigma no apenas traria ganhos humanitrios, mas ganhos financeiros, pois a moda deixaria de ser feita para
as magras. Como algozes da auto-estima, muitos estilistas se recusavam a fazer roupas com numerao para as mais cheinhas.
        Elizabeth e suas amigas estavam excitadssimas, afinal de contas era a primeira grande mudana produzida pelo movimento. Marco Polo e Falco no estavam
presentes.
        Chegou o grande momento. Duas top models abriram o desfile. Uma tinha l,79m e pesava 52 quilos e a outra l,68m e pesava 47 quilos. Com seus corpos esguios,
entraram na passarela com graa, gingado e com roupas que encantaram. O pblico reagiu com entusiasmo, as aplaudiu do comeo ao fim. Chegou a vez de Eloise, que
tinha l,67m e pesava 74 quilos. O estilista, com o corao batendo forte e a respirao ofegante como se fosse a sua primeira coleo, incentivou-a:
        - V e brilhe, Eloise! Voc est fenomenal! - disse afetivamente. E realmente ela estava linda, sensual. Qualquer imperador romano se dobraria aos seus ps.
        Eloise entrou ao som de uma msica arrebatadora, triunfal. Como rainha, andou com maestria os primeiros passos, mas, assim que pisou na passarela, o choque
foi trgico. A platia ficou paralisada. Nenhum aplauso, nenhuma palavra. No acreditavam na imagem que enchia seus olhos. Abaladas, as mulheres do comit a aplaudiram.
Entretanto, estavam ss, ningum as acompanhou.
        De repente, o ambiente, que estava ruim, ficou ttrico. As socialites saram da paralisia e deram gargalhadas, abafando as palmas das 10 mulheres. Ferida
e discriminada, Eloise comeou a chorar e a tropear nos prprios ps. Em seguida, mais um golpe insuportvel: comearam a vai-la. A ditadura da beleza nocauteou
sem piedade a modelo no primeiro round. Foi um escndalo. Era como se Eloise estivesse no Coliseu completamente indefesa, enfrentando as feras do preconceito.
        Latorra comeou a tremer, frustradssimo. As conselheiras do comit no sabiam o que fazer, estavam atnitas. A segunda modelo fora dos padres, Hillary,
ao ver o deserto que Eloise tinha atravessado, comeou a ter calafrios e ficar insegura.
        Elizabeth e suas amigas do comit queriam desistir, tir-las da passarela. Levantaram-se tentando em vo vencer a multido para entrar nos camarins. Instrudas
por Marco Polo e Falco, sabiam que a rejeio era uma das mais devastadoras experincias psquicas. No desejavam que essas jovens fossem objeto de escrnio e formassem
janelas killer que as controlassem. Entretanto, Hillary j tinha entrado na passarela.
        Estava to ansiosa que seu crebro no conseguia enviar mensagens harmoniosas  sua musculatura. Sem coordenao motora, comeou a errar os passos diante
do pblico. A zombaria aumentou. Algumas lgrimas escorreram dos olhos de Hillary, mas ningum percebeu. Estavam focados apenas em seus passos errados, em seus quadris
sem curvas evidentes, em seu rosto sem glamour.
        Os fotgrafos no paravam de clic-la, querendo registrar o escndalo. O respeito se dissipou, a gentileza se diluiu, sobrou ironia. Gritando, algumas pessoas
diziam: "Vamos parar com esse circo!", "Que brincadeira  essa!"
        As dirigentes tentavam se aproximar dos camarins, com os olhos tambm lacrimejando. Passaram por uma grande e inesperada tempestade. No tinham como se abrigar.
Estavam perplexas pelo desrespeito com que as jovens foram recebidas. Eram seres humanos, tinham uma belssima personalidade, mas foram tratadas como animais avaliados
pelo invlucro. Tal atitude era a ponta do iceberg de uma sociedade injusta com as mulheres que desfilavam nas passarelas da vida.
        Chegando aos camarins, as mulheres do comit encontraram o estilista arrasado:
        - Estou arruinado. Terei grandes dvidas com o fracasso desse evento. Mas o que mais me pesa  o fracasso profissional. Pensei a vida toda que o mundo da
moda era uma coroa de flores para a mulher, mas na realidade  uma coroa de espinhos. Nossa sociedade est doente - falou Ives, completamente angustiado.
        Em seguida, as dirigentes do comit reuniram as modelos, abraaram Eloise e Hillary e pediram-lhes desculpas. Olharam para as demais modelos e disseram:
        - No desfilem. Poupem-se. No passem por esse vexame. Mary, uma das modelos que estava acima do peso, olhou para suas colegas e falou como uma mrtir numa
guerra:
        - Nenhuma grande mudana na histria ocorreu sem sacrifcio. Eu desfilarei. Lutarei por essa causa.
        Algumas top models estavam presentes nessa reunio emergencial e viram Mary entrar na passarela com a cabea erguida. Havia mais de 500 pessoas presentes.
O tumulto aumentou quando viram a jovem de 29 anos desfilar. Uns comearam a ir embora, outros gritavam "Muda!" "V embora!", "Abaixo a feira!" e ainda outros se
divertiam como se estivessem numa arena.
        Mary parou no meio da passarela e comeou a olhar o pblico atentamente. Enquanto olhava, derramava lgrimas. De repente, algo sublime aconteceu. O tumulto
foi cessando e Mary voltou a desfilar. As pessoas comearam a se sentar e a observ-la como se estivesse desfilando em cmera lenta. Cada lgrima que saa dos seus
olhos cintilava como um diamante que extravasava da sua alma.
        Homens e mulheres tiveram um insight, mergulharam nas vielas do seu ser, caram em si e perceberam que estavam sendo carrascos da mulher. As supermodelos
eram uma exceo gentica, representavam algumas centenas de mulheres, mas Mary e as demais modelos fora dos padres representavam centenas de milhes de mulheres
de todas as sociedades. A loucura da ditadura da beleza transformou a exceo na regra, gerando um delrio coletivo em busca de um objetivo inalcanvel.
        As mulheres que assistiam ao desfile descobriram que estavam muito mais prximas das modelos que tinham vaiado do que das magrrimas que aplaudiram. Perceberam,
enfim, que vaiavam a si mesmas. Libertaram-se da escravido do padro inatingvel de beleza, abriram o leque das janelas light e foram capazes de descobrir em Mary
uma beleza esplndida. Em seguida, levantaram-se e a aplaudiram de p. Motivadas pela coragem de Mary, as outras modelos que foram vaiadas retornaram  passarela
e tambm foram aplaudidas calorosamente.
        O desfile, que aparentemente seria catastrfico, tornou-se um blsamo para a inteligncia da mulher, um ataque frontal  tirania dos desfiles. No final,
as top models e as modelos comuns entraram abraadas na passarela.
        E outro gesto de rara beleza ocorreu: as supermodelos pararam no meio do pblico e comearam a aplaudir as modelos que se arriscaram nas passarelas. O pblico,
com grande entusiasmo, levantou-se novamente e as aplaudiu. Os aplausos eram simbolicamente dirigidos a todas as mulheres do mundo, motivando-as a jamais terem vergonha
do seu corpo. Foi um espetculo inesquecvel, nobre, elevado, ilustre, notvel, mpar, extraordinrio.


CAPTULO 15
        O desfile de Ives Latorra ganhou destaque na imprensa mundial. O movimento contra a ditadura da beleza ganhou estatura. Animadas com a reao do pblico,
as intrpidas dirigentes do comit se reuniram para definir estratgias. Os ltimos acontecimentos reforaram sua conscincia sobre a muralha do preconceito. Avaliaram
que, se desejassem obter resultados mais amplos, precisavam dar vos mais altos, ser mais ousadas.
        Christine e Helen propuseram algo que provocou arrepios nas amigas. Elas disseram:
        - Jovens como Eloise, Hillary e Mary correram riscos na passarela. Fizeram sacrifcios em nome do movimento, enquanto ns
fomos simplesmente espectadoras. Que tal sairmos do discurso?
        - Como assim? - disse Elizabeth, surpresa.
        - Se a ditadura da beleza  um cncer social to grave, que tal
fazermos uma cirurgia nesse tumor? Que tal colocarmos na capa
de nossas revistas uma mulher fora do padro de beleza?
        As dirigentes do comit suspiraram e se calaram por um momento.
        - O risco  grande! - ponderou Mitiko, que havia perdido o
emprego.
        Ningum  digno do pdio se no correr riscos para conquist-lo - comentou com ousadia Lcia, a gerente editorial brasileira.
        - Se recebemos mais de dois milhes de mensagens com a carta aberta, talvez tenhamos uma reao positiva muito maior quando as mulheres perceberem que democratizamos
as imagens das capas - observou Rbia.
        Houve um debate entre elas. Sob um clima de apreenso e euforia, colocaram em votao a proposta. Decidiram, por unanimidade, aceit-la. No mar de dvidas
em que se encontravam, uma coisa as animou: se a carta aberta resultou num crescimento de 20% nas vendas das revistas no ms em que foi publicada, uma capa incomum
que estivesse em sintonia com a carta poderia repetir o xito extraordinrio das vendas.
        Tal xito no afugentaria os anunciantes, no comprometeria seus empregos e, conseqentemente, o monstro do preconceito seria frontalmente ferido. Valia
a pena correr os riscos, pensaram as revolucionrias.
        - No estamos prejudicando ningum com essa atitude, apenas bebendo do clice da tica - disse Chen com segurana.
        Combinaram que em alguns meses todas elas se preparariam para publicar simultaneamente a capa. Algumas, como Eliza-beth, tinham um chefe autoritrio que
jamais aceitaria essa ousadia. Portanto, deveriam usar tticas para conseguirem uma publicao simultnea. Como ningum segura uma mulher quando ela liberta a sua
criatividade, depois de trs tentativas elas realizaram a faanha.
        Elizabeth atuou nos bastidores e conseguiu com um patrocinador 15 dias de frias gratuitas nas Bahamas para Robert. O predador foi passear e a borboleta
bailou suavemente ao som da orquestra do vento. Desta forma, Elizabeth pde escolher livremente a capa. Cada gerente editorial decidiria a imagem que mais pudesse
contribuir com o movimento.
        Elizabeth escolheu a modelo Nicole, uma das incentivadoras de Sarah no comeo da sua carreira. Nicole j foi uma das mais requisitadas modelos internacionais,
mas caiu no ostracismo nos ltimos quatro anos. Tinha muitos amigos, inmeros fs e bajuladores quando estava no auge da carreira, mas as razes que tinha com seus
admiradores eram to superficiais como a espessura de uma fotografia, no resistiu s intempries existenciais. Os que outrora a colocavam no trono nem sequer sabiam
se ainda estava viva quando engordou. Ela caiu no esquecimento.
        Mesmo quando estava no auge da carreira, Nicole vivia angustiada, no suportava as presses dos desfiles, as inmeras viagens, a cobrana excessiva dos patrocinadores
e o ritual dos regimes. O que era mais estranho  que, apesar de ser belssima, se achava feia. Olhar-se no espelho gerava uma emoo flutuante como o pndulo de
um relgio: num momento estava animada, no outro deprimida. Queria ter outros lbios e outra boca. Na realidade, precisava de uma boca psquica, capaz de fazer elogios
 vida.
        Tinha uma relao conflitante com os alimentos, alternada entre o dio e o prazer. O fato  que, a partir dos 21 anos, no conseguiu segurar o apetite e
engordou 15 quilos. Bilhes de clulas do seu corpo entraram em jbilo, pois enfim foram nutridas com dignidade. Em contrapartida, Nicole morreu para a indstria
do marketing e para o mundo da moda. O monstro que ela ajudou a construir (o esteretipo da beleza) foi o mesmo que a destruiu. Sua auto-imagem, que j no era boa,
tornou-se pssima. Considerada uma das mulheres mais lindas do mundo, ela se isolou e assassinou seu encanto pela vida.
        No isolamento, a parania pelas dietas aumentou. Fez diversas cirurgias plsticas, inclusive tirou uma costela de cada lado para que sua barriga parecesse
cavada. Mas, em vez de reeducar sua alimentao e aprender a curtir a vida, procurava solues mgicas para se sentir bela.  claro, engordou novamente.
        Depois de experimentar as cirurgias, ela optou por tcnicas estticas menos invasivas. Entrou de cabea nas bioplastias que usam um gel sinttico, o polimetilmetacrilato
(PMMA), e que geram uma moldagem definitiva. Queria uma boca carnuda, um nariz reto, um queixo mais amplo e outros preenchimentos. Embora estivesse um pouco obesa,
queria tambm um glteo proeminente, pois o achava excessivamente chato. Enquanto o mdico injetava e moldava o PMMA sobre a pele e, em alguns casos, sob o msculo,
ela dava palpites sobre como gostaria que ficasse aquela rea do corpo. Usou a bioplastia para preencher tudo o que detestava, mas esqueceu de preencher seu crebro.
        A jovem que se destacava nas telas de TV, nas capas das revistas e nas primeiras pginas dos jornais viveu a mais cruel das solides. Nicole tinha vergonha
de si mesma. Tinha crises depressivas com freqncia, acompanhada de sintomas psicossomticos como falta de ar, dores de cabea, tonturas. Desenvolveu um quadro
de hipocondria. Tomava nove compridos por dia, dos quais dois eram antidepressvos e trs tranqilizantes. Ela no permitia que os psiquiatras e psiclogos "penetrassem"
em seu mundo e a ajudassem a reescrever sua histria.
        As suas crises aumentaram e o isolamento aprofundou-se. Deixou de sair, de ir a festas, no encontrava os amigos, e as poucas pessoas que a visitavam eram
recebidas no quarto  meia luz. No queria expor seu corpo. Comportava-se como os leprosos na poca de Cristo, que viviam excludos da sociedade e habitavam calabouos
escuros para esconder suas deformaes. Elizabeth e Sarah eram algumas das raras amigas que mantinham laos com ela. Desde que comearam a militar contra a ditadura
da beleza, elas discorreram sobre o movimento para ela. As notcias dessa luta refrigeravam-lhe a emoo.
        Cada vez mais animada com as visitas, Nicole pouco a pouco passou a receb-las na sala com uma luz mais clara. Certa vez, ela acendeu todas as luzes do quarto.
Elizabeth e Sarah puderam ver manchas nos locais de implante, alguns ndulos e retraes em certas regies da face. Ela ainda era linda, embora se achasse a mais
horrvel das mulheres. Quando Elizabeth explicou as intenes do comit e a convidou para ser capa da Mulher Moderna, Nicole ficou perturbada e incontrolavelmente
amedrontada.
        A reao inicial foi de pranto. Nicole tinha sido capa trs vezes da Mulher Moderna quando estava magrssima, esqulida, no auge de sua fama. Agora, seria
modelo para representar o grande pblico feminino, com suas imperfeies e beleza normal. A prpria Elizabeth pediu que ela refletisse sobre o assunto e que consultasse
seu psiquiatra antes de tomar uma deciso.
        Nicole agradeceu o convite, mas adiantou que dificilmente aceitaria. Tinha medo de mostrar sua face, revelar seu corpo, desnudar seu ser. Sentia-se acovardada.
A partir da, teve noites de insnia. Em seus pesadelos assustadores, imagens fantasmagricas saam do espelho aspirando seu corpo. Via crianas e adolescentes que
olhavam para o espelho e, ao invs de enxergarem sua face, enxergavam imagens grotescas. Acordava ofegante. Nesse momento comeou a entender que havia um fantasma
no cerne da sua mente que queria aprision-la. Precisava enfrent-lo, era uma questo de sobrevivncia.
        Ao analisar novamente a oferta de Elizabeth, refletiu que talvez fosse a oportunidade de que precisava para enfrentar o monstro que a dilacerava. Se quisesse
ser saudvel e feliz, precisava dar a cara ao mundo, enfrentar a si mesma e debelar a atroz solido que a encarcerava. Uma semana depois, ligou para Elizabeth e
aceitou o  convite.
        Todas as demais gerentes editoriais conseguiram modelos que tinham histrias parecidas com a de Nicole. Mas resolveram no divulg-las, queriam que a imagem
falasse mais do que as palavras, que admirassem a capa sem fazer apelo emocional.
        Chegou o grande dia. As revistas saram uma aps a outra. Sob intenso entusiasmo, as dirigentes do comit se telefonavam e se comunicavam via e-mail. Elas
exaltavam mutuamente a graa e o charme das capas. Algumas profetizavam que as vendas do ms iriam explodir. Sentiram uma euforia incontida, que gerava taquicardia
e um excitante calafrio.
        Ento vieram os resultados. Foi um desastre. Em todos os pases as vendas despencaram. Na Alemanha as vendas caram 21%, no Canad, 23%, na Inglaterra, 24%,
na Rssia, 27%, na Frana, 29%, nos EUA, 30%, no Brasil, 32%. Foi uma catstrofe comercial para as revistas e uma calamidade emocional para as dirigentes.
         medida que os dias passavam, os nmeros se tornaram um pesadelo cada vez mais assustador. Mas o pior ainda estava por vir. Nas semanas seguintes, o departamento
comercial foi informado que os grandes patrocinadores estavam cancelando os contratos de publicidade. A debandada dos anunciantes foi to grande na revista Mulher
Moderna que o faturamento caiu incrveis 40%.
        A indstria de aparelhos eletrnicos, produtos de higiene e beleza, filtros solares, computadores, carros - ningum queria associar sua imagem a veculos
de comunicao que desprezassem a beleza consagrada. Todos esses anunciantes sabiam do movimento do comit. Alguns at eram simpatizantes da causa, desde que ela
no colocasse em risco as vendas dos seus produtos.
        As gerentes editoriais eram jornalistas, artess das palavras e das idias, no imaginavam o tamanho do poder do mercado publicitrio. O departamento comercial
era bem separado do departamento de jornalismo, alis at os salrios eram distintos. Os que trabalhavam no departamento comercial possuam carres de luxo, manses
e casas de veraneio, enquanto os "humildes" jornalistas lutavam para sobreviver, tinham carros simples, residncias sem requintes e financiadas.
        No bastassem todas essas pssimas notcias, no ocorreu o envio macio de mensagens para as redaes das revistas apoiando a corajosa atitude. Receberam
menos de 5% das mensagens enviadas na poca da publicao da carta aberta.
        Quando Robert chegou de viagem, o dramtico cenrio ainda estava se desenhando. Elizabeth foi chamada apressadamente pela secretria ao seu escritrio. No
precisou perguntar como estava o humor do executivo; a aflio e os tremores da secretria denunciavam o clima de terror.
        Ao entrar, Robert nem pediu para que ela se sentasse.
        - Voc  uma demente? - disse, gritando.
        - No grite comigo! Por favor, deixe-me explicar - falou Elizabeth, tentando manter a calma.
        - No quero explicao. Voc  a pessoa mais inconseqente que existe no jornalismo.
        - Eu escolhi Nicole porque... - tentou falar Elizabeth, mas Robert a interrompeu.
        - Para me provocar! Nicole est morta! - E  sentenciou aos gritos: - Voc  louca! Pode se retirar.
        Robert no a despediu imediatamente. Desde o dia em que ela rejeitou seu assdio, ele sentia uma dose de raiva por ela. Agora queria expurg-la da sua frente.
Esperou 15 dias para ver os resultados. A cada dia aumentava seu furor.
        Ento chamou Elizabeth e mais 10 jornalistas ao seu escritrio. Tentando crucific-la, comentou, sem meias palavras:
        - Elizabeth usou esta revista para construir uma imagem de herona. Ela traiu vocs e todos os funcionrios. No pensou nos seus filhos nem em seus futuros.
Ela causou o pior ato terrorista contra uma revista neste pas. Por culpa dela, o faturamento despencou. Por culpa dela, todas vocs esto despedidas.
        Os olhos de Elizabeth se encheram de lgrimas. Suas colegas, que antes apoiavam em prosa e verso o movimento, comearam a ofend-la e a humilh-la. Todas
estavam transtornadas, o clima era irracional. Uma lhe disse:
        - Voc  desleal. No tem alma!
        Outra falou rispidamente:
        - Voc nos colocou numa armadilha! Sua insensvel.
        Fora de si, Robert cuspiu no cho perto dela e gritou.
        - Prfida! Traidora!
        Robert s faltou apedrej-la fisicamente, pois emocionalmente j a tinha mutilado. Elizabeth lembrou-se do horror que a mulher adltera sofreu diante dos
fariseus. O Mestre dos Mestres teve sabedoria para abrir a inteligncia dos radicais que a julgavam, mas Elizabeth no tinha ningum para defend-la. Sua inteligncia
estava bloqueada, sua capacidade de reagir, embotada. A mulher que mais lutou nos ltimos tempos para cuidar da qualidade de vida das mulheres foi ferida por sua
coragem. Passou desprotegida seu mais intenso inverno existencial.
        Aps sair das dependncias do edifcio, trs jornalistas que foram despedidas e que se calaram quando Robert a atacava a abraaram. Estavam sem foras, mas
deram o calor do seu abrao nesse momento causticante.
        No apenas Elizabeth teve problemas. Todas as lderes do comit foram sumariamente despedidas. Foram criticadas e se tornaram objeto de vexames e escndalos.
No bastasse isso, a imprensa mundial comeou a noticiar a derrota do comit e o destino das dirigentes. A perda de emprego delas e de vrias outras jornalistas,
a debandada de anunciantes, a queda do nmero de exemplares vendidos e a no-adeso das mulheres  causa foram estampadas com destaque em toda a mdia. O movimento
foi desacreditado; o mito, destrudo.
        Nas semanas seguintes o quadro se agravou. Alguns executivos, como Robert, para justificar as demisses de funcionrios, comearam a levantar calnias na
imprensa. Executivos das indstrias de servios e produtos, para no queimarem suas imagens e justificar a ruptura de contratos publicitrios com as revistas, tambm
tentaram difam-las. Disseram que as lderes do comit procuravam autopromoo, tinham intenes escusas, autoritrias, eram camicases do jornalismo, abutres da
inocncia das mulheres.
        Alguns empresrios soltaram notas, sem identificar a fonte, dizendo que elas lhes pediram dinheiro para no denunci-los nas suas revistas por usarem modelos
magrrimas para divulgar seus produtos. Chegou-se a noticiar que elas praticavam orgias sexuais.
        Antes as dirigentes davam entrevistas defendendo a causa das mulheres, agora elas o faziam se defendendo. De um ms para o outro, caram do cu para o inferno
emocional. Viveram dias infelizes. Nenhuma delas estava preparada para enfrentar essa imprevisvel tragdia. Estavam difamadas e desempregadas. Ningum arriscaria
dar-lhes emprego.
        Lisa ficou deprimida com todos esses acontecimentos. Desanimada, ela afastou-se do movimento. Foi trilhar o seu prprio caminho, cuidar da sua sobrevivncia.
Elizabeth estava sem energia para continuar o combate. Confusa, convocou uma reunio emergencial em Nova York. As conselheiras, embora com medo do futuro, gastaram
suas economias para, talvez, terem o ltimo encontro. Estavam pensando em dissolver o comit. O sonho no morreu, pior que isso, converteu-se em pesadelo. Pediram
a presena de Marco Polo e Falco para ajud-las a entender por que tudo deu errado.
        O brilho das revolucionrias desapareceu. No encontro, cada uma comentou o episdio trgico que viveu. Marco Polo e Falco as ouviam atentamente. Elizabeth,
desanimada, disse:
        - Acabaram com o futuro da minha filha, agora acabaram com o meu futuro. As humilhaes, ofensas e calnias que sofremos foram intensas e imprevisveis.
Um general deve reconhecer quando est perdendo a guerra e deve propor condies de rendio para que seus liderados no sejam esmagados.
        Quando Elizabeth ia propor a dissoluo do comit. A revolucionria chinesa, Chen, colocou-se de p e disse, com seu ingls carregado:
        - Elizabeth, voc me encorajou a batalhar por esta nobre causa. Perdemos uma grande batalha, mas no a guerra. Uma guerra  constituda de muitas batalhas.
Por amor s mulheres de todo o mundo, no podemos desistir.
        Em seguida, Chen fez um gravssimo comentrio:
        - Estou preocupadssima com a China. O cncer da ditadura da beleza est atingindo frontalmente meu povo. Sempre valorizamos nosso passado e nossas caractersticas
fsicas, mas o inacreditvel est ocorrendo. As mulheres chinesas esto rejeitando seus traos, querem ter a silhueta das atrizes de Hollywood e das modelos ocidentais.
Elas querem ser "Barbies".
        A ansiedade de Chen tinha inquestionveis fundamentos. Na pesquisa realizada por Marco Polo, 44% das mulheres, portanto mais de um bilho delas, achavam
que bonecas como Barbie e Susie geravam um padro doentio de beleza perfeita. A Barbie, lanada em 1959, era um exemplo vivo do american way of life, uma imagem
cobiada como cone. Ainda hoje a boneca  um fenmeno, pois a cada trs segundos uma  vendida no mundo. Muitos produtos licenciados trazem sua marca. Mais de trs
bilhes de dlares so faturados em torno da sua imagem.
        Como objeto de diverso, a Barbie  excelente, mas sua imagem magrrima, lourssima, esguia, com sua anatomia impecvel e roupas perfeitamente combinadas,
 a representao das milhares de modelos que surgem em todos os cantos da sociedade de consumo, na moda, na lingerie, na publicidade. A China, principal exportador
do mundo, est importando uma imagem que afeta a natureza essencial das suas mulheres e crianas.
        Chen respirou profundamente e continuou:
        -  espantoso, mas as jovens chinesas esto fazendo cirurgia para mudar o contorno dos olhos, dos lbios e do nariz. A psicopatia est indo to longe que
esto organizando em meu pas o concurso de Miss Bisturi! As chinesas devem decidir se desejam ou no fazer plsticas, mas essa parania coletiva pela beleza ocidental
estereotipada representa uma rejeio da nossa gentica. Que loucura  essa! Estamos perdendo nossa identidade. Jamais ocorreu um fato desses em nossa histria.
        A jornalista chinesa estava inconsolvel. Apesar de ter sido humilhada e sumariamente despedida da sua revista, mostrava um vigor imbatvel para lutar pelo
movimento. Os transtornos alimentares que tinham surgido nas ilhas Fiji aps a chegada da televiso estavam aparecendo aceleradamente na China. Por isso, finalizou,
dizendo:
        - Em breve teremos milhes de adolescentes com anorexia
nervosa. Nossas jovens tero a rica culinria chinesa  sua mesa,
mas se recusaro a comer, sero servas de uma ditadura interior.
A auto-imagem e a auto-estima no podem ser exportadas nem
importadas. - E convocou-as novamente para a batalha: - No
podemos desistir! A sade da nossa espcie est em jogo!
        Todas ficaram impressionadas com as reaes de Chen. Mitiko tambm tomou a palavra e disse:
        - Lembrem-se da sociloga Kiome em nosso primeiro congresso. Sua filha rejeitou os traos orientais. Essa auto-rejeio est se tornando uma epidemia no
Japo. As jovens japonesas possuem silhueta belssima, mas no a valorizam. Milhares delas detestam seus olhos, seus seios, seus glteos, seus lbios. Elas tambm
querem ter o corpo de uma modelo ocidental. Esto rejeitando bilhes de clulas que organizam nossa anatomia.
        Mitiko Sakamura era budista, uma pessoa que dava muito valor  interiorizao. As palavras de Marco Polo e Falco calaram fundo em sua alma. Nesse momento,
instigou saudavelmente as mulheres do comit, que em sua maioria eram crists:
        - Lembrem-se do homem que mais defendeu as mulheres. Esse Jesus que vocs dizem amar no calou sua voz nem quando corria o risco de morrer. No nos inspiramos
nele? Vamos nos calar? Posso passar privaes e dificuldades financeiras, mas no me silenciarei. No vou desistir deste sonho.
        Brgida Fonn, Lcia Lacerda e Sofia Donatelli eram catlicas romanas, Rbia Rumanovi era catlica ortodoxa, Helen Gnter era luterana, Christine Johnson
pertencia  igreja anglicana, Elizabeth Whit e Lorna Roosevelt eram protestantes. As palavras de Mitiko as levaram a fazer uma profunda imerso em seus valores,
fortalecendo suas crenas.
        Ao terminar seu comentrio, Mitiko levantou-se e abraou Chen, emocionada. Ao ver as duas orientais com uma slida disposio para continuar lutando, as
demais dirigentes do comit esqueceram as calnias, os problemas que estavam atravessando, e os que viro, e pensaram nas mulheres de todos os povos, culturas, condies
sociais.
        Sarah, que tambm estava presente, levantou-se e abraou Mitiko e Chen, enquanto se dirigia s demais dirigentes:
- Eu tentei o suicdio por causa da ditadura da beleza. Quase morri. Alm disso, fui machucada, humilhada e excluda do
mundo fashion. Felizmente, no me curvei. Junto com Anna, montei um site para educar jovens e adultos contra a tirania do belo. Temos ajudado vrias pessoas, mas
nosso site  uma gota d'gua no oceano. O trabalho internacional do comit  fundamental nessa luta. - E, olhando para sua me, disse-lhe afetiva-mente: - Mame,
eu admiro voc. No dissolva o movimento. Quem vence sem risco e sem dor triunfa sem glria.
        Elizabeth lembrou-se dos freqentes conflitos que tinha com Sarah. Agora possuam menos dinheiro, menos glamour, menos assdio social, mas eram mais felizes,
eram grandes amigas. Comovida e encorajada, abraou Sarah e depois Mitiko e Chen. Em seguida, todas se abraaram e se consolaram mutuamente. Queriam caminhar, mas
no tinham solo sob os ps. Alm disso, desejavam entender o que aconteceu. Podiam aceitar a perda de anunciantes, mas no entendiam por que as mensagens no foram
enviadas, por que as revistas no foram compradas.
        Nesse momento, Marco Polo e Falco entraram em cena. Recordaram os fenmenos inconscientes que constroem o padro inatingvel de beleza. E pouco a pouco
demonstraram que a rejeio pelas capas e o fracasso de vendas eram reflexo da prpria sndrome. Marco Polo comentou:
        - O esteretipo da beleza controla sutilmente a capacidade de fazer escolhas. Quando uma mulher pega a revista cuja imagem da capa  de uma beleza comum,
ocorrem trs fenmenos em cascata: primeiro, a capa no a leva a um estado de admirao; segundo, no ocorre uma insatisfao consigo mesma; terceiro, conseqentemente,
no surge a ansiedade pelo consumo. A revista deixou de ser um objeto de interesse. Portanto, o fracasso nas vendas indica no o fracasso do movimento, e sim o sucesso.
Revela que ele est no caminho certo.
        Falco tambm fez um comentrio. Disse que as mensagens no foram enviadas maciamente porque, ao contrrio da carta aberta, a imagem da capa no provocou
um alerta intelectual intenso nas leitoras. A idias instigantes divulgadas na carta abriram janelas light que estimularam sua capacidade de pensar, levando as pessoas
a reagirem imediatamente em favor do movimento.
        - Vocs ainda tm o apoio das mulheres, s que desta vez ele no foi explcito. Alimentem.o intelecto delas com idias inteligentes, que elas dominaro o
mundo - completou Falco.
        De repente, surgiu uma proposta que as motivaria e daria um solo para as dirigentes caminharem. Sofia props:
        - Que tal o comit editar uma revista internacional?
        Chen e Mitiko reagiram em conjunto:
        - Por que no? Estamos desempregadas mesmo!
        Elizabeth, inspirada, disse:
        - timo! - E, fundamentando-se nas idias dos dois pensadores, expressou: - Podemos cham-la de Mulher Inteligente.
         A proposta foi colocada em votao e aceita imediatamente. Mais uma vez a emoo mostrou que no segue a matemtica numrica: as mulheres saram do terremoto
emocional para as nuvens da animao. O tronco da rvore ganhou mais uma camada de proteo. O projeto ganhou razes.
        Querendo dar mais vigor ao movimento, Sarah convidou as dirigentes do comit para visitar um ambulatrio de anorexia nervosa e outros transtornos alimentares
que ela e Anna visitavam com freqncia. Aceitaram o convite. Anna esperou-as na porta do ambulatrio.
        Bastaram alguns minutos para que as dirigentes do comit ficassem alarmadas com a imagem de adolescentes desnutridas, profundamente abatidas, cadavricas.
Parecia que famintos da Somlia tinham sido transportados para os EUA. Algumas pacientes estavam to abatidas que piscavam os olhos lentamente. Mal tinham foras
para caminhar ou falar.
        Aps 15 minutos, saram assombradas. Foram rapidamente para a sala central do ambulatrio tentar se refazer da angstia que sentiam. Algumas das lderes
estavam ofegantes, outras com vertigem e ainda outras com cefalia. Vendo o desespero delas, e motivados pela admirao de Mitiko pelas atitudes do Mestre dos Mestres,
mais uma vez Marco Polo e Falco as encorajaram, citando seu imenso carinho pelas mulheres.
        Falco se adiantou e comentou:
        - Aps sair da fortaleza onde foi julgado, Jesus pegou a sua cruz e seguiu em direo ao Glgota, onde cumpriria sua sentena final. Seu rosto estava mutilado,
cheio de hematomas, seu corpo ferido pelos aoites. Ele no tinha condies de se preocupar com outra coisa a no ser com sua dor.
        Marco Polo completou:
        - Quando o corpo est drasticamente ferido, os instintos prevalecem sobre a razo. Do ponto de vista psiquitrico, era de se esperar que ele fosse controlado
pelo medo de morrer, pela dor
fsica e emocional e, desse modo, no raciocinasse.
        Falco entrou novamente em cena e disse:
        - Mas, para a nossa surpresa, o Mestre levantou sua cabea e viu as mulheres chorando. Ao ver o desespero delas por causa dele, ele suprimiu sua dor e, esquecendo-se
de si mesmo, disse-lhes: "Mulheres, no choreis por mim, mas chorai por vs mesmas e pelos vossos filhos." Vocs entendem o que ele quis dizer?
        As mulheres refletiram sobre essas palavras. Sentiram que elas eram atualssimas. As dirigentes do comit tm chorado h meses pela sade das mulheres do
mundo e h poucos minutos estavam chorando por um grupo de adolescentes doentes e desnutridas. Usando essa passagem como espelho, perceberam que o combate que estavam
travando no seria vencido sem lgrimas e sem dor.
          Para Falco e Marco Polo, as mulheres tambm precisavam ajudar os homens a cuidar da sua qualidade de vida, pois eles viviam numa atividade sem fim, eram
timos para trabalhar, mas pssimos para cuidarem de si mesmos. Inspirado, o psiquiatra finalizou sua anlise:
        - O homem que mais amou as mulheres mais uma vez as protegeu. Quando todas as clulas do seu corpo gritavam de dor, ele pediu que elas esquecessem da dor
dele e cuidassem atentamente delas e de seus filhos. O Mestre dos Mestres sabia que vocs e seus filhos sofreriam muito nas mos dos homens e do sistema que eles
criariam, que destruiria a identidade e a sensibilidade, inclusive deles mesmos.
        - Que homem  esse que mesmo morrendo se preocupou conosco? O pensamento de Jesus Cristo  muito diferente dos lderes ocidentais que se dizem cristos -
disse Chen, surpresa.
        Falco fitou Chen, depois as demais mulheres e completou:
        - Embora haja excees, as mulheres amam a vida e se doam muito mais para os outros do que os homens, enquanto eles so mais egostas, individualistas e
se preocupam muito mais com seu feudo e com seu bolso. Se necessrio, chorem por vocs e pelos seus filhos, mas no abandonem o campo de batalha. Essa luta pertence
a vocs.

CAPTULO 16
        O comit se reuniu para elaborar a nova revista, mas comearam a aparecer as dificuldades. Faltava dinheiro para os investimentos, para contratar diagramadores,
fotgrafos e outros funcionrios, bem como para organizar o departamento comercial. Algumas poucas empresas de cosmticos, que j estavam valorizando a beleza da
mulher comum, mostraram interesse em anunciar na revista, mas o dinheiro era insuficiente.
        Alm disso, as dirigentes moravam em diferentes pases e isso dificultava a interao, embora estivessem na era da internet. E o que era mais complicado:
elas no tinham experincia com distribuidores. Comearam a entender, portanto, que uma revista demoraria mais de um ano para se auto-sustentar.
        O desnimo comeou novamente a circund-las. Quando pensavam que navegavam sozinhas em alto-mar e sem suprimentos, veio o resgate. Diretoras de redao de
inmeras outras revistas femininas, bem como jornalistas de vrias nacionalidades, enviaram mensagens de solidariedade e apoio ao movimento. Cada carta era uma ducha
de energia positiva. Todas as conselheiras receberam diversas propostas de trabalho e liberdade para expressar suas idias. Perceberam, enfim, que no estavam sozinhas,
que as mulheres formadoras de opinio estavam em sintonia com as idias do movimento.
        Diante disso, deixaram o projeto da revista Mulher Inteligente ser elaborado lentamente, sem solavancos. Tinham como sobreviver e, o que  melhor, tinham
espao para lutar pela causa onde fossem trabalhar. Poderiam escrever artigos que orientassem as leitoras. Comearam, assim, a ser mais intrpidas nos textos.
        Na carta aberta, elas haviam pedido para as mulheres criticarem as empresas de produtos e servios que usavam o esteretipo da beleza. Agora elas foram mais
longe. Orientavam as mulheres a no comprarem os produtos das indstrias de batom, xampu, perfumes, lingerie, roupas ou jias que usassem para anunci-los somente
modelos de beleza incomum ou magrrimas.
        Se uma empresa area s contratasse aeromoas cujas imagens so modelos padronizados de beleza, pediam que voassem por outra empresa. Se uma empresa de celular
s colocasse modelos estereotipadas para vend-los, solicitavam que boicotassem o uso desse celular. Proclamavam:
        - Mudem de banco, de loja de departamento e at dos programas de TV que vendem um padro inatingvel de beleza. Por amor a suas filhas e filhos, enviem mensagens
s empresas e reclamem. Enviem cartas s redaes das suas revistas preferidas e solicitem mudanas. Sejam livres, faam escolhas, usem sua habilidade e sensibilidade
para se oporem  ditadura da beleza. As empresas so livres para anunciar, mas vocs so livres para decidir comprar. Faam o mesmo com empresas que usam o corpo
masculino estereotipado.
        As dirigentes tinham os ps no cho. Sabiam que a chance de vencerem era uma em mil se elas fossem tmidas e de uma em 10 se fossem ousadas. Em seus artigos,
escreviam que a mudana de paradigmas demoraria anos ou dcadas para reeditar as zonas de conflito nos milhes de pessoas afetadas.
        Entenderam o enfoque de Marco Polo e Falco e concordaram que precisavam do apoio macio das escolas. Os professores e professoras precisavam ensinar em
cada sala de aula e a cada aluno que a beleza est nos olhos de quem interpreta. Precisavam formar uma nova gerao de pensadores, de jovens que vivam a vida como
espetculo nico e que sejam livres no territrio da emoo.
        O movimento das mulheres era to sublime que no tinha raa, cor, cultura e religio. As muulmanas, judias, budistas, hindus, crists, todas tinham a mesma
meta, eram apaixonadas pelos seus filhos e aprenderam a se apaixonar pela humanidade. Elas descobriram uma fora incrvel no apenas na sua alma, mas tambm no poder
de compra.
        Em cada pas em que elas se organizavam e comeavam a fazer um bloqueio de um determinado produto ou servio, as conseqncias eram grandes do ponto de vista
comercial. As vendas caam drasticamente: no caso de um tipo de celular, 20%; numa linha de produtos de beleza, 30%; numa marca de roupa feminina, 35%; no nmero
de contas num banco, 22%; e assim por diante. De outro lado, as pouqussimas empresas que comearam a respeitar as mulheres aumentaram significativamente suas vendas.
        Gerou-se um desespero no mercado. O sistema comeou a se amedrontar. Descobriram que as mulheres eram a mola propulsora da economia de mercado. Elas tinham
uma enorme arma nas mos e no a utilizavam. Elas compravam 70% das fotografias, 65% dos livros e definiam mais do que os homens a compra de carros, roupas, aparelhos
eletrnicos e de uma srie de outros produtos. Sem as mulheres, os shoppings iriam  falncia.
        Preocupadas com seus filhos, as mulheres fizeram uma splica mundial para que no se fizesse propaganda para crianas abaixo de 10 anos, ou pelo menos excessivamente,
pois o apelo ao consumismo estava asfixiando a infncia delas. O fast-food emocional estava bloqueando a criatividade e a sade psquica de crianas e adolescentes.
Era uma luta contra o tempo. A cada cinco segundos morria a infncia de uma criana no mundo. Elas tinham de brincar, inventar, sonhar, se envolver com a natureza,
se aventurar.
        A atitude delas estava levando a mudanas nos hbitos de consumo e de relacionamento, o que fez cair pela primeira vez as vendas de video games. Os pais
passaram a brincar mais com seus filhos, cruzar mais seu mundo com o mundo deles. Entenderam, finalmente, que bons pais do presentes para os filhos, mas pais e
mes brilhantes do suas lgrimas, seus sonhos, sua histria para eles. Bons pais preparam os filhos para o sucesso, mas pais e mes brilhantes os preparam para
os fracassos, para lidar com perdas e frustraes. Bons pais corrigem erros, pais brilhantes ensinam a pensar e a criticar as garras do sistema que os deformam.
        As borboletas ganharam asas de guias. Era difcil abater as conselheiras do comit. O movimento crescia dia a dia. Porm, elas mexeram em algo intocvel,
sagrado, o capital das empresas, e isso poderia trazer graves conseqncias. Alguns executivos e grandes empresrios se reuniram para avaliar a dramtica situao.
Chegaram  concluso de que, se eliminassem o padro inatingvel de beleza, eles agradariam s mulheres hoje, mas no futuro as vendas voltariam a cair de maneira
consistente. "O crescimento econmico nasce no solo da insatisfao" poetizou um dos empresrios.
        - Perderemos bilhes de dlares neste pas - disse teatral
mente outro empresrio.
        - Esse movimento  um socialismo disfarado! - sentenciou
um empresrio que deixou de faturar 50 milhes de dlares no
trimestre anterior.
        A democracia corre perigo! - comentou um alto executivo de uma famosa loja de departamentos cuja empresa ficou com a imagem maculada diante do bloqueio das
mulheres.
        - Haver inmeras falncias e desemprego - sentenciou um
banqueiro brasileiro que perdeu milhares de contas, pois s contratava mulheres esculturais para dar um toque ertico nas
agncias e cativar executivos.
        Decidiram, a portas fechadas, para o bem da sociedade de consumo, que deveriam agir contra o perigoso movimento a qualquer custo.
        - Temos de tomar cuidado. No podemos produzir heris, mas viles - afirmou um espertssimo diretor de marketing. E proclamou: - Precisamos destruir o crebro
do movimento. Mas
como fazer isso? - comentou perturbado, mas decidido.
        -

?

        Um ms depois, Lisa foi ao consultrio de Marco Polo. Estava estressada e ansiosa. Havia iniciado um tratamento com ele havia trs semanas. Coincidentemente,
encontrou alguns reprteres e fotgrafos no saguo do edifcio que estavam ali para entrevistar Marco Polo. Lisa teceu elogios  luta das mulheres e exaltou a dignidade
e a tica do psiquiatra.
        Como Lisa estava atrasada para seu horrio, to logo ela chegou, a secretria a introduziu no consultrio. Quinze minutos depois, algo impensvel aconteceu.
Ouviram-se gritos estridentes no consultrio. Lisa bradava desesperadamente sem parar, causando pnico na sala de espera. Apavorados, os jornalistas abriram a porta.
Lisa estava toda arranhada, com a blusa rasgada e seios  mostra.
        Marco Polo a segurava fortemente em seus braos.
        Aos gritos, Lisa bradava:
        - Esse homem  um manaco sexual! Ele tentou me estuprar.
        Todos ficaram perplexos. Os fotgrafos registraram a cena. No paravam de disparar flashes. Marco Polo, ao se ver fotografado, soltou lentamente os braos
de Lisa. Tentou se explicar, mas ningum o ouvia. Atnito, sentou-se na poltrona. Estava arrasado.
        Lisa estava abaladssima. Abraou um dos reprteres e disse, em prantos:
        - Leve-me para longe desse psicopata! Protegendo-a, o jornalista a conduziu para fora e chamou imediatamente a polcia. Marco Polo no fugiu. Trinta minutos
depois, ele saiu algemado do consultrio. As redes de TV filmaram a melanclica cena. Enquanto ele saa, outros profissionais apareciam fotografando o famoso psiquiatra
e querendo entrevist-lo. Ele no escondia o rosto, mas no dizia palavra. No atacava Lisa nem negava que tentou estupr-la. Os reprteres interpretaram sua reao
como a de um homem frio e perigoso, incapaz de expressar sentimentos.
        Na mesma noite saiu nos telejornais a manchete: "Guru do movimento contra a ditadura da beleza  um psicopata sexual." No outro dia, sua foto estava estampada
nas primeiras pginas dos jornais. Nos dias que se sucederam, ele continuou a ser alvo das notcias. Os jornalistas que presenciaram a cena disseram que Lisa era
insuspeita, pois minutos antes de entrar no consultrio ela havia elogiado seu psiquiatra. "S um monstro poderia atacar mulheres indefesas", comentaram.
        No bastasse isso, algumas modelos que nunca tinham sido suas pacientes apareceram dizendo que foram assediadas sexualmente por ele. Longas reportagens em
vrios pases denunciando-o e tecendo os desvios do seu carter foram feitas. O pensador da psiquiatria e da psicologia tornou-se um crpula, o exemplo mais prfido
de ser humano.
        As dirigentes do comit ficaram assombradas, mudas, paralisadas. Queriam defend-lo, mas ele atacou uma mulher e essa mulher era Lisa, uma incansvel batalhadora
do movimento. Perturbadas, elas lembraram-se de todas as conferncias que Marco Polo deu e de como ele estimulou a formao do comit.
        Quanto mais resgatavam essas lembranas, mais ficavam estarrecidas. Ento, o comit recebeu seu mais dramtico golpe, um golpe insustentvel, que atingia
sua essncia. Comearam a desacreditar das idias que aliceravam o prprio comit e que estavam ligadas diretamente a Marco Polo e Falco. Um vrus entrou no mago
da organizao das mulheres e ameaou mat-la.
        Inicialmente, Marco Polo se recusou a falar no apenas com os jornalistas, mas com todas as pessoas prximas, inclusive Falco. O amigo chorou, no entendia
sua reao, queria acordar do pesadelo. Anna foi visit-lo e levou Falco. Ele os recebeu.
        Anna estava em prantos. Os ltimos acontecimentos pareciam um delrio para ela. Marco Polo estava angustiado, entristecido. Ao v-la chorar, no se conteve.
Chegou a vez de o gigante chorar e passar pelo mais rido deserto emocional. Anna olhou para ele e perguntou:
        - Voc  culpado? Seja sincero!
        - Minha defesa  minha histria e no minhas palavras. Vocs
sabem quem sou - falou olhando sua mulher no fundo dos olhos. E contou-lhes o que tinha realmente acontecido.
        As lembranas inundaram a mente de Anna. Ela se recordou de como Marco arrebatara seu corao, de como a estimulara a no desistir da vida, de como enfrentara
o mundo para se casar com ela. Lembrou tambm da sua sensibilidade e de como sempre tratara com dignidade os excludos da sociedade.
        Ele exaltava a criatividade dos psicticos, a fome de viver dos que tinham sndrome do pnico, a dignidade dos deprimidos.
        Os portadores de depresso, dizia ele, estavam entre as melhores pessoas da sociedade, pois sabiam se doar, mas no sabiam se proteger. Agora seu afetuoso
marido estava completamente desprotegido. Nenhuma voz se levantava para defend-lo, nem ele mesmo.
        - Mas, se voc no  culpado, por que no se defende? -
indagou Anna.
        - Fui pego em flagrante e diante das cmeras. Passei a ser considerado um perigo para a sociedade. Ningum vai acreditar em
mim. Minha vida e minha carreira foram dilaceradas - suspirou
de cabea baixa, profundamente abatido. - Sinto-me sem foras.
- E fez uma solicitao ao amigo: - Cuide de Anna para mim.
No sei qual ser meu futuro nem qual ser o futuro do nosso
casamento. S sei que a amo muito. E me desculpe por terem
que enfrentar tudo o que est acontecendo.
        Pediu particularmente para Anna ficar longe das cmeras, para que se preservasse e despediu-se. Anna, que entrara abalada no presdio, saiu transtornada.
        Elizabeth visitou-o, mas ele se recusou a receb-la. Parecia confessar seu crime com o seu silncio. Na sada do presdio, ela disse a alguns jornalistas
que jamais vira um to homem tico, sensvel e inteligente como Marco Polo. Comentou que o que estava acontecendo a deixava assombrada. No conseguia entender nem
raciocinar.
        "Os psicopatas so muito inteligentes e dissimulados", lhe afirmaram os reprteres. Pediram que explicasse como podia falar bem de algum que atacara sua
melhor amiga. Elizabeth no soube responder. No outro dia, aventaram a hiptese de que Elizabeth estaria tendo um caso com Marco Polo.
        As mulheres do comit fizeram uma reunio emergencial. Lisa se reuniu com elas. Estava visivelmente perturbada. Contou a admirao que tinha por Marco Polo
e de como tinha ficado horrorizada com seu assdio sexual e, posteriormente, com seu ataque.
        - No momento em que ele me atacava, eu chorava dizendo que ele se lembrasse da luta a favor das mulheres. Ento, ele gritou: "Esquea as mulheres. Lute por
mim e confesse que voc
sempre foi apaixonada." Ele tentava abrir minha blusa  fora.
Seu rosto ficou desfigurado, parecia um monstro. Seus olhos
estavam fixos e obcecados. Como eu no cedi, ele teve um
ataque de raiva e comeou a rasgar minha roupa brutalmente.
        O requinte de detalhes com que Lisa descrevia a cena deixou as dirigentes do comit abaladssimas. Tinham confiado em Marco Polo, acreditaram em suas idias
e em sua afetividade em relao s mulheres, e agora eram levadas a pensar que todo o seu comportamento no passava de um disfarce. Comearam a sentir que tinham
sido usadas por ele. Lisa, suspirando, finalizou:
        - Ainda bem que havia reprteres na sala de espera.
        Esta ltima frase intrigou Elizabeth. Ela perguntou:
        - Como esses reprteres foram parar no consultrio de
Marco Polo, Lisa?
        - Eu os encontrei no saguo. Eles me disseram que Marco
Polo marcou uma entrevista coletiva para falar sobre as ltimas
conquistas do movimento - respondeu ela apressadamente.
        Aflita, Elizabeth voltou a indagar:
        - Lisa, voc foi secretria executiva do movimento desde a sua
fundao. Eu no tinha tempo de policiar os atos de Marco Polo,
voc o acompanhou de perto. Deixe-nos entender algumas caractersticas dele para sabermos at onde ele nos usou: Marco Polo gostava de dar entrevistas? Ele gostava
de aparecer diante
das cmeras?
        - Sim! - Lisa respondeu sem titubear. E acrescentou: - Marco
Polo demonstrava que gostava de visibilidade.
        A alma de Elizabeth ficou gelada, e ela manifestou sua inquietao. Todas os demais membros do comit perceberam seu transtorno, mas no entendiam o que
estava acontecendo. Na realidade, Elizabeth conhecia muito mais Marco Polo do que Lisa. Sarah se tratara com ele. Anna era amiga de Sarah. E freqentemente Elizabeth
e Marco Polo tinham longas conversas ao telefone.
        Ela no se esquecera das suas palavras: "Nenhuma sociedade  livre sem uma imprensa livre. Mas a imprensa constri e destri mitos. O movimento deve dar
nfase  educao." Marco Polo preferia o anonimato, tinha apreo pelos jornalistas, mas evitava dar entrevistas, embora em algumas ocasies especiais falasse com
a mdia. Acreditava que seus livros, artigos e conferncias eram suficientes para representar suas idias.
        Lisa observou o comportamento estranho de Elizabeth. Ansiosa, questionou:
        - O que est acontecendo, Elizabeth? Voc duvida de mim? Voc no leu o relato dos reprteres que me protegeram no
consultrio?
        Entristecida e sem entusiasmo, a amiga respondeu:
        -Vi, Lisa.  que estou pensando em outra coisa. No se preocupe comigo.
        Logo em seguida, Lisa despediu-se das dirigentes e saiu. As mulheres sentiam-se profundamente tradas por Marco Polo. Perderam at o nimo de falar com Falco.
Tinham a impresso de que o comit se dissolveria como gelo ao sol do meio-dia. Dessa vez, cada uma pensou seriamente em cuidar da prpria vida. Quando iam decidir
pela dissoluo do movimento, Chen, percebendo algo no ar, veio novamente  carga com uma indagao:
        - Marco Polo falou do Mestre dos Mestres com muita paixo, disse que, mesmo durante sua agonia, ele defendia as mulheres. Como pode um homem com tanta sensibilidade
ser um traidor?
        Atnita, Rbia acrescentou outro questionamento:
        - Ele e Falco suplicaram para que no desistssemos do movimento, discorreram solenemente sobre o assassinato da auto-estima das mulheres e sobre crianas
destruindo sua auto-imagem em todas as sociedades modernas. Meu Deus, se esse homem  um falso, no poderemos confiar em nenhum outro ser humano na face da Terra!
        O teatro da mente delas era pequeno para tantas perguntas sem respostas. Quanto mais pensavam no assunto, mais confusas ficavam, e quanto mais confusas,
mais deprimidas se tornavam. Milhares de pessoas que acreditaram nessa luta entraram em crise. Sarah e Rosie ficaram prostradas na cama no dia do escndalo. Rosie
comeou a recusar alimentos. O desespero de seus pais reacendeu-se.
        O enorme navio do movimento que se deslocava em tranqila velocidade de cruzeiro colidira com um iceberg. Mais uma vez se provou que, quando se destri a
imagem de algum,  possvel causar catstrofes.

CAPTULO 17
        Elizabeth tentou novamente visitar Marco Polo. Desta vez ele a recebeu, mas estava cabisbaixo. No parecia destrudo pela sua conscincia, mas tinha o semblante
abatido pela dor. Continuava sem nimo para falar. Parecia estar viajando em seus pensamentos, tentando encontrar a soluo para um problema sem resposta. Vendo-o
mudo, ela o abalou, afirmando:
        - Eu sei que voc  inocente, Marco Polo.
        O psiquiatra levantou os olhos e, admirado, disse:
        - Voc no confia na sua melhor amiga? Como pode afirmar
que eu sou inocente?
        - Eu no sei direito o que est acontecendo, mas creio na sua
inocncia.
        E lhe contou por que acreditava nele. Em primeiro lugar, por tudo o que ele revelara para as mulheres; em segundo, por sua total coerncia; em terceiro,
pela afetividade e paixo pela humanidade que sempre demonstrara. Depois de deixar seu amigo surpreso, ela adicionou:
        - Em quarto lugar, eu acredito em voc porque percebi uma
grande contradio no relato de Lisa.
        E contou os detalhes de sua suspeita. Depois de falar, Elizabeth permaneceu em silncio, lembrando-se de alguns fatos: a tentativa de suicdio de Sarah,
todo o cuidado de Marco Polo com sua filha, de como a ajudara a vencer a bulimia. Recordou a rejeio de Robert, mas tambm das conquistas do comit, do desfile
de Ives Latorra, das conferncias fascinantes que ele e Falco proferiram.
        Aps essa viagem no tempo, voltou para a realidade, viu o amigo atrs das grades e tentou inutilmente disfarar suas lgrimas. Vendo sua tristeza, Marco
Polo, apesar de abatido, ainda tentou consol-la:
        - Elizabeth, "no chore por mim, chore pelas mulheres e por
seus filhos" - disse o psiquiatra repetindo as doces palavras do
Mestre dos Mestres. Mas em seguida olhou para si e, ao perceber
sua prpria fragilidade, comentou: - Tenho muitos defeitos, no
mereo suas lgrimas. Sou um pequeno mortal que por instantes existe e logo se dissipa no calor do tempo.
        Ela entendeu o que ele queria dizer e o admirou ainda mais. Ento perguntou:
        - Por favor, conte-me o que realmente aconteceu entre voc e
Lisa. Seja sincero.
        Marco Polo levantou suavemente a cabea e rasgou sua alma. Elizabeth ficou estarrecida com o relato. Indignou-se profundamente com Lisa, e nesse momento
a amizade e confiana que a ligavam  amiga desvaneceram-se. Marco Polo no condenava Lisa, pois afinal ela era sua paciente, e ele no tinha elementos para julg-la,
pois no entendia o que acontecera. Elizabeth tambm no imaginava quais teriam sido os motivos da acusao, mas desconfiava que uma srdida trama fora encenada
nos bastidores para destruir a imagem dele. E os resultados foram devastadores.
        Elizabeth enviou mensagens para as dirigentes do comit sobre tudo o que estava acontecendo. Relatou que foras ocultas tinham elaborado o mais execrvel
compl contra o movimento. A histria real do que sucedera deixou as mulheres por um lado perplexas, mas por outro lado deu-lhes flego para continuarem unidas.
Desde o incio da organizao do movimento suas vidas tinham sido subvertidas, passaram a enfrentar grandes sobressaltos, mas o ltimo golpe fora excessivo.
        Se estivessem divididas, certamente seriam derrotadas; mas, se ficassem unidas, teriam alguma chance de sobreviver. Como provar a inocncia de Marco Polo
e resgatar o crdito das suas idias? Como recuperar a dignidade do movimento e reacender a chama gravemente abalada em milhes de mulheres? Eram tarefas quase impossveis,
sobretudo porque desconheciam seus inimigos. Alm disso, provar a inocncia de Marco Polo seria condenar Lisa. De qualquer forma, o movimento sairia do episdio
com enormes cicatrizes.

?
        A repercusso pblica do julgamento de Marco Polo foi to grande que ele enfrentou uma corte com um corpo de jurados. Devido ao impacto social do caso, o
juiz decidiu que o julgamento poderia ser transmitido diretamente. Toda a mdia estava a postos.
        Inmeras pessoas, inclusive grandes empresrios, se concentraram em acompanhar o destino do homem que encorajara as mulheres a fazerem um dos maiores levantes
mundiais de todos os tempos. As mulheres do comit compareceram ao julgamento. No sabiam o que fazer por Marco Polo, mas no podiam abandon-lo. Quando ele entrou
algemado no tribunal, estava abatido, plido, oito quilos mais magro. Quando as viu, desacelerou os passos. Em seguida, ao perceber a presena de Falco, deu um
leve sorriso, como se recordasse das aventuras que vivera com o mestre da filosofia.
        Depois fixou seus olhos em Anna. Sentiu vontade de correr e abra-la, como fizera tantas vezes no meio da multido! Queria gritar que a amava intensamente,
mas suas mos estavam presas e sua alma, amordaada. De repente, logo antes de se sentar, viu o bilionrio Lcio Fernandes, seu sogro, que sempre o rejeitara visceralmente.
O grande empresrio estava acompanhando a filha nesse humilhante julgamento. "Depois da condenao", Lcio pensava, "Anna certamente pedir o divrcio." O ar indecifrvel
de Lcio ora manifestava uma aparente solidariedade  filha ora uma indisfarvel rejeio pelo ru.
        Na fase do interrogatrio o juiz ouviu Marco Polo. O magistrado fez vrias perguntas procurando saber a verso do acusado. O psiquiatra falou pouco, com
frases curtas. Disse que tinha grande apreo por Lisa, que no entendera sua reao, pois queria proteg-la no momento em que ela entrara numa crise. Como ele no
era contundente em acusar Lisa, e apenas declarava sua inocncia, sua fala em nada o beneficiava.
        Depois o promotor inquiriu o ru. Fez uma srie de perguntas, algumas inconvenientes e descabidas, sob o protesto do defensor, que no tinha grande entusiasmo
em defend-lo. David, o promotor, detestava o movimento contra a ditadura da beleza. Machista autoritrio, considerava Marco Polo no apenas um psicopata sexual,
mas tambm um anarquista, que tumultuava a ordem social e colocava em risco a democracia e o sistema capitalista.
        David estava no terceiro casamento. Suas ex-esposas no tinham suportado seu mau humor e sua agressividade psquica. Nunca fora amvel, generoso e altrusta
com elas. Pequenas contrariedades geravam nele reaes desproporcionais.
        - Um ser humano, e muito mais um psiquiatra, para ter um mnimo de dignidade, precisa ser um servo da honestidade - disse o promotor, olhando fixamente para
o ru. Em seguida perguntou: - Na tarde do dia 23 de agosto o senhor tentou abusar sexualmente de Lisa? Faa um favor para a sociedade, seja transparente, reconhea
seu crime.
        Houve um silncio prolongado. A platia estava atenta e a televiso filmava cada expresso do ru. Ento, para a surpresa de todos, Marco Polo disse:
        - Lisa  uma pessoa encantadora. Sempre a admirei. S ela
pode dizer se sou inocente ou culpado.
        O juiz e os jurados ficaram confusos com as palavras de Marco Polo. Nunca tinham visto um ru se manifestar daquele jeito. Suas reaes colocavam mais combustvel
na ira do promotor, que fazia perguntas cada vez mais contundentes contra ele.
        - Esto vendo, senhores jurados, a frieza crua, sarcstica, desse
homem. Ele  um destruidor dos sentimentos humanos, por isso
no consegue expressar suas emoes.
        O advogado de defesa proclamou:
        - Protesto, meritssimo!
        O protesto foi aceito, com as advertncias do magistrado. O promotor continuou a indagar o ru. Marco Polo, aparentemente calmo, repetiu o que j tinha dito
ao magistrado. Por mais que o promotor fizesse perguntas inconvenientes, no mudava o tom de voz. s vezes, optava pelo silncio. O promotor foi ficando inquieto
e irritado com a economia de palavras e a passividade do ru.
        Aps essa fase ouviram-se as testemunhas de acusao e de defesa. Chegou a vez de Lisa testemunhar. Ela estava sentada na cadeira como testemunha que jurara
dizer a verdade, sob pena de priso. O promotor pediu em alto e bom som que ela relatasse as reaes de Marco Polo na referida data.
        Os olhos de Lisa ficaram midos e sua voz, embargada. Diante disso, o promotor a incentivou.
        - Lisa! Eu sei que voc est chocada, sem condies de se expressar, mas olhe para os jurados e conte-nos o que aconteceu naquela tarde fatdica.
        Lisa abaixou levemente a cabea e descreveu como Marco Polo tentara seduzi-la e como ela resistira  investida. Diante da sua resistncia, ela prosseguiu,
ele ficara irado, ansioso, e tinha comeado a rasgar a sua roupa, expondo-lhe os seios. Tinha sido intil tentar defender-se, pois quanto mais ela procurava afast-lo,
mais ele usava a fora.
        - Foi horrvel! - completou.
        - Ento, em vez de encontrar um mdico que a respeitasse e
cuidasse da sua sade, voc encontrou um monstro - David falou com aspereza, comeando a forar um veredicto antes das
alegaes finais do julgamento.
        O defensor protestou. O juiz novamente atendeu ao protesto.
        Em seguida, o promotor ouviu os reprteres e fotgrafos que presenciaram a cena. Todas as respostas minavam claramente a inocncia de Marco Polo. Pelo relato
contundente das testemunhas de acusao, parecia no haver como escapar de uma deciso condenatria.
        Falco se contorcia na platia, queria sair em defesa do amigo, mas no podia. Lembrou-se dos tempos de mendigo, quando vivia  margem da sociedade. Teve
saudades, pois no possua nada naquela poca, mas era mais livre. Ningum era capaz de conter suas palavras. Agora, sentia-se um cidado do mundo, um calado espectador
de uma pea teatral em cujo roteiro no podia interferir.
        As mulheres do comit estavam abismadas. Dois batalhadores da causa das mulheres, Marco Polo e Lisa, encontravam-se em lados opostos no tribunal. Era um
quadro que asfixiava a emoo, perturbava a inteligncia, uma tempestade insuportvel. No fundo, s havia um ganhador: o sistema que extorquia a felicidade das mulheres.
        Muitos advogados se recusaram a assumir a causa de Marco Polo, pois, atendendo s suas convices e no querendo pr em risco sua imagem social, no militavam
em causas que evidenciassem um ato criminoso de estupro, sobretudo com provas to evidentes. O advogado contratado, um criminalista, no era um especialista nem
entusiasta de debates orais nos tribunais. Quando entrou em cena, ateve-se a expor uma simplria e genrica defesa. O prprio Marco Polo teve culpa nessa escolha,
pois, sabendo que no conseguiria reunir provas capazes de absolv-lo, deixou de fornecer alguns elementos para o seu defensor. O imbatvel pensador estava paralisado,
embotado, sem capacidade para reagir.
        Quando pensava que sua imagem fora dilacerada e que isso estava afetando profundamente Sarah, Rosie e outros pacientes que tinham construdo uma delicada
plataforma de credibilidade em seu tratamento, ele desmoronava. Torturava-se internamente. Tambm estava preocupadssimo com milhares de mulheres que haviam confiado
em seus argumentos contra a ditadura da imagem, mas que agora o viam como traidor do movimento.
        Logo aps o trmino da instruo, onde foram ouvidas as testemunhas arroladas, e antes de iniciar a fase final do julgamento, ocorreu um incidente. O juiz
determinou a realizao de uma pausa na sesso. De repente, manifestando grande apreenso, o Dr. Paul McMeel, pai de Rosie, entrou no gabinete do magistrado e pediu
para conversarem a ss.
        O Dr. McMeel era conhecidssimo no meio jurdico. Depois de fechar a porta, o renomado criminalista teve uma atitude inesperada, comeando a chorar diante
do magistrado. Ele, que sempre demonstrara segurana, intrepidez e persuaso no tribunal, agora parecia o mais frgil dos homens. "Qual  a causa desse pranto?",
o juiz se perguntava, inquieto.
        O ilustre advogado contou ento a dramtica histria de sua filha, sua desnutrio severa, o risco de vida que ela correra, os tratamentos frustrados. O
juiz, que s conhecia a eloqncia jurdica do Dr. McMeel, entrou em contato com seus sentimentos mais angustiantes. Entendeu que estava diante de um homem arrasado.
        - Jamais me senti to impotente. Todas as minhas conquistas perderam o valor diante da anorexia de minha filha. Eu me sentia um pai miservel, desesperado,
desesperanado.
        Falou ento de como o Dr. Marco Polo tinha aparecido em sua histria. Contou como, com espantosa habilidade, ele resgatara Rosie para a vida. Pouco a pouco
ela refez sua auto-imagem, voltou a comer sem culpa, saiu de sua profunda crise depressiva e deu um salto de qualidade em seu prazer de viver. Leu um trecho de uma
carta que Rosie escrevera para Marco Polo, mas no pudera entregar, um dia depois de estourar o escndalo.


?
         Hoje  meu aniversrio. Obrigado, Dr. Marco Polo, por tornar mais leve a minha emoo e mais pesado o meu corpo. Voc  mais do que um psiquiatra, voc
 meu grande amigo. J ganhei 21 quilos; atualmente estou com 50 quilos de felicidade. Como  bom viver sem esperar muito dos outros! Como  bom traar os prprios
caminhos e escrever a prpria histria! No sou mais obrigada a ser perfeita. Apesar das minhas falhas, estou apaixonada por mim. Descobri finalmente que sou belssima.
Obrigado por me ensinar o valor das coisas simples.


?


        Aps a leitura dessa carta, o Dr. McMeel disse ao magistrado: - Jamais interferi numa sesso de julgamento, intercedendo por um ru, sobretudo sabendo que
assistimos a um caso de inigualvel repercusso mundial. Sei que a minha postulao vai contra as regras jurdicas, mas minha filha est internada num hospital,
se recusa a comer e corre o risco de morrer. Ela insiste em ver o Dr. Marco Polo pela ltima vez. No posso me sentir culpado por no ter tentado tudo para salv-la.
        Em seguida, o criminalista respirou longamente e fez um pedido:
        - Permita-me, neste momento, invocar a Constituio Federal de nosso pas, que garante o inalienvel direito  vida e  existncia humana. Peo, excelncia,
no apenas como realizao do ltimo desejo de minha filha, mas talvez como ltimo ato de um pai que tudo faz para manter a vida de sua filha pulsando que atenda
o meu pedido. Permita-me conduzir o ru para ver Rosie por um breve momento.
        Realmente, o pedido era incomum. Entretanto, como se tratava de um caso gravssimo, e diante dos argumentos persuasivos do Dr. McMeel, o juiz, invocando
a Carta Suprema, abriu um precedente. No dia seguinte liberou o ru para ir ao hospital escoltado, mas por apenas uma hora. Como o percurso de ida e volta demoraria
mais de 40 minutos, o psiquiatra teria pouco tempo para conversar com Rosie.
        Quando Marco Polo ficou sabendo que Rosie havia interrompido sua alimentao, ficou inconsolvel. Saiu algemado e escoltado, na companhia do Dr. McMeel.
        Os guardas ficaram do lado de fora do quarto controlando o tempo. Rosie havia pedido para seu pai estar presente no quarto. O Dr. McMeel entrou com Marco
Polo e, para a surpresa dos dois, Sarah se encontrava l, sentada na ponta da cama de Rosie. O psiquiatra as cumprimentou com um aceno da cabea e se aproximou do
leito. O Dr. McMeel ficou um pouco mais distante, observando os fatos.
        Rosie emagrecera um pouco, mas Marco Polo imaginou que em um ou dois meses o quadro dela se agravaria e ela poderia retornar ao estado anterior. Quando tentou
falar com ela, Rosie tapou os ouvidos. O psiquiatra angustiou-se. Um inquietante minuto se passou. Logo depois, Rosie fitou os olhos dele e disse, spera e surpreendentemente:
        - Eu no falo com gente fraca!
        Marco Polo ficou estupefato com sua reao.
        - Como assim, Rosie? - indagou, confuso diante do seu forte tom de voz.
        Rosie se calou e Sarah tomou a frente e falou com uma segurana slida:
        - Voc nos ensinou a ser fortes. Agora est sendo um fraco!
Marco Polo ficou chocado. Levou as mos algemadas ao rosto, no acreditando no que estava ouvindo. O Dr. McMeel tambm estava boquiaberto, sem entender as reaes
das duas. Rosie continuou, instigando a inteligncia do seu psiquiatra:
        - Voc nos ensinou a no desistir da vida. Agora est desistindo da sua liberdade. Que absurdo! Voc no vive o que fala? - expressou indignada.
        - Por que no tem foras para se defender? Por que est com
sua auto-imagem ferida? - falou Sarah provocando um choque
de lucidez na deprimida mente de Marco Polo.
        Em seguida, Rosie deu um golpe fatal na sua fragilidade:
        - Voc est sendo escravo da sua imagem, como eu e Sarah
ramos escravas de uma imagem doentia. Mostre-me as suas al
gemas - falou com autoridade. Ele, assombrado, as mostrou. E
ela completou: - Olhe para elas. Onde est o homem que nos fez
romper as algemas que aprisionavam nossa emoo? - A jovem
que o questionava tinha sido prisioneira de um dos mais drsticos crceres humanos.
        O Dr. McMeel ficou atnito. Marco Polo ficou pasmado. De repente, comeou a sorrir, enquanto seus olhos inundavam-se de lgrimas e seu rosto, de alegria.
Ele sempre acreditara que cada paciente tem muito a ensinar para seus psiquiatras e psiclogos. Chegara a vez de suas queridas pacientes ajud-lo. Elas tinham vivido
debaixo da ditadura da imagem fsica, e ele estaa vivendo debaixo da ditadura da imagem psquica, da masmorra da calnia.
        Marco Polo tentou justificar sua falta de ao, explicando por que no fora forte o suficiente durante o julgamento. Contou uma histria comovente para ilustrar
sua atitude. Falou do assassinato do grande imperador romano Jlio Csar.
        Disse que, embora fosse o maior dos imperadores romanos, Csar vivia problemas com o Senado. O imperador tinha um grande e fiel amigo, Brutus, que estava
sempre ao seu lado. Entretanto, algo inesperado aconteceu. Brutus tramou uma traio junto com os senadores. Prepararam uma sinistra armadilha. Combinaram que cada
pessoa deveria dar uma punhalada no imperador para que ningum fosse incriminado sozinho.
        - Certo dia, os traidores executaram a trama. Pegaram Jlio Csar de surpresa e comearam a esfaque-lo pelas costas sem nenhuma compaixo. Apesar das feridas
penetrantes, da dor e do sangue que jorrava do seu corpo, o imperador resistiu, lutando como um valente contra os infames. No queria desistir da vida. De repente,
no meio do tumulto, seus olhos se encontraram com os de Brutus com um punhal nas mos. Quando viu, entre os traidores, seu querido amigo, os olhos de Csar se encheram
de lgrimas, suas foras se dissiparam. Assim, o grande imperador desistiu de lutar e se entregou.
        Rosie e Sarah ficaram emocionadas. Com um n na garganta, perceberam o que o golpe de Lisa representara para Marco Polo. Entenderam que no h gigantes nesta
vida, pois todos se dobram aos golpes de uma grande decepo. Sabiam desde o comeo que seu psiquiatra era inocente, embora tivessem ficado abaladas com as manchetes.
        Quando Elizabeth contou para as duas que Marco Polo fora trado, a notcia s confirmou o que elas j intuam. Diante disto, decidiram construir uma trama
para ajud-lo. Rosie simulou que estava passando mal e, pela primeira vez, pediu para ser internada. Seu pai no sabia de nada. Rosie queria que ele presenciasse
toda a cena que armaram e se tornasse o advogado de Marco Polo, pois sabia que o pai, embora um requisitado criminalista, no defendia psicopatas sexuais.
        Quando Marco Polo contou a histria, elas compreenderam sua atitude, mas nem assim concordaram com sua inrcia. Pegaram duas barras de chocolate e comearam
a com-las prazerosamente, sem oferecer-lhe e sem dizer qualquer palavra. Lambuzaram deliberadamente a cara e s ento disseram:
        - Meu Deus! Como tem gente frgil neste mundo! Como tem gente que desiste to facilmente dos seus sonhos!
        Novamente, o psiquiatra ficou extasiado, radiante. Nunca se sentiu to feliz em ser chamado de frgil. Entendeu aonde elas queriam chegar. O eu de Marco
Polo deixou de ser um servo dos seus conflitos, vtima da traio e da rejeio social, e comeou a fazer escolhas.
        Sentiu que precisava tornar-se autor da sua histria. No podia desistir do sonho de liberdade, ainda que fosse apenas para t-la dentro de si mesmo. De
repente, os guardas entraram. O escasso tempo j havia se esgotado. Pegaram-no pelo brao e ele s teve tempo de olhar para trs e dizer a Sarah e Rosie:
        - Obrigado! Muito obrigado. No desistirei!


CAPTULO 18
        O Dr. McMeel acompanhou a escolta de Marco Polo. No caminho, disse que, se ele desejasse, gostaria de assumir sua defesa. O psiquiatra aceitou, e o criminalista
falou que, para que pudesse empreender uma defesa criteriosa, precisaria conhecer sua histria de vida e o relato detalhado do que acontecera realmente. Todas as
testemunhas j tinham sido ouvidas, o julgamento j estava na fase das alegaes finais e a condenao de Marco Polo era tida como certa.
        Motivado pelas duas jovens, o psiquiatra teve, assim, longas conversas com seu novo defensor. Abriu os principais captulos da sua vida, falou sobre sua
profunda amizade com Falco, sua viso de mundo, seus projetos de vida. Marco Polo se considerava um "ser humano sem fronteiras" que no conseguia viver apenas para
a sua profisso, seu bolso e seu futuro. O criminalista ficou surpreso em conhecer a sua fascinante histria.
        Para o pensador da psiquiatria e da psicologia, a espcie humana estava doente, dividida e dilacerada por preconceitos e discriminaes. As pessoas encontravam-se
embriagadas pelo individualismo, viviam em funo de seus grupos sociais, polticos e religiosos. Elas no pensavam como espcie, e por isso raramente eram apaixonadas
pela humanidade. Marco Polo disse ao seu defensor que queria gritar para as pessoas de todas as naes que na imensa base do funcionamento da mente no havia reis
e sditos, psiquiatras e psicticos, rabes e judeus, pessoas belas e feias, mas seres humanos que possuam igualmente um complexo teatro intelectual. Esta viso
sobre a vida o motivava a lutar por projetos sociais.
        Enquanto o ouvia, o Dr. McMeel ficava assombrado, jamais conhecera algum to espetacular. Percebeu que no estava apenas diante de um psiquiatra, mas de
um ser humano de rara sensibilidade, um poeta da vida. Entendeu por que Rosie, depois de se tratar com ele, no apenas tinha superado a anorexia como se tornara
uma jovem com inteligncia multifocal, que enxergava a vida por vrios ngulos, que era capaz de pensar antes de reagir e de se doar aos outros sem esperar retorno.
        Marco Polo destacou os motivos pelos quais tinha resolvido apoiar a luta das mulheres. Estava completamente indignado com os lderes polticos e sociais
e at com parte da comunidade cientfica, que no percebiam o rombo no inconsciente produzido pelas sociedades de consumo. Sabia dos inegveis avanos gerados pela
democracia e pelo capitalismo, mas dissecou algumas chagas do sistema: a tortura socialmente aceita das jovens modelos, a tirania dos desfiles, o massacre da auto-imagem
das adolescentes e das mulheres, a mensagem subliminar das propagandas que usam o esteretipo da beleza, o consumismo ertico insacivel, a identidade humana tratada
como um nmero de carto de crdito.
        O Dr. McMeel parecia um pequeno aluno deslumbrado diante do conhecimento que absorvia. Completamente impressionado com a sabedoria de Marco Polo, o defensor
lhe disse:
        - Jamais um ru me deu lies de vida. Hoje aprendi que, apesar da minha riqueza, fao parte do rol dos miserveis. Tenho amado minha famlia, meus amigos
e meu grupo social, mas nunca amei minha espcie. Sou um americano que ama o meu pas, mas no um ser humano sem fronteiras.  a primeira vez que vejo um ru verdadeiramente
livre.
        Em nova sesso, quando o juiz anunciou no tribunal o novo advogado de Marco Polo, um burburinho correu entre os presentes. As mulheres do comit animaram-se.
O promotor ficou abalado, pois esperava um debate final faclimo. Para ele, era inevitvel que o ru fosse condenado como um psicopata sexual.
        O juiz interrompeu o julgamento por cinco dias para que o novo advogado de Marco Polo tivesse tempo para estudar todo o processo, preparando as suas alegaes
finais. Nessas alegaes, ele tentaria demonstrar a inocncia do ru ou mostrar que no havia provas suficientes para conden-lo, muito embora os indcios fossem
contundentes contra o ru. Na realidade, no havia muito a fazer, pois a fase processual em que as testemunhas deveriam ser ouvidas j havia terminado e elas no
poderiam ser reinquiridas, a no ser diante da existncia de fatos novos.
        Ao ler e reler os autos do processo, ao estudar os depoimentos de todas as testemunhas, o Dr. McMeel vislumbrou um fato indito no explorado pela defesa.
O novo defensor observou uma contradio entre o depoimento de Lisa e o de Marco Polo em relao  convocao dos jornalistas. Ela afirmara que os jornalistas haviam
comentado que fora Marco Polo quem marcara a entrevista coletiva em seu consultrio. Entretanto, em seu depoimento, o psiquiatra negara veementemente esse fato.
        Diante disto, o Dr. McMeel solicitou ao magistrado que oficiasse s empresas de televiso e imprensa escrita para que verificassem em seus registros e histricos
quem tinha sido o autor da solicitao da entrevista. Requereu, ainda, a quebra de sigilo telefnico das linhas particulares e profissionais do Dr. Marco Polo, a
fim de averiguar o destino de seus contatos telefnicos nos ltimos 90 dias que antecederam os fatos.
        Com as respostas enviadas, constatou-se que no havia sido identificado o autor da solicitao e que nos registros das empresas de telefonia nenhuma das
linhas telefnicas de Marco Polo tinha contatado qualquer empresa de mdia.
        O fato, at ento inexplorado, tornou-se um forte motivo para que algumas testemunhas que com ele se relacionavam fossem novamente ouvidas. Os reprteres
e fotgrafos foram mais uma vez intimados a testemunhar. Quando o novo defensor os questionou, eles confirmaram que viram Lisa abaladssima, rubra, com a roupa rasgada
e o trax arranhado. Disseram que o Dr. Marco Polo a segurava fortemente, deixando marcas em seus braos, e, aos gritos, ela dizia que ele tentara estupr-la.
        Atuante e fiel  sua conscincia, o Dr. McMeel, enquanto inquiria as testemunhas, fez alguns questionamentos:
        - Como pode um psicopata ter a coragem de violentar uma
vtima sabendo que h pessoas na sala de espera? Isso  muito estranho! - Olhou para os jurados e indagou: - Quem marcou
essa entrevista coletiva?
        As respostas dos jornalistas eram sempre as mesmas:
        - Segundo nos disseram, o prprio Dr. Marco Polo.
        Analisando os depoimentos colhidos nos testemunhos na audincia e diante dos documentos novos que instruram o processo, o magistrado decidiu convocar Elizabeth
como testemunha do julgamento.
        Na sesso pblica marcada especificamente para ouvir Elizabeth, ela, ao ser inquirida, afirmou contundentemente que durante o prolongado contato que tivera
com o Dr. Marco Polo observara que, apesar de lutar desesperadamente pelos direitos das mulheres, ele s falava com a imprensa em casos estritamente importantes
para o movimento, e somente quando procurado. Diante disso, o Dr. McMeel expressou:
        - Parece estranho que o ru, que no possua apreo por entre
vistas, tenha marcado uma entrevista coletiva. Mais estranho ainda  ter marcado uma entrevista coletiva em seu consultrio numa data especfica e ter escolhido
esse momento para manifestar sua psicopatia. Os psicopatas so estpidos, mas no burros proclamou alto, procurando alcanar o imaginrio dos jurados.
        O argumento do Dr. McMeel era razovel, mas no conseguia descaracterizar a fora das testemunhas que flagraram Marco Polo num ataque brutal a Lisa. O corpo
de jurados no estava plenamente convencido de que o Dr. Marco Polo no era afeito a dar entrevistas. Essa reao poderia ser apenas uma jogada de marketing pessoal.
Alm disso, Lisa no tinha nenhum antecedente que a mostrasse como uma doente mental, sujeita a crises histricas e capaz de num delrio dizer coisas irreais. Nos
ltimos tempos, ela estava apenas com uma leve depresso devido  sobrecarga de estresse. Sempre foi uma profissional coerente, inteligente, socialmente admirada
e dosada em seus comportamentos.
        O julgamento entrou em sua ltima fase. Comearam as razes finais. A promotoria e a defesa exporiam seus argumentos para persuadir os jurados. O promotor
estava convencido de que Marco Polo permaneceria preso por seu ato criminoso. Projetando sua ira no ru, usou sua brilhante eloqncia para esfacelar a moral de
Marco Polo e qualific-lo como o mais crpula dos homens, o mais perigoso dos seres.
        - Este homem  um psicopata assombroso! Iludiu milhes de mulheres dizendo que lutava por sua causa - falava olhando nos olhos dos jurados. E continuou:
- Usou sua profisso para executar suas perverses sexuais. Como pode um mdico que jurou tica atacar mulheres indefesas? Uma pessoa que procura um psiquiatra o
faz porque est sofrendo intensamente. Ela est desprotegida e espera encontrar um profissional da mais alta confiana para contar seus segredos. E o que a delicada
Lisa encontrou? - O promotor fez uma pausa e, aos brados, afirmou para os jurados:
        - Um monstro! Um criminoso frio e calculista. J pensaram nas seqelas psicolgicas que Lisa ter?
        O psiquiatra apaixonado pela humanidade foi descrito como um verme pela promotoria- Enquanto sua identidade era atirada ao cho e sua personalidade pisoteada,
ele pensava nas pessoas profundamente feridas e abatidas de quem ele cuidara atenciosamente. Essas lembranas ocupavam o palco da sua mente, e lgrimas ocupavam
o palco dos seus olhos. Deste modo, viveu o momento mais triste da sua vida. Falco, Anna e as mulheres do comit sentiam os golpes recebidos por Marco Polo. Finalizando
seu debate, o promotor foi ainda mais cortante:
        - Eis aqui um psicopata sexual em carne e osso! Ele desonrou
a nobre medicina! Desonrou seus pacientes e desonrou a sociedade. Ontem foi Lisa, amanh podero ser suas filhas. Os fatos no mentem! Por isso esta promotoria est
convencida de que esse manaco sexual deve ser condenado!
        Aps as arrasadoras alegaes finais do promotor, a defesa iniciaria suas ltimas consideraes. No dia anterior, Marco Polo tivera uma conversa franca com
o Dr. McMeel sobre o seu futuro. Chocou-o com essas palavras:
        - Sei que minha imagem j est estilhaada e ser ainda mais
dilacerada pela promotoria. Tenho conscincia de que minhas
chances so mnimas no julgamento. Entretanto, ningum pode
encarcerar minha emoo, se eu no permitir. Resolvi ser livre
dentro de mim, mesmo que v para uma priso. Resolvi tambm
usar as suas palavras finais mais em favor da luta pelas mulheres
e adolescentes do que em meu favor.
        Como Marco Polo no poderia fazer sua autodefesa, pediu que o Dr. McMeel fosse seu porta-voz no apenas diante dos jurados, mas diante das cmeras de televiso
e de um batalho de reprteres. Juntos, elaboraram um plano de defesa. Para espanto do defensor, o psiquiatra pediu que no atacasse a moral de Lisa.
        O Dr. McMeel entrou em cena. Com voz vibrante, disse que,  exceo de Lisa, todos os pacientes elogiavam a sensibilidade, a inteligncia e a tica do Dr.
Marco Polo.
        - Como pode um homem que leva seus pacientes a se apaixonarem pela existncia ser considerado um psicopata? O seu currculo acadmico e de vida depem a
seu favor.
        Em seguida, contou alguns projetos de Marco Polo que poucos conheciam. Disse que o Dr. Marco Polo treinava gratuitamente professores para fazer da sala de
aula um canteiro de inteligncia e no de estresse. Estimulava os mestres a formarem pensadores e no repetidores de informao. Treinava psiclogos a explorarem
as riquezas insondveis que se encontravam submersas nos escombros das pessoas psiquicamente doentes. Desenvolvia programas contra o abuso sexual na infncia. Aps
esse relato, o defensor se aproximou dos jurados e indagou:
        - Que psicopata consegue nutrir a inteligncia de educadores
contribuindo para formar pensadores? Que psicopata tem afetividade e capacidade para ajudar as crianas contra a ao de outros psicopatas? Senhores jurados, h
um odor estranho no ar. Um compl misterioso contra o meu cliente. - A platia fez um silncio indito num tribunal.
        O pblico agitava-se com a instigante eloqncia do defensor. Falco se contorcia na cadeira como se quisesse participar do debate. De maneira emocionante,
o Dr. McMeel comeou a falar sobre os motivos pelos quais seu cliente estava sentado no banco dos rus. Contou uma histria extremamente triste para ilustrar a arquitetura
dos seus pensamentos:
        - Na dcada de 1970 houve uma ditadura comunista no Camboja que dizimou 20% da sua populao. Essa tranqila e pacata nao budista experimentou uma das
maiores atrocidades da histria, orquestrada pelo ditador Pol Pot. Fecharam-se escolas, assassinaram crianas, adolescentes, adultos e idosos das formas mais brutais.
Bebs foram atirados nas copas das rvores e perderam suas vidas. Mulheres foram mutiladas com faces e depositadas em valas comuns.
        Milhares de espectadores que acompanhavam ao vivo o julgamento de Marco Polo ficaram comovidos com as palavras do Dr. McMeel, mas no sabiam aonde ele queria
chegar. Em seguida, o defensor olhou para a cmera de TV e adicionou:
        - Enquanto o povo passivo do Camboja era dizimado impiedosamente por uma das mais atrozes ditaduras, os grandes
lderes das naes dormiam tranqilos e alienados. A Organizao das Naes Unidas no reagiu com veemncia na poca. Pior
ainda, quando o ditador Pol Pot foi deposto, a ONU garantiu na
organizao o assento desse ditador por 10 anos. D para acre
ditar nessa atitude? Isso equivaleria a ter mantido Hitler como
lder da Alemanha por 10 anos aps o trmino da Segunda
Guerra Mundial, de 1945 a 1955, e Pol Pot no foi menos cruel
do que Hitler. Os lderes das naes viveram uma amnsia coletiva inaceitvel e injustificvel naquele cruel perodo. Sob seus
olhos ocorreu uma das maiores calamidades humanas.
        O promotor olhou furtivamente para Marco Polo e depois para o Dr. McMeel, desconfiando do objetivo deles. No entanto, no podia fazer mais nada. O defensor
continuou a tecer seus argumentos. Movimentou-se em direo aos jurados, fitou suas faces e expressou:
        - Senhores e senhoras, uma outra ditadura gravssima tem
penetrado no tecido da alma humana e feito em todo o mundo
centenas de milhes de vtimas. S que nessa ditadura no se mata
o corpo, mata-se a felicidade, assassina-se a tranqilidade, amordaa-se a liberdade de fazer escolhas. As sociedades de consumo tm orquestrado um processo de excluso
que vem destruindo o direito de as pessoas se sentirem belas, aceitas, atraentes, queridas, amadas. S para vocs terem uma idia, mais de 100 milhes de crianas
e adolescentes nas escolas de todo o mundo so humilhadas e rejeitadas por causa da anatomia do seu corpo. Podem imaginar a dor que elas experimentam!
        Na seqncia o defensor apontou o Dr. Marco Polo como uma das grandes vozes contra essa cruel discriminao. De repente, os olhos do Dr. McMeel comearam
a ficar midos. Foi a primeira vez que ele chorou num tribunal. Num clima de sensibilidade e comoo, contou a histria de sua filha. Rosie incentivara seu pai a
torn-la pblica.
        - A ditadura da beleza invadiu sorrateiramente minha casa e atingiu minha querida filha Rosie. Ela no tinha a beleza padronizada pela mdia, mas era belssima.
Por ser gordinha, alguns dos seus colegas de classe zombavam dela. Pouco a pouco minha filha comeou a rejeitar seu corpo e a bloquear seu apetite. Sua desnutrio
se tornou maligna. Eu implorava para que comesse, mas ela trancava a boca. Enquanto Rosie morria fisicamente, eu morria emocionalmente. Tornei-me um pai frustrado,
falido, sem esperana. Tinha tudo e no tinha nada. Lembro-me de que daria tudo o que havia conquistado, dos ttulos acadmicos aos meus bens materiais, em troca
da sua sade. Eu poderia ser um mendigo, desde que minha filha no morresse. Eu me sentia o mais infeliz dos homens.
        Em seguida, disse que a anorexia nervosa da filha levou-a a perder quase 40 quilos. Corria gravssimos riscos de ter falncia mltipla de rgos. Foi internada
10 vezes. Quando ele pegava seu corpinho magrrimo para lev-la ao hospital e os ossos dela pressionavam sua pele, entrava em desespero e comeava a ter dio do
sistema que vendia um padro psictico de beleza, que classificava seres humanos de extraordinria inteligncia e qualidade humana unicamente pela esttica, como
animais, avaliando pelas curvas do corpo e no pela grandeza da personalidade.
        O Dr. McMeel comentou que felizmente, graas ao tratamento do Dr. Marco Polo, pouco a pouco Rosie superou uma das piores prises do mundo. Enquanto o defensor
discursava, vrias pessoas na platia e nas casas se emocionavam. O defensor disse ainda que havia cerca de trs milhes de pessoas com anorexia nervosa somente
em seu pas, um nmero de vtimas maior do que as que foram assassinadas no Camboja. Entretanto, mais uma vez, os lderes da sociedade, de polticos a empresrios,
esto vivendo uma amnsia coletiva diante dessa dramtica ditadura. O terror no menos violento do que o patrocinado pela ditadura do Camboja est prximo de ns,
mas estamos dormindo. Em seqncia, afirmou:
        - Meu cliente foi golpeado, amordaado, porque tem gritado contra essa ditadura. O sistema no quer v-lo livre. Desde que o Dr. Marco Polo, seus amigos
e principalmente as mulheres do comit se levantaram contra o imprio da imagem padronizada, sofreram ataques e perdas. Todavia, milhes de mulheres tm resgatado
seu prazer de viver, e milhares de suicdios, anorexias, bulimias tm sido evitados.
        Fixando os olhos nos jurados, disse:
        - O Dr. Marco Polo comentou que Lisa sempre foi uma pessoa maravilhosa, uma grande amiga. Quando repentinamente ela comeou a rasgar suas vestes em seu consultrio
e a arranhar o prprio corpo, ele pensou que ela estava tendo um surto psictico. Ento, segurou-a fortemente para que no se ferisse. Tinha medo de que ela se atirasse
pela janela. Nesse momento, os jornalistas e fotgrafos entraram no consultrio, e ela, aos gritos, o acusou. Lisa acusou um homem inocente.
        Diante disso, o defensor, inspirando profundamente, terminou suas razes finais:
        - O Dr. Marco Polo assombrou-me ao dizer que, apesar de estar preso por um crime que no cometeu, ele  livre no nico lugar onde no admite ser um prisioneiro:
na sua prpria conscincia. Independentemente do seu destino nesse julgamento, ele pediu para suplicar s mulheres de todo o mundo para no desistirem dessa luta.
Vale a pena investir na vida. Eu concluo afirmando que o Dr. Marco Polo  um ser humano de rara sensibilidade e sabedoria. Ele no deveria ser condenado, mas aplaudido
por esta corte.
        As pessoas de fato aplaudiram. O juiz, perturbado com essa reao, pediu silncio. Em seguida, fez um recesso para os jurados se reunirem e votarem.


CAPTULO 19
        Nos ltimos dois meses, antes de acusar Marco Polo, Lisa estava angustiada e com dificuldades financeiras. O dinheiro que ganhava com os artigos internacionais
no era suficiente para pagar as suas contas. Logo que ela se desligou do comit, alguns grandes empresrios se aproximaram dela. No comeo, como predadores disfarados,
eles aparentemente defendiam a causa das mulheres.
         medida que conquistaram sua confiana, eles fizeram uma maquiavlica proposta. Ofereceram-lhe dois milhes de dlares, uma quantia que ela precisaria trabalhar
quase 40 anos para ganhar, para ajud-los a expulsar Marco Polo do movimento. Alm disso, ofereceram-lhe o cargo de diretora editorial de uma revista de interesse
geral. Ela resistiu inicialmente, achando absurda a proposta, mas, em vez de se levantar e sair, os ouviu. Eles insistiram dizendo que a presena de Marco Polo era
um cncer para o movimento, que ele manipulava as mulheres e buscava autopromoo. Lisa sabia que esses argumentos eram falsos, mas uma pessoa ambiciosa ouve o que
deseja ouvir.
        Percebendo que ela fora seduzida, relataram-lhe o plano. Disseram que bastava ela ter uma crise no consultrio do psiquiatra, acusando-o em seguida de tentativa
de estupro. Segundo eles, algumas pessoas disfaradas de jornalistas testemunhariam a cena, mas jamais haveria um escndalo na imprensa. Marco Polo seria obrigado,
ante a ameaa de denncia pblica, a afastar-se do movimento. Garantiram que a imagem de Marco Polo seria preservada, mas mentiram para ela. Os jornalistas eram
reais e no sabiam tambm que haviam sido envolvidos pela abominvel trama. Assim, Lisa traiu seu amigo e foi trada pelos que a contrataram.
        Durante todo o julgamento, ela pensava dia e noite no que havia feito. Esmagada pela culpa, desejava em alguns momentos contar a verdade, mas as notcias
tinham ido longe demais. No havia como retornar. Livrar Marco Polo destruiria sua vida. Porm, no final do julgamento, comeou a entrar em profunda crise. Dois
fatos contriburam para isso.
        O primeiro ocorreu quando foi visitar Nicole, que tambm era sua amiga. Quando a foto da modelo sara na capa da Mulher Moderna fazendo as vendas despencarem,
ela ficou abalada e ameaou novamente se isolar em seu quarto. Porm, reergueu a cabea e comeou um tratamento com Marco Polo, que a estimulou a no ser escrava
da opinio dos outros, a resgatar a auto-estima e a ter a coragem de mostrar sua cara ao mundo. Entretanto, quando Marco Polo foi tachado de manaco sexual, Nicole
deprimiu-se, perdeu a confiana nele e em si mesma. Como no estava suficientemente estruturada, recolheu-se novamente ao calabouo do seu quarto. Lisa compreendeu,
assim, a gravidade das conseqncias que sua atitude provocara.
        O segundo impacto se deu quando abriu novamente a caixa de entrada dos e-mails do comit que h dois meses no acessava. Quando era secretria do comit,
e mesmo semanas depois de deixar o cargo, recebia milhares de emocionantes mensagens de pessoas de todas as idades dizendo que tinham perdido a vergonha de si mesmas
e voltado a acreditar na vida. Algumas, que estavam muito doentes, se motivaram a procurar tratamento psiquitrico e psicolgico. Ler essas mensagens irrigava o
nimo de Lisa.
        Entretanto, ao ler os novos e-mails escritos depois do escndalo, comeou a suar frio, ficar ofegante e trmula. Algumas pessoas diziam que tinham perdido
a f na vida. Outras interromperam o tratamento com seus psiquiatras, pois deixaram de confiar neles. Pais escreveram desesperados dizendo que seus filhos comearam
a desenvolver fobia social, no saam mais de casa, s conseguiam fazer amizades virtuais. Inmeras pessoas comentaram que voltaram a se sentir excludas e discriminadas.
Algumas chegaram a dizer que no valia a pena viver.
        As noites maldormidas de Lisa se converteram em insnia. Suas crises aumentaram intensamente. Nunca esquecera de uma frase do prprio Marco Polo: "Quem no
 fiel  sua conscincia tem uma dvida impagvel consigo mesmo." Sua dvida era altssima. Ela estava encarcerada pela culpa. Poderia usar seu dinheiro para fugir
do pas, mas jamais conseguiria fugir de si mesma. Atormentada, no conseguia mais olhar no espelho da prpria alma.
?
        Os sete jurados estavam reunidos para discutir abertamente se o ru era ou no culpado. Apesar da emocionante argumentao do defensor, estavam propensos
a condenar Marco Polo devido s provas relevantes contra ele.
        Subitamente, chegou s mos do promotor um papel. No se sentiu motivado a l-lo, estava apenas interessado na votao dos jurados. Todavia, ao passar os
olhos sobre o contedo, comeou a entrar em pnico. Seu corao palpitante parecia prestes a sair pela boca. Esfregou as mos nos olhos para verificar se o que estava
lendo era real ou pura miragem.
        Entregou o documento ao magistrado, que ficou igualmente chocado. Sua reao foi imediata. Interrompeu a votao dos jurados e marcou uma nova audincia
para ler o documento publicamente. No outro dia, o inesperado aconteceu. O juiz leu o documento: era uma carta de Lisa inocentando o Dr. Marco Polo. Lisa teve a
coragem de estar presente no momento dessa leitura. Na carta, ela confessava toda a trama orquestrada para condenar Marco Polo. Todos ficaram perplexos.
        Diante da confisso da vtima, a rainha de todas as provas, o promotor pediu desculpas ao ru pelo equvoco cometido e pelas palavras que proferira. Pediu
sua absolvio.
        A traio  o maior golpe que uma pessoa pode receber. S os amigos traem, e s eles podem consertar o estrago dessa traio. Judas tentou consertar sua
traio ao jogar as moedas de prata aos ps dos fariseus, mas no teve a coragem de se declarar culpado e de se prostrar diante do seu Mestre e pedir desculpas.
Lisa foi mais digna no caos dos seus erros. Era uma mulher.
        O juiz, abalado, encerrou o julgamento. Lcio Fernandes e alguns empresrios presentes saram apressadamente do tribunal. Anna, aos prantos, correu e abraou
longamente Marco Polo. Falco e cada uma das mulheres do comit tambm o abraaram e se solidarizaram com seu grande amigo. A platia ficou agitadssima e profundamente
comovida.
        Em seguida, num gesto sublime, Marco Polo enxugou os olhos, procurou os de Lisa e, ao encontr-los, meneou suavemente a cabea dizendo, entre lgrimas: "Eu
a compreendo. Para mim, voc ainda  uma mulher encantadora" Raramente um olhar foi to afetivo e generoso.
        No dia seguinte, Marco Polo pediu ao Dr. McMeel para defender Lisa e disse que queria ser sua testemunha de defesa. Lisa recebeu o benefcio da delao premiada
e, por colaborar com a justia, teve a pena diminuda. Denunciou 10 executivos que elaboraram o plano para transformar Marco Polo num psicopata. Dessa forma, a sociedade
ficou sabendo que homens inescrupulosos queriam implodir a luta das mulheres.
        O Dr. McMeel e alguns advogados de outras naes comearam a ser contratados pelo comit e por uma srie de instituies que lutam pelos direitos humanos
para processar empresas que discriminavam as mulheres e destruam a infncia e a ingenuidade de crianas e adolescentes ao vender, usar e manipular deslavadamente
o esteretipo da beleza. A humanidade comeou a ficar mais bonita, pois as pessoas comearam a se sentir mais belas.
        O comit atravessou o mais angustiante inverno num tribunal e no mesmo tribunal viu florescer a mais fascinante primavera.


?
        Um ms depois, Marco Polo e Falco viajaram para a Inglaterra para mais uma conferncia, a primeira aps Marco Polo sair da priso. Havia mais de mil participantes,
dos quais 300 eram jovens lderes de movimentos europeus e de outros continentes. A injustia contra Marco Polo incendiara o movimento, que j tinha conquistado
a adeso de milhes de adultos e jovens, tanto mulheres como homens.
        A platia estava animada com a presena dos dois pensadores, e suas falas eram ansiosamente esperadas. Rosie, Sarah, Anna, Elizabeth e as demais dirigentes
do comit ocupavam a primeira fileira. O evento foi aberto com um show comovente. Um grupo de adolescentes portadoras de sndrome de Down apresentou um espetculo
teatral. Seus movimentos eram suaves como os de cisnes bailando sobre as guas. Ao v-las, a ansiedade se transformava em euforia, a angstia se convertia em jbilo.
Ao final da dana, elas se colocaram de p e, apontando as mos graciosamente para seus corpos, passavam ao pblico esta mensagem:
        - Vejam nossos olhos! Vejam nossas orelhas! Vejam nossas faces! Vejam nossas bocas! Vejam como somos lindas! Sim! Somos belas. Somos nicas! Somos seres
humanos!
        A platia, profundamente sensibilizada, as aplaudiu de p. Aps receberem os aplausos, as prprias adolescentes anunciaram Marco Polo e Falco. Ao us-las
para apresentar os dois pensadores, as dirigentes do comit revelaram que todos possumos dignidade e complexidade. Eles subiram no palco e beijaram, abraaram e
agradeceram uma a uma.
        Motivados e inspirados, os dois amigos proferiram a mais brilhante conferncia de suas vidas. No final, transformaram o drama em stira, a dor em alegria.
Abordaram assuntos de extrema seriedade de uma forma suave e agradvel.
        - Quando as mulheres pegam uma revista e vem que seu corpo no  igual  primeira foto da modelo, elas tm um ataque de raiva - disse Marco Polo em tom
de brincadeira.
        A platia sorriu. Ele continuou dizendo que, em vez de fecharem a revista, as mulheres so perseverantes e a folheiam at o fim. E, revendo conceitos, disse:
o registro na memria humana  automtico e involuntrio. Depois de centenas de imagens registradas, forma-se uma janela killer que contm uma imagem doentia e distorcida
do belo. Depois de se exporem a milhares de outras imagens de pessoas com beleza incomum, advindas da televiso, cinema e comerciais, forma-se um padro doentio
no inconsciente. Esse padro torna-se uma zona de conflito que controla a emoo, gera ansiedade, insatisfao, contrao da auto-estima, preocupao excessiva com
a prpria imagem, rejeio por alguma rea do corpo. Todos esses so sintomas da sndrome do padro inatingvel de beleza.
        Ao ouvir essas palavras, Falco entrou imediatamente em cena e brincou: - Quando essas zonas de conflito esto formadas, as mulheres chegam diante dos espelhos
e perguntam: "Espelho, espelho meu, existe algum com mais defeitos do que eu?"
        A platia caiu na gargalhada. Em seguida, Marco Polo acrescentou algo que alertou as mulheres:
        - Em todo o mundo, por no conhecerem o funcionamento
da mente, as mulheres esto matando seus romances. Elas chegam diante dos seus homens e afirmam: "Querido, meu culote est horrvel!" Mas a maioria dos homens nem
sabe o que  culote. Para eles, essa rea anatmica  maravilhosa, sensual, to bela como um ovo de pscoa.
        As mulheres morreram de rir. Falco tomou a frente e, novamente em tom de brincadeira, deu outro exemplo:
        - H mulheres que tm coragem de fazer propaganda das suas estrias para seus maridos ou namorados. Chegam diante deles e,
com a maior ingenuidade do mundo, alardeiam: "Bem, estou
cheia de estrias!" Mas para os homens suas estrias so to belas
como o mapa do pantanal brasileiro.
        As mulheres olhavam umas para as outras sem conter o riso. Marco Polo acrescentou:
        - Tive um paciente que construiu um grande edifcio todo de
tijolos aparentes, mas um bendito tijolo ficou mal posicionado.
Sabem qual era o nico tijolo que ele   conseguia ver naquele
belssimo edifcio? - perguntou, instigando a inteligncia dos
presentes.
        A platia respondeu em peso:
        - O mal posicionado.
        Aps a resposta, perceberam aonde Marco Polo queria chegar. O psiquiatra deu-lhes uma lio inesquecvel:
        -        Quando vocs, mulheres, fazem propaganda para seus homens de uma rea do seu corpo que rejeitam, que tipo de janelas
vocs plantam na memria deles?
        - Killer - responderam, meneando a cabea, conscientes dos erros que cometiam.
        - Muito bem. Por isso, eles passam a dar importncia quilo que antes no era essencial. Os defeitos que vocs acham que possuem, e que freqentemente no
so defeitos, passam a ser
observados por eles e a incomod-los tambm. Isso contribui
para a destruio do encanto e da sensualidade da relao e para
corroer o romantismo.
        Falco disse mais uma vez a frase que era o smbolo do movimento, mas desta vez pediu que a platia a repetisse:
        - Beleza est nos olhos de quem observa. - Os homens da platia tambm a recitaram, porque muitos tinham transtornos da
auto-imagem. O filsofo acrescentou: - Extraiam esse cncer emocional da sua mente. Elogiem seus filhos desde a mais tenra
infncia. Faam com que eles critiquem o padro torturante de
beleza propagado por alguns setores da mdia. Elogiem a sua
beleza fsica e intelectual! Ressaltem a beleza dos seus alunos, dos
colegas de trabalho e, neste momento, de quem est ao seu lado.
        As pessoas olharam umas para as outras e se elogiaram alegre e espontaneamente. Depois que a platia se aquietou, Marco Polo aproveitou para mostrar que,
a no ser que haja um trauma ou uma degenerao cerebral, no  possvel deletar os arquivos na memria humana, como facilmente se faz nos computadores. Por isso
 to fcil perpetuar os conflitos e lev-los para os nossos tmulos. Disse ainda que s  possvel reeditar esses arquivos.
        Estimulou os presentes a usarem a arte da dvida e da crtica para reeditar o filme do inconsciente. Os dois pensadores acharam necessrio divulgar a cincia
nesta conferncia para estimular a conscincia crtica e dar ferramentas para que as pessoas pudessem construir a prpria histria. Em seguida, Marco Polo explicou:
        - A dvida  o princpio da sabedoria na filosofia. Ningum pode abrir o leque da inteligncia e se tornar um sbio sem usar a arte da dvida. Duvidem de
tudo aquilo que os controla, duvidem do sistema que impe um padro de beleza. A crtica  o princpio da sabedoria na psicologia. Critiquem a passividade do eu,
a ditadura da imagem, gerenciem seus pensamentos. Determinem estrategicamente que sero atrizes ou atores principais do teatro da sua mente.
        Marco Polo abordou algumas pesquisas que demonstram que quase 100% das mulheres esto insatisfeitas com o prprio corpo, sejam ou no modelos. Por isso,
era difcil algum conseguir escapar da loucura do falso ideal de beleza das sociedades de consumo. Mulheres e homens precisavam ter a convico de que no existe
beleza perfeita. Toda beleza  imperfeitamente bela. Jamais deveria haver um padro, pois toda beleza  exclusiva como um quadro de pintura, uma obra de arte.
        Inspirado por Marco Polo, Falco novamente falou com humor. Disse que as mulheres deveriam reeditar as janelas doentias que tinham plantado em seus homens.
Instruiu:
        - Durante todo o relacionamento com eles, olhem em seus olhos e digam estas palavras: Eu sou bonita, inteligente, maravilhosa, e voc faz um grande negcio
vivendo comigo. E olhe l!
        Ao recitarem essas palavras, as mulheres riram de tal forma que no conseguiram ir at o fim da frase. Elas aplaudiram os dois conferencistas entusiasticamente.
Entenderam que deveriam mudar seu estilo de vida, que jamais deveriam fazer propagandas dos seus defeitos imaginrios. Ao contrrio, numa sociedade que massacra
a auto-estima, deveriam exaltar seu encanto, sensualidade, inteligncia.
        Guiado por intensa emoo, Marco Polo se aproximou mais do pblico, fitou a platia como se estivesse fitando todas as mulheres do mundo e fez um comentrio
que as comoveu intensamente:
        - No h relatos na histria de mulheres torturando homens, mas h inmeros relatos de homens torturando mulheres. No h relatos na histria de mulheres
controlando, silenciando, apedrejando, queimando e mutilando homens, mas h milhares de relatos de homens cometendo as maiores atrocidades contra as mulheres em
quase todas as sociedades. Os homens so o sexo frgil, pois s os fracos controlam e ferem os outros. A biografia masculina tem uma dvida incalculvel com as mulheres.
        Enquanto Marco Polo falava pausadamente, as mulheres foram envolvidas por uma aura ntima de luz e comoo. Na mente delas, mesmo das adolescentes, passava
um filme de mulheres sendo queimadas, amordaadas, apedrejadas. Sob o clima dessa aura, Marco Polo, o poeta da psiquiatria, afirmou solenemente:
        - Vocs foram injustiadas em muitos perodos pela estupidez, machismo e prepotncia dos homens. E vocs cuidaram de ns carinhosamente, seja no seu tero
biolgico seja no tero social. Agora, novamente, vocs esto sendo maltratadas e controladas, S que desta vez no cerne da sua psique. No permitam. Vejam-se belas.
Sintam-se belas. No se comparem a ningum. Tenham um caso de amor consigo mesmas. Pois sem a auto-estima os homens se transformam em miserveis, as mulheres no
tm sade psquica e os jovens esfacelam o encanto pela existncia.
        E o pensador da psicologia finalizou sua conferncia com brilhantismo:
- Queridas mulheres, vocs honram muito mais a espcie humana do que os homens. Eles falharam historicamente em lider-la. Se vocs dominassem o mundo, a humanidade
seria mais feliz. Se as mulheres fossem generais, no haveria guerras, pois vocs no teriam coragem de enviar seus filhos para os campos de batalha. Mas os homens,
por muito pouco, os enviam. Por isso, de corao, em nome de todos os homens lcidos desta Terra, eu gostaria de pedir desculpas por todos os males que fizemos a
vocs ao longo da histria. Obrigado por vocs serem mulheres. As mulheres se levantaram e o aplaudiram vigorosamente. Algumas enxugavam os olhos com lenos, outras
com as mos, outras ainda com as vestes. Jamais foram to exaltadas e com tanta justia. Neste momento, Falco se aproximou de Marco Polo, colocou-se ao seu lado
e, como um arteso da emoo, deu o fecho final  conferncia:
        - Muitos se dobram aos ps de reis devido  sua fora. Outros se curvam diante de celebridades devido  sua fama. Mas neste momento eu quero me curvar diante
da platia e diante de todas as mulheres do mundo. Pois, sem as mulheres, nossos cus no teriam estrelas, nossas manhs no teriam orvalho, nossas primaveras no
teriam flores. Sem as mulheres, a alma masculina no possuiria sensibilidade, nossa inteligncia no teria sabedoria, nossa emoo no teria poesia. As mulheres
so obras-primas de Deus. Muito obrigado por vocs existirem.
        Todos os presentes choraram. Cada gota de lgrima que derramaram era uma homenagem  coragem, ao encanto e  beleza indecifrvel de cada mulher que viveu
e vive no misterioso palco desta Terra.

AGRADECIMENTOS
          Agradeo a todas as instituies e profissionais da psiquiatria, psicologia e de outras reas que tm investido seu tempo e inteligncia nas mais diversas
naes para cuidar da sade psquica do ser humano, em especial das mulheres, adolescentes e crianas. Quando cuidamos dos sofrimentos dos outros,  mais fcil superar
os nossos, pois a vida fica mais suave.
        Agradeo ainda a algumas instituies, cientistas e profissionais, dos quais utilizei alguns dados para escrever este livro: The British Journal of Psychiatry,
American Psychiatric Association, Universidade de Harvard, Mental Health Fundation, Ambulim (Ambulatrio de transtornos alimentares da USP - Universidade de So
Paulo), empresa StrategyOne, Instituto Academia de Inteligncia, Instituto DataStore, Dra. Nancy Etcoff, Anne E. Backer, Rebecca A. Burwell, David B. Herzog, Dr.
Salem Cury. Parabenizo tambm todas as empresas que esto comeando a se levantar contra a ditadura da beleza; entre elas cito o grupo Unilever (marca Dove), Natura
e Avon.
        Agradeo tambm a todos os meus pacientes. No s tive a oportunidade de ajud-los como aprendi com eles a ser um viajante nas trajetrias do meu prprio
ser e a descobrir que ningum  digno da sabedoria se no usar suas lgrimas e dificuldades para irrig-la.
        Agradeo especialmente a sensibilidade e generosidade das quatro mulheres da minha vida: a Suleima (minha esposa) e s minhas trs filhas: Camila, Carolina
e Cludia. Elas encantam a minha existncia e me ensinam a ser apaixonado pela vida.


SOBRE   0   AUTOR

        Publicado em mais de 40 pases, Augusto Cury  psiquiatra, psicoterapeuta, cientista e escritor. Ps-graduado em Psicologia Social, desenvolveu a teoria
da Inteligncia Multifocal, sobre o funcionamento da mente e o processo de construo do pensamento.
        Entre seus livros, que j venderam mais de 2,5 milhes de exemplares, esto O futuro da humanidade, Pais brilhantes, professores fascinantes, Nunca desista
de seus sonhos e Voc  insubstituvel, publicados pela Editora Sextante.
        Tambm  autor de Inteligncia multifocal (Editora Cultrix), Doze semanas para mudar uma vida, Superando o crcere da emoo e da coleo Anlise da Inteligncia
de Cristo, publicados pela Editora Academia de Inteligncia.
        Conferencista em congressos nacionais e internacionais,  tambm diretor da Academia de Inteligncia, instituto que promove o treinamento de psiclogos,
educadores e outros profissionais. Alm disso,  coordenador do Projeto Escola de Inteligncia, para estimular as funes mais importantes da personalidade dos estudantes.
        Para entrar em contato com a Academia de Inteligncia, acesse o site www.academiadeinteligencia.com.br


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